Documento Estratégico dos Ecomuseus Italianos

 Documento Estratégico dos Ecomuseus Italianos

junho de 2016

Este texto constitui um primeiro instrumento, resultado de uma posição comum e diversos encontros realizados em alguns ecomuseus italianos desde 2014, com o objetivo de criar uma Rede Nacional de Ecomuseus

Índice

  1. Preâmbulo

1.1.Situação atual

1.2 Consolidar a experiencia adquirida de “Mondi Locali”

1.3 Estratégias e objetivos

  1. Agenda 2016. Projetos para o futuro dos ecomuseus
  2. Revisão dos princípios
  3. Glossário
  4. Definições

Os ecomuseus funcionam como processos participativos de reconhecimento, de gestão e de administração do património cultural local, destinados a favorecer o desenvolvimento social, ambiental e uma economia sustentável.

Os ecomuseus são estruturas de projeto que propõem colocar em relação as técnicas, as culturas, as produções, e os recursos de um território homogéneo, apoiando-se nos bens culturais que existem.

Os ecomuseus são percursos de crescimento cultural das comunidades locais, criativos e inclusivos, baseados na participação ativa dos habitantes e a cooperação de outros organismos e associações.

1. Preâmbulo

Recordando os princípios que fundaram as ações colaborativas entre os ecomuseus desde o seu início, pretendemos com este documento contribuir para a génese, desenvolvimento e evolução das experiencias ecomuseais que podem favorecer o surgimento de modelos virtuosos de um desenvolvimento local sustentável

No novo horizonte dos ecomuseus deverá ser marcado por uma museologia mais empenhada na busca de estratégias alternativas de valorização do património cultural, vinculadas à procura e às mudanças que emanam das comunidades locais. Uma museologia que seja capaz de testar todas as possibilidades de gestão do território e de utilização dos seus recursos, mobilizando a criatividade local e colocando em marcha um projeto coerente de valorização do património cultural com o objetivo de aumentar o bem-estar, não apenas económico, da comunidade local, mas também pela valorização cultural, pela beleza da paisagem e pelo fortalecimento do capital social comum. Uma museologia que associe o passado e a memória às novas oportunidades de desenvolvimento, que respeitem o espírito do lugar e as heranças culturais locais do local.

Os ecomuseus vivem independentemente das coleções, existem porque trabalham a partir da centralidade de um património especial, AS PESSOAS, estimulando a sua sensibilidade de dando sentido aos seus esforços.

1.1.Situação atual

Os ecomuseus italianos viveram um período particularmente dinâmico na primeira década deste século, quando se assistiu a uma multiplicação das leis regionais, mas também da organização de encontros de debate e intercâmbio a nível nacional e europeu.

Três organismos desempenharam uma importante função na definição dos critérios de referência e na produção de normas de funcionamento dos ecomuseus italianos: o Laboratório de Ecomuseus de Região de Piamonte, o Observatório dos Ecomuseus de IRES Piamonte e as Comunidades de Práticas “Mondi Locali”

Existem em Itália uma centena de estruturas operacionais que podemos qualificar como ecomuseus. Estão divididas em quase todas as regiões do país. Atualmente as leis específicas sobre os ecomuseus foram adotadas em 12 regiões ou províncias: autónomas: Piamonte (1995), Trento (2000), Friuli Venezia Giulia (2006), Sardenha (2006), Lombardia (2007), Umbria (2007), Molise (2008,) Toscana (2010), Puglia (2011), Veneto (2012), Calabria (2012) e Sicilia (2014). Com base nestas leis foram reconhecidas diversas realidades locais que refletem a qualidade e a complexidade das formas adotadas nos procedimentos únicos, mas também a sua capacidade de intervir nos processos territoriais em curso.

A situação varia muito de um caso para outro: em todas as regiões dotadas de uma lei, estimuladas pelos ecomuseus mais ativos, utilizaram-se ou procuram-se critérios de seleção que sustentam os ecomuseus mais dinâmicos e participativos. Regiões como a Emília-Romana, pelo contrário, escolheram-se outras modalidades para o reconhecimento e o financiamento dos ecomuseus existentes, de forma mais pragmática ou pelos contratos de projeto com o Instituto Regional de Bens Culturais. Inclusive, hoje em dia, apesar da significativa redução do financiamento público, os ecomuseus são uma realidade viva e dinâmica que, em face dos resultados concretos alcançados e dos trajetos percurridos, procuram entrar numa fase nova e fecunda.

1.2 Consolidar a experiencia adquirida de “Mondi Locali”

Nascida em 2007, com a finalidade de partilhar projetos e os percursos dos seus membros, a comunidade de Práticas “Mondi Locali” representou para muitos Ecomuseus um suporte e um instrumento eficaz de patilha e crescimento. Entre as atividades propostas pelo “Mundo Locali” destacam-se:

  • O dia da paisagem, levado a cabo pela primeira vez em 2007, para promover as ações de cidadania ativa. Pode contar, ao longo dos anos, com a participação de numerosos ecomuseus de diversas regiões italianas que contribuíram para ampliar o evento (www.ecomusei.eu) e manter as relações de encontro e colaboração.
  • As experiências formativas do módulo JET – Jovial Ecomuseum Training – um percurso de crescimento de capacidades em termos de elaboração de projetos, de relações humanas e gestão de pessoal dos ecomuseus. Utilizadas em diversas situações com colaborações de centros de pesquisa e universidades, oferecem a numerosos colegas a possibilidade de encontro e compreensão do potencial das práticas ecomuseais.
  • A experimentação do “Mapa da Comunidade”, como instrumento de participação da população no reconhecimento do seu próprio património cultural. Desde as primeiras experiencias nos ecomuseus piamonteses, a prática estendeu-se a todos os ecomuseus italianos e, recentemente, foi integrada nas práticas e procedimentos de planificação da paisagem.

1.3 Estratégias e objetivos

Para assegurar a continuidade dos processos comprometidos nestes últimos anos e garantir a sua manutenção a nível local e nacional, surgiu a estratégia de consolidar as experiências dos ecomuseus através dum intercâmbio colaborativo e dinâmico entre estruturas ecomuseais e outras instituições que se ocupam do património cultural.

As associações territoriais, do nível local até ao regional, são importantes interlocutores dos ecomuseus, para garantir a sua viabilidade e acrescentar valor aos processos de participação e aos objetivos de desenvolvimento local. Na realidade, quanto mais estreita é a relação entre o ecomuseu, as autoridades públicas e as instâncias de participação da população, maiores perspetivas se abrem para operar eficientemente no território e para reforçar a rede de colaboração local.

Mas a complexidade dos “mundos locais” atuais impõem a necessidade de procurar novas alianças com as experiencias e as organizações semelhantes, com os quais partilham princípios e objetivos.

Alguns exemplos:

  • À escala local: Institutos e organismos regionais para o património cultural, inspeções, parques, organizações ambientais, universidades, organizações de comércio justo e solidário, serviços sociais e de saúde pública;
  • À Escala nacional e internacional: O ICOM, Sociedades Territoriais, Slow Food, militantes da Nova Museologia, Redes internacionais de Ecomuseus e Museus de Comunidade.

Para tornar eficaz e sobretudo visível o movimento ecomuseal, propomo-nos construir uma rede permanente a nível nacional.

Propomos para esse fim iniciar uma fase constituinte, através de um roteiro articulado em fases sucessivas para a definição de estruturas, modalidades e objetivos específicos da futura Rede Nacional de Ecomuseus.

Paralelamente, propomos promover momentos concretos de intercâmbio entre os ecomuseus, na seguinte forma: l

  1. Organizar atividades e projetos com o fim de colocar mais em colaboração ecomuseus italianos e estrangeiros sobre temas decididos em comum, de maneira a proporcionar o intercâmbio a cooperação nacional e transfronteiriça;
  2. Colocar em Rede a os projetos em curso e comunica-los;
  3. Monitorizar os resultados alcançados.

Para levar a cabo este programa, procuraremos financiamento europeu (ver sobre esta questão o projeto www.ecoslowroad.eu).

2. Agenda 2016. Projetos para o futuro dos ecomuseus

Nessa perspetiva e também em função da eventual utilização dos Fundos Europeus para a Cultura 2014-2020, a Agenda Ecomusei 2016, propõe-se promover soluções ecomuseais e projetos capazes de tornar possíveis pequenas revoluções culturais que utilizem o património local numa visão holística, segundo os métodos e práticas para o seu conhecimento e uso amplamente partilhados. Os Ecomuseus deverão constituir-se como promotores de laboratórios/observatórios do património, amplificadores locais da ideia ambiciosa e fértil de uma “cultura territorial” capaz de ativar os processos de Patrimonialização, apoiados num conjunto de soluções intelectuais e morais, mas também por tecnológicas e práticas.

Os objetivos previstos para a Agenda 2016 que os ecomuseus têm a intenção de promover são as seguintes:

  1. Apoiar os processos de territorialização, selecionando as boas práticas a reproduzir, que ofereçam regras sustentáveis de governo do território (construtivas, adaptáveis, ecológicas, relacionais, etc.) para encontrar e promover a cultura da salvaguarda e o apoio à gestão do património local, num período onde a proteção e tutela italiana do património seja alvo de uma menor atenção. Os ecomuseus valorizam a identidade dos lugares, os laços entre as comunidades e os seus contextos de vida; é importante que o ecomuseu contribua para a tomada de consciência sobre o território, propondo ao “projeto de paisagem” elaborado de maneira participativa, nos quais as comunidades de reconheçam através duma sociabilidade renovada.

Os ecomuseus podem desempenhar um papel importante nos processos de revitalização e repovoamento dos territórios desfavorecidos (lugares de montanha e também em áreas em recessão), sobretudo pela co implicação dos “novos habitantes”, na medida em que estas pessoas transportem modos de vida sustentáveis, capacidades profissionais inovadoras e uma manifesta sensibilidade para as expressões culturais da tradição local.

  1. Comprometer os processos de patrimonialização, para favorecer os movimentos la regeneração do património cultural local, evitando que o património territorial se desqualifique pelo contacto com os modelos consumistas estrangeiros. Adotaremos modalidades de participação permanente das comunidades locais nos processos de inventário, de tomada de decisões e da gestão do património local, favorecendo os modelos de cidadania ativa e de subsidiariedade vertical e horizontal.

A partir da relação complexa entre as novas tecnologias e a comunicação, os ecomuseus deverão ser capazes de tornar acessíveis os seus conteúdos culturais, difundindo-os através das redes sociais, com o objetivo de os fazer contribuir para a construção de inventários participativos do património, que desempenham um papel importante na formação do “sistema patrimonial”.

Será dada preferência a uma perspetiva que olhe para o património cultural como um recurso indispensável para o desenvolvimento do território e não apenas um quadro de referência para esse desenvolvimento; uma perspetiva que considere os diversos atores sociais como criadores dessa herança, em vez de serem utilizadores ou recetores passivos. Todo isto deve fazer-se através de um processo de reconhecimento e interpretação das tradições e dos valores territoriais autênticos. É particularmente importante, neste contexto, ter em conta a valorização do património imaterial (Convenção de Faro[1]).

Para atingir estos objetivos, propomos o seguinte programa de trabalho que constituirá a Agenda Ecomusei 2016.

  • . Formação e pesquisa

Organizar a colaboração com organismos de pesquisa públicos e privados, as associações e as fundações; promover a formação de mediadores de processos de participativos; chegar a acordos com “spin-off” universitários para que se possa encontrar nos territórios dos ecomuseus um âmbito de aplicação para as suas investigações no domínio da inovação empresarial, de experimentação e incentivo ao autofinanciamento e autogestão; explorar formas e métodos de avaliação de resultados obtidos pelos processos de ecomuseais de desenvolvimento local que poderão constituir-se como referência para boas-práticas.

Propomos o desenvolvimento de um modelo de colaboração para fazer circular pelas universidades, fundações e empresas do terceiro sector, para promover o nascimento de novas relações entre os ecomuseus e os organismos que tenham uma oferta de formação em temas de gestão e administração do território e de avaliação do impacto dos projetos locais de desenvolvimento.

  • Paisagem e Planeamento

Inspirado no modelo da região de Puglia que mostrou o seu dinamismo graças à integração dos ecomuseus entre os redatores do seu Plano de Paisagem Regional, propomos a implementação de um programa de desenvolvimento específico desta linha de ação com o objetivo de que os ecomuseus locais sejam suporte aos observatórios regionais da paisagem. Outro modo de ação será a aplicação dos princípios enunciados na Convenção Europeia da Paisagem[2] que inspira e continua a impulsionar a maioria das ações nos ecomuseus

Propomos a elaboração dum plano de trabalho em forma de guia para os Ecomuseus que desejam assumir o compromisso com a questão da paisagem. Isso poderá dar lugar a uma colaboração com organismos externos, tais como Sociedades de Território ou o Fórum Italiano dos Movimentos para a Terra e paisagem, que trabalham na formulação de novos modelos interdisciplinares de planeamento da paisagem. Também testaremos novos modelos de desenvolvimento local com diversos agentes para a transição.

  • Produção e qualidade de vida

É neste setor que os ecomuseus italianos fizeram maiores esforços nos últimos anos. É importante prosseguir com o que já foi alcançado, em espacial para reforçar as ligações com o “Slow Food Itália[3]”, com as regiões agrícolas e com as formas emergentes de comércio justo e solidário; também continuar e transformar os eixos definidos pela EXPO 2015 “Alimentar o Planeta” em ações concretas e tangíveis para a transformação da cultura consumista de alimentos.

Os ecomuseus deverão centrar-se nas novas formas de economia local, segundo as quais se experimentam projetos de produção em fileiras curtas e sustentáveis, transversais aos vários setores: agrícola, ambiental, turístico, cultural e social (bem-estar).

Os ecomuseus deverão ser promotores duma compatibilização entre os conhecimentos práticos tradicionais e a inovação tecnológica, em particular pela experimentação de novas formas de atividade que colocem os jovens em contacto com o seu património cultural. O modelo ecomuseal pode apresentar um projeto real de desenvolvimento do território em termos económicos, de coesão social e solidez estrutural, mediante a definição de novos cenários, através duma visão de futuro que coloque no centro a beleza, as relações humanas, o respeito pela terram, a qualidade de vida

Propomos, a partir da avaliação das ações já desenvolvidas, definir as linhas diretrizes que podem facilitar a criação e/ou apoio aos sistemas de produção locais, associados à qualidade e otimização dos produtos e atividades derivadas do património cultural e que estejam vocacionadas para o crescimento económico, cultural e social das comunidades implicadas.

  • Educação e animação sociocultural

Os ecomuseus mostraram nos últimos anos a sua capacidade para constituir-se como laboratórios eficazes de ação pedagógica e educativa, sobre o tema da sustentabilidade, da paisagem e do património cultural, ao serviço do mundo escolar, mas também da sociedade em geral, oferecendo-se como um instrumento de “formação contínua” e de mediação e intergeracional.

Os ecomuseus querem igualmente converter-se em disseminadores de animação sociocultural, levando a cabo ações concretas para a procura mais consciente da qualidade de vida. Cada ecomuseu é portador de um património e de uma identidade particular, de um conjunto de projetos e de relações que se expressam de forma criativa.

Para perder o legado de experiencia acumulada ao longo do tempo e para extrair o máximo benefício face às dificuldades sócio económicas dos territórios, os ecomuseus proporcionarão uma supervisão interna dos resultados produzidos em termos de projeto educativo e pedagógico e das iniciativas socio culturais sobre os temas da sustentabilidade, da valorização da paisagem e do património cultural.


 

3. Revisão dos princípios

O ECOMUSEU é…

PAISAGEM porque é a expressão da população que atua na paisagem. A é transformação, cultura, recurso dinâmico, produtiva, criativa, vital. A ação sobre a paisagem deve ser sustentável (resiliente) para permitir ao meio ambiente e à cultura manifestar-se e sustentar-se.

POPULAÇÃO pois são as pessoas que constituem o património “primário e sensível” do ecomuseu, de onde proveem as ações e a criação do sentido de pertença ao território.

CONHECIMENTO: não existe se não houver aquisição de conhecimentos por parte dos habitantes e novos residentes: É um processo participativo onde o objetivo é o desenvolvimento local. O ecomuseu não é apenas um museu ou um centro cultural dedicado às coleções, e sua conservação e valorização, é também isso, mas tem como missão implicar a população na consciência do seu próprio património cultural, para que desenvolva uma função e económica e social como resposta às necessidades e problemas da comunidade.

O ecomuseu garante uma abordagem científica, implementa práticas e capacita a comunidade a contribuir para o desenvolvimento sustentável.

GESTÃO: na medida em que desenvolve a cooperação entre os atores voluntários (solidários) as associações, os profissionais e os organismos público e privados que trabalham em conjunto para acrescentar valor ao património cultural.

Esta gestão deve respeitar a representatividade e o equilíbrio entre as instâncias participativas compostas por todos os atores envolvidos no projeto ecomuseal, segundo formas de governação partilhada entre o setor público, o sector privado e o sector associativo.

EDUCAÇÃO E PESQUISA, porque se centra a atenção da população sobre a sua própria herança cultural, tendo como recurso a memória social, a promoção dos processos de cidadania ativa e a formação do público para identificar, manter e valorizar o seu património cultural.

PLANIFICAÇÃO E ADMINISTRTAÇÃO DO TERRITÓRIO, porque a investigação e a sensibilização para a gestão participativa do património cultural facilitam os processos de decisão partilhada sobre a administração e o planeamento dos usos dos recursos (ambientais, culturais, e paisagísticos). Os instrumentos de diagnósticos usados pelos ecomuseus (tais como inventários participativos, Mapas de Comunitá) tomaram formas específicas de Contrato-Programa na planificação participativa (por exemplo contratos de rios [4]), como suporte à requalificação ambiental, social e à produção de paisagem.

DESENVOLVIMENTO E ECONOMIA, já que implica o ecomuseu nos diferentes setores produtivos:

Produção alimentar e alimentação: o património relacionado com a alimentação tradicional e o bem-estar nutricional estão diretamente relacionados com muitas paisagens culturais italianas. A recuperação das profissões e a possibilidade de valorizar fileiras de qualidade oferecem perspetivas interessantes para repovoar áreas rurais e zonas desfavorecidas.

Artesanato e Formação: o artesanato e os saberes artesanais tornam-se atuais face às necessidades e dificuldades económicas e pessoais, que fazem renascer as formas de economia doméstica. O ecomuseu pode relançar os processos de reutilização dos saberes, associando-os à inovação tecnológica, á formação que pode abrir caminho a nova ocupações artesanais e a uma profissionalização criativa, graças a um pacto entre gerações.

O turismo e a acomodação: os conhecimentos técnicos do turismo devem alcançar um profissionalismo nos locais onde o turismo possa constituir uma opção estratégica e económica. Apesar disso, o ecomuseu parte dum ponto de vista diferente, mais ligado ao espírito do lugar e ao valor afetivo atribuído pelos habitantes à sua paisagem: a paisagem pode ser um fator determinante; ela é formosa, se a comunidade dela se apropria, se os habitantes lhe atribuem valor, se contam as suas histórias, a sua atmosfera, os seus costumes, os seus produtos, de forma convincente e múltipla. O ecomuseu permite à comunidade tornar-se consciente da importância da hospitalidade, ao mesmo tempo que comunica de forma moderna com as novas média, com a Internet e com as redes sociais.

REDE, quer dizer trocas, contaminação de práticas. É indispensável estabelecer e consolidar a rede nacional, para valorizar as experiencias regionais; criar contatos entre os ecomuseus e os museus comunitários na Europa e no mundo, colaborar com Slow Food, os GAL[5], o ICOM, os Parques naturais e todos os demais organismos de diferentes perfis (culturais, socioeconómicos, ambientais) que se ocupem da paisagem.


 

4. Glossário

Mappe di Comunità (Carta de Comunidade[6]). Trata-se duma ferramenta através da qual os habitantes dum determinado lugar têm a possibilidade de representar o seu património, a paisagem, os saberes em que se reconhecem e querem transmitir às novas gerações. (www.mappadicomunita.it). Nele se evidência como a comunidade local se vê, se entende, com atribui valor ao seu próprio território, às suas lembranças, as suas transformações, à sua realidade atual e de que forma ela quer converter no futuro. Construída através de uma cartografia ou qualquer outro meio de representação, é produzida e elaborada para que a população nela se possa reconhecer. Em Puglia, os mapas converteram-se em instrumentos de produção social de paisagem, previstos no novo Plano Paisagístico Territorial Regional (PPTR). Em áreas territoriais homogéneas eles converteram-se em instrumentos para a planificação e o desenvolvimento local (Casentino, Gemonese, Trentino, Argentano, Bosco Mesola, Primaro-Ferrara, Orvieto y Trasimeno, Barbagia y Alto Flumendosa, Monte Sibillini, Biellese …).

Mappe di Paesaggio (Carta da Paisagem). Constituem uma evolução das cartas da comunidade. Esta ferramenta parte do conceito de que a paisagem é a expressão da civilização, de culturas multidisciplinares e, em todos os lugares, um elemento importante da qualidade de vida das pessoas. Como diferença das cartas de comunidades, “os conteúdos organizados” de várias cartas de paisagem representam uma mala pedagógica que permitem realizar atividades, oficinas, cursos sobre alguns “fatos culturais”, transpostos para os territórios e torna-las acessíveis a todos em forma de eventos, de relatos de experiencias. As cartas de paisagem podem ser aplicadas pelas pessoas ou organizações ativas na comunidade (Cervia).

Contrato de Rio (Plano de Bacia Hidrográfica). Uma ferramenta para adotar um conjunto de regras onde os critérios de utilidade pública, de rentabilidade económica, de valorização social, de sustentabilidade ambiental contribuem em partes iguais para a procura de soluções eficazes para a requalificação duma bacia hidrográfica. Os protagonistas devem ser pessoas locais que desejam atuar na definição e na concretização das políticas de proteção e gestão dum bem comum, como é o Rio. (Villanova di Bagnacavallo e os municípios da Bacia do Lamone).

Inventário participativo. Processo para estabelecer de um diagnóstico de um contexto territorial para o qual se preveem ações de desenvolvimento sustentável, através da participação direta das comunidades, nas diferentes categorias que compõem. Trabalha a diferentes níveis: a emergência da memória social, o inventário do património e dos recursos do território, a catalogação dos bens, a definição das ações de desenvolvimento. Requerem-se abordagens originais, métodos interdisciplinares ou não dualistas e práticas e ferramentas inovadoras.[7]

Estatuto dos Lugares. Um documento que consiste num “compromisso” entre os cidadãos e as instituições, através do qual, por um processo participativo de reconhecimento das características distintivas do território, considerado com um bem comum, onde se definem as regras, direitos e deveres para o seu uso, sua valorização, sua conservação e sua transformação. Pode-se pode definir como “um ato constitutivo para o desenvolvimento do local: o projeto para um futuro socialmente partilhado ” (Alberto Magnaghi[8]).

Fileiras curtas e Locais. São processos que colocam em relação o uso correto e sustentável dos recursos com a valorização das paisagens e das identidades locais, com o objetivo de criar economias integradas de desenvolvimento local. Colocam no centro os produtores e os seus saberes e estimulam a colaboração entre os outros atores (empresas agrícolas, laboratórios de transformação, restaurantes, agências de turismo) com o objetivo de criar um vínculo entre os que produzem e os que consomem. Isso garante aos primeiros visibilidade e um rendimento decente, e aos segundos a oportunidade para usufruir as técnicas e as culturas locais, muito mais além da simples troca de produtos. (Gemonese, Casentino, Biella; Feria de los ecomuseos de Argenta).

Formação. Programas e iniciativas divididas em módulos destinados à formação e educação de operadores, também dirigidos a pessoas que não são aderentes à Rede.

Percursos participativos. Saídas no território para ler e interpretar as suas componentes as suas interações, dirigidas principalmente à população (Trentino, Biella).

Dia da paisagem. Criado em 2007, conta com a participação de numerosos ecomuseus italianos. Para participar no dia da paisagem, deve-se realizar uma Acão de participação para gerar uma maior consciência da comunidade e a sua co implicação com a gestão das suas próprias paisagens. A disseminação das práticas faz-se no próprio site (www.ecomusei.eu).

Mediação. Processo através do qual os cidadãos são sensibilizados e formados para tomar consciência do património material e imaterial e dos recursos do seu território; por outro lado é um processo que facilita a adesão e a tomada de consciência do património dos outros habitantes, dos vizinhos, dos amigos, todas as pessoas interessadas, dos agentes de desenvolvimento local; convidando-os a ter em conta o património e a paisagem e a pronunciar-se sobre eles. A publicação “Manual do Mediador do Ecomuseu” proporciona métodos e ferramentas operacionais e dá uma contribuição para a valorização, o incentivo, e o diálogo. (www.provincia.terni.it/ecomuseo/documenti/manuale% descargable 20del 20FE.pdf%).

Capacitação. Dirige-se aos grupos de população que são “capazes de fazer” para conhecer o património, de se apropriar da cultura da paisagem e de participar na governação do desenvolvimento local.

Interpretação e Narrativa. O museu utiliza ferramentas criativas e inovadoras, diacrónicas e multidisciplinares, através das quais interpreta e comunica o espírito do lugar (genius loci) e a identidade cultural dum território. Assim que se recolhem os resultados das narrativas geradas pelo trabalho sobre os lugares da cultura local, que de seguida se devolvem aos diversos beneficiários: a comunidade (para reconhecer-se) e ao público externo (para reconhecimento da região). Estas ferramentas podem ser proporcionadas em espaços físicos (para o desenvolvimento de centros de interpretação), através de ações específicas (roteiros patrimoniais, instalações artísticas utilizando diferentes meios), produtos multimédia e publicações.


 

5. Definições

O ECOMUSEU é a POPULAÇÃO e as suas diferentes componentes, que provoca a participação, o conhecimento da PAISAGEM e do PATRIMÓNIO. Estimula os processos dinâmicos e as decisões partilhadas sobre o DESENVOLVIMENTO LOCAL.

O ECOMUSEU é um PACTO, no qual uma comunidade reconstitui o sentido do seu território (Maurizio Maggi[9]).

Um ECOMUSEU é qualquer coisa que representa o que é UM TERRITÓRIO, o que são os seus habitantes, a partir da CULTURA VIVA DAS PESSOAS, do seu meio ambiente, que HERDARAM do passado, e que o AMAM, e que desejam mostrar aos seus convidados e TRANSMITIR aos seus descendentes (Hugues de Varine[10]).

[1] “Convenção-Quadro do Conselho da Europa Sobre o Valor do Património Cultural para a Sociedade”, assinada em Faro em Outubro de 2005 no âmbito da Conferência de Ministros da Cultura do Conselho Europa http://www.patrimoniocultural.pt/media/uploads/cc/ConvencaodeFaro.pdf

[2]Convenção Europeia da Paisagem (Decreto n.º 4/2005) .assinada em Florença em 20 de Outubro de 2000 – https://dre.pt/application/dir/pdf1sdip/2005/02/031A00/10171028.pdf

[3] http://www.slowfood.com/

[4] Planos de Bacia hidrográfica

[5] GAL – Grupos de Ação Local formados no âmbito do Programa Leder http://ec.europa.eu/agriculture/rur/leaderplus/index_en.htm

[6] Em português veja—se a Carta do Património (http://recil.grupolusofona.pt/handle/10437/5471)

[7] Ver em https://inventariopartecipativo.wordpress.com/

[8] https://www.amazon.it/progetto-locale-Verso-coscienza-luogo/dp/8833921506

[9] https://www.researchgate.net/profile/Maurizio_Maggi

[10] http://www.hugues-devarine.eu/