Museologia de Interpretação da Paisagem

Museologia de Interpretação da Paisagem – O Ecomuseu dos Biscoitos, da Ilha Terceira, por Arq. Fernando Pessoa.

Sou um entusiasta da ecologia, porque ela permite envolver o visitante na globalidade da realidade natural – cultural e veio dar ao museu uma dimensão e uma aproximação das pessoas, que lhe faltava até aí. Aliás, quem teve, como eu, o privilegio de conhecer e conviver com George Henri Rivière, ficava certamente contagiado com a sua vivacidade, a sua utopia, com o encanto que emanava da sua conversação, direi mesmo, com sabedoria que 80 anos de uma vida culturalmente riquíssima foi capaz de sedimentar.

Já foram por demais debatidos os conceitos, as práticas, as contradições e o futuro dessa nova museologia que, a partir do final da década de 60 começou a animar o panorama museológico europeu, e não me vou envolver nesse caminho.

Nada que o homem faça será alguma vez completamente perfeito, o que importa é que os resultados sejam maioritariamente proveitosos.

Desde 1979 que lutei, em vão, pela implantação de ecomuseus, em especial na Serra da estrela, porque estava convencido que possuíamos nessa altura as condições sociológicas e culturais para implementar essas instituições.

Mas em 1994, ao ser-me pedido que elaborasse uma proposta para um sistema museológico das áreas protegidas portuguesas, com base nos pressupostos da ecomuseologia, defendi que nessa altura já a designação original de ecomuseu estava desfasada, na generalidade, porque se tinha alterado a situação das populações e das suas regiões, é que uma das características mais relevantes do ecomuseu era a participação activa e permanente das pessoas na animação e gestão dos seus museus que traduziam a vivência e o ambiente no Tempo e no Espaço.

Não sei se ainda hoje é como eu conheci, mas, a título de exemplo, há poucos anos no Ecomuseu do Baixo Sena, numa antiga padaria de uma aldeia que era um pólo do museu, o padeiro continuava a fabricar o magnifico pão caseiro, e servia de interlocutor aos visitantes, falando-lhes das técnicas e da tradição da panificação das histórias da aldeia, da sua própria vida local.

Este era o ecomuseu que GHR sonhara.

Só que as sociedades evoluíram, os pressupostos das economias regionais transformaram-se, a massificação da Cultura atingiu todos os recantos dos territórios, e em Portugal de 1994, salvo um ou outro caso pontual, já não era possível encontrar populações, mesmo rurais, motivadas para animarem um ecomuseu.

Mas, tirando esse aspecto, a dinâmica, as estruturas e as técnicas de exploração de ecomuseologia continuavam pertinentes e actuais.

Daí que tenha proposto que os museus a criar na maioria das Áreas Protegidas, como os parques naturais, ou mesmo fora deles, já não se designasse ecomuseus, que me pareceria impróprio e abusivo, excepto num caso onde existia ainda uma dinâmica forte das populações, e adoptassem outra designação – a de museus de interpretação da paisagem.

E passo a explicar “sucintamente em que me baseei para essa proposta.

Creio que é pacífica a ideia de que a paisagem de uma dada região é onde se conjugam de forma inequívoca o património natural – os valores da geologia, das plantas e dos animais, e os sistemas que os integram (ecossistemas) – e o património cultural das populações que habitam aquela região – as construções, as estruturas da paisagem, as benfeitorias que permitam a exploração da terra. Mas também as suas crenças, as suas tradições, hábitos e modos de vida.

Tenho lido centenas de páginas – e os franceses nisso são exímios, digo-o com admiração – sobre conceitos de paisagem, teorias da paisagem, filosofia da paisagem, etc.

A mim, como arquitecto paisagista, a paisagem interessa-me como o resultado da construção, pelo homem, do seu ambiente, utilizando os recursos e os materiais da Natureza que os rodeia.

Essa modelação do território foi iniciada com a passagem do povoamento nómada ou itinerante dos tempos mais primitivos para o povoamento predominante sedentário a partir dos tempos neolíticos. Também, não vou aqui alongar a deserção académica do tema, por demais conhecido de todos.

De geração em geração as populações imprimiram ao território as características das suas formas de economia e da sua cultura.

A noção de paisagem, que hoje consideramos, é um fenómeno sobretudo ocidental, como é do conhecimento geral, e iniciado com pintura de elementos do ambiente natural como fundo ou cenário das figuras humanas, de cariz religioso, que se realçavam nos quadros.

Da ideia de “paisagem” pintada passou-se depois ao conceito de paisagem real, biofísica.

Paisagem e território passam a serem usados em comum, embora existam abordagens diferentes às duas designações.

Os arquitectos paisagistas estão particularmente envolvidos nesta utilização do termo paisagem, desde os inícios do século XX, e mais tarde no regresso ao conceito de território sem que, contudo, a noção de paisagem deixasse de estar sempre presente.

Durante os anos 50 (já custa a dizer do século passado) começaram a surgir os planos de ordenamento paisagístico, processo que nas décadas de 60 e 70 sofreu considerável sistematização e evolução de metodologia, e através dos quais os paisagistas procuravam estabelecer o uso correcto do território; eles evoluíram depois para os actuais planos de ordenamento do território.

As ideias-base, a metodologia de análise, diagnóstico e síntese, própria do ordenamento paisagístico incluíam já os aspectos económicos, culturais e sociais que hoje dão forma, a par dos aspectos biofísicos, ao processo de ordenamento do território.

Mas o termo paisagem permanece, pois o ordenamento ao definir os usos do espaço de acordo com as aptidões e potencialidades de cada parcela, deve procurar conservar e valorizar as paisagens – e aqui entra inequivocamente o factor estético.

A paisagem é, pois, o território correctamente ordenado capaz de suscitar emoções estéticas e de transmitir beleza; a funcionalidade da paisagem anda aliada com o seu ordenamento pois, como já ensinava santo Agostinho, a beleza é o esplendor da ordem.

Uma das funções dos museus é a de interpretar o património a que estão dedicados; a interpretação é indispensável para que haja compreensão daquilo que se observa e se quer conhecer.

Não basta conservar objectos e documentos, pois um arquivo ou depósito também o fazem, e todos os museus têm essas secções indispensáveis; o museu além de conservar património tem também que dar a conhecer ao público, e facultar-lhes a interpretação daquilo que é exposto.

Eu penso que a ecomuseologia, com as suas propostas de musealização no espaço (o Museu do Espaço de Rivière) é uma museologia de interpretação da paisagem, e daí eu propor que os museus das áreas protegidas fossem designados de museus de interpretação da paisagem.

Eles não se confundem com os centros de interpretação, pois estes não são propriamente museus, não conservam património – apenas dão informação e ajudam a interpretar a Natureza ou mesmo a paisagem.

A museologia de interpretação da paisagem, e os ecomuseus, são instrumentos de desenvolvimento local ou regional, e enquadram-se na perspectiva dum processo cultural sustentável, equivalente cultural ao desenvolvimento sustentável com idênticas premissas na diversidade – num caso a diversidade cultural, no outro a biodiversidade.

As actividades tradicionais de difícil continuidade pela reduzida dimensão ou pouca competitividade podem ser suportadas com o apoio da sua valorização cultural, que o ecomuseu (ou no Canadá o ecomuseu) proporciona.

A imagem junta dá-nos uma vista geral da área da vinha dos Biscoitos, na ilha Terceira, sobre a qual nos vamos debruçar na nossa proposta.

Trata-se de uma encosta voltada a N. relativamente suave, que vem desde a linha de alturas no interior e desce até ao mar, acentuando-se o declive à medida que nos aproximamos do topo da elevação.

A designação de Biscoitos foi-lhes dada, ao que pelos primeiros povoadores, logo a seguir ao achamento da Ilha de Jesus Cristo, a “terceira” a ser descoberta, por causa da pedra solta, castanho torrado a negro, da pedra vulcânica que forma a calçada das vinhas fazendo lembrar os pedaços dos biscoitos que os marinheiros transportavam a bordo das caravelas e naus, como alimento de longa duração.

De acordo com José Henrique Pires Borges, jornalista e estudioso da História da Terceira, a vinha foi começada a plantar logo a seguir à cultura dos cereais, aos quais se dedicaram os melhores solos, pois daí dependia a sobrevivência dos colonizadores; a vinha ocupou os solos mais pedregosos de “biscoitos”.

Igualmente segundo Jácome de Bruges Bettencourt, que tem estudado e conhece também muito da História da Ilha, foi logo no século XV que se plantaram as primeiras vinhas, sendo as da Verdelho tão produtiva que acabou por travar a expansão da área de vinha, pois o preço do vinho baixara tanto que não era compensador; dessa casta saem vinho do lavrador e vinho fortificado.

Entre meados do século XVII a inícios do século XVIII decorreu uma época de baixa produção, e no século XIX deu-se o aparecimento de uma série de doenças das vinhas como o oídio, míldio e filoxera, que causaram um terrível decréscimo daquela cultura. Em finais do século XIX com a utilização de porta-enxertos resistentes ao filoxera, reiniciou-se a expansão da vinha com a casta da Verdelho, em grande parte devida ao fundador da Casa Agrícola Brum (Francisco Maria Brum), ainda hoje dedicados à vitivinicultura; mantiveram as práticas tradicionais, que se revelaram as mais adequadas à cultura, e a paisagem continuou imperturbavelmente com as mesmas características com que havia sido construída no século XV.

Essas vinhas, com a estrutura do território que possibilita as melhores condições para a sua cultura, chegando praticamente inalterada aos nossos dias, constituem uma paisagem histórica de grande significado.

Denotando extraordinário sentido de adaptação a novas condições ecoclimáticas e um grande conhecimento das capacidades produtivas dos materiais naturais, os primeiros povoadores começaram por escolher sabiamente a orientação de encosta, apesar de ser de difícil preparação.

Com efeito, existe pouca terra e pouco profunda nesta área, e a vinha é plantada na própria rocha friável, nela abrindo covas a esforço de braços e de alvião, onde se introduz o bacelo.

Para proteger a vinha da salinidade do ar e da força dos ventos que sopram do oceano, ali a escassos metros, toda a área de vinha foi trabalhada com a construção de uma quadrícula, mais ou menos regular em dimensões, de muros (travessas) de pedra seca – as curraletas – feitas de pedra solta que é resultado do desmonte do terreno. Como se pode depreender das imagens, é um trabalho penoso, iniciado nos recuados anos de quatrocentos e que se manteve até aos nosso dias; continua-se a trabalhar com a s mesmas técnicas e os mesmos objectivos.

Estamos assim perante uma paisagem histórica com o valor que lhes advém de ser secular e de continuar a “funcionar” ininterruptamente desde então; é como se fosse uma catedral ou uma fortificação que nos chega do século XV.

Apesar deste inquestionável valor patrimonial, a área de vinhas da Verdelho nos Biscoitos tem vindo a ser ameaçada seriamente nos últimos anos, pela expansão da construção de moradias; iniciativas diversas, nomeadamente desenvolvidas pela Confraria do Vinho de Verdelho dos Biscoitos, têm, tentado em vão, junto das autoridades, a protecção que uma paisagem daquela natureza exige.

As autoridades autárquicas têm sido pouco receptivas e as autoridades regionais pautam-se por evasivas e meias-medidas que não têm conseguido travar o surto das novas construções.

Ora nesta área da freguesia dos Biscoitos vive-se o ambiente propicio à instituição de um ecomuseu, porque uma boa parte da população participa na manutenção e na animação desta paisagem, baseada na cultura de vinha em curraletas. O facto da Junta se Freguesia e mesmo a Câmara Municipal de Praia da Vitória não serem propriamente entusiastas de medidas decisivas de protecção àquela paisagem, e até revelarem nítida preferência pela expansão urbano-turistica, isso não representa o sentido da maior parte das pessoas da freguesia.

A criação de um Ecomuseu será uma medida de alcance cultural, que alargará a notoriedade que a freguesia hoje já tem graças ao vinho licoroso (VLQPRD- Biscoitos); além disso dará novo alento á população que já hoje se envolve na actividade das vinhas e poderá atrair novos entusiasmos por exemplo através de campos de trabalho em férias para a juventude, durante os quais as camadas jovens colaboram na execução dos trabalhos e aprendem o valor patrimonial daquela região.

A musealização do Sítio dos Biscoitos onde se mantém a paisagem histórica de vinhas que remota ao século XV, poderá ser feita através do Ecomuseu doa Biscoitos, no qual entram entre outros os seguintes elementos:

  • A área de curraletas.
  • Rede de caminho de passeio entre as áreas de vinha.
  • Miradouros no interior das áreas de vinha.
  • O Museu do vinho e o campo Ampelográfico da Casa Agrícola Brum.
  • As adegas de vinho da zona.
  • Oficinas de artesanato local (cesteiros).
  • Ruínas de uma adega primitiva do século XVII ou XVIII- Presa dos Lagarinhos.
  • Ermida de Santo António, e ruínas de duas outras.
  • Forte de S. Pedro e Forte do Rolo.
  • Animação ligada à cultura da vinha.
  • Vestígios da antiga actividade da caça à baleia.

Foto Aristides Pires- ano de 1997

Com efeito, se juntarmos aos elementos referidos a animação que a população ainda confere à actividade, temos todas as condições para anunciar um ecomuseu, e já não apenas um museu de interpretação de paisagem.

A instalação de novas curraletas continua a ser feita por processos artesanais, o que confere mais um elo de continuidade histórica à área do ecomuseu.

Ao longo do ano efectuam-se todas as práticas culturais que a vinha exige, mas a época grande é a das vindimas, que continuam a fazer-se tradicionalmente; e o que é agora mantido pela casa Agrícola Brum pode ser fomentado nos outros proprietários, se houver empenho colectivo e das autoridades: grupos de homens e mulheres vão colher as uvas, depois forma-se um cortejo com o transporte em carro de bois até ao lagar.

Aqui grupos de homens e mulheres pisam as uvas com os pés, e a festa continua.

É preciso esclarecer que o vinho licoroso que se produz no sítio dos Biscoitos é de elevada qualidade (VLQPRD) e a sua pequena produção é toda vendida sem qualquer dificuldade.

Portanto, para além do valor histórico e cultural que representa a paisagem deste sítio, existe ainda a sua valia económica que se traduz num vinho famoso e cuja produção merece, sem sombra de dúvida, continuar e ser preservada.

O Ecomuseu dos Biscoitos poderá contar, recorrendo à documentação que existe, a história da ocupação da área da freguesia dos Biscoitos desde o povoamento, a escolha da zona para a plantação das primeiras vinhas, as outras actividades económicas de que há registo, a saga das vinhas ao longo dos séculos, etc.; depois o visitante poderá seguir os percursos do sítio ou o “espaço museológico” durante os quais contará com vários pontos de interesse da listagem acima referida e outros pontos que um estudo de mais pormenor poderá vir a indicar.

Já vimos como a área de paisagem histórica está a ser continuamente delapidada, que aliás a imagem junta ilustra; sucessivas medidas preventivas publicadas pela Autarquia mais não têm sido paliativos que adiam a tomada de decisão pela protecção total e definitiva daquela paisagem, e possibilitam que se continuem a construir moradias.

Estas cortam a ligação da área de vinha com a paisagem envolvente, com a qual se constitui uma unidade de paisagem bem identificada; além disso as casas ensombram áreas de curraletas e alteram as condições microclimáticas que são o suporte da excelência dos vinhos, incluindo o licoroso (VLQPRD).

Assim, custa a compreender porque é que as Autoridades Regionais não são sensíveis ao valor do património paisagístico, económico, cultural e económico dos Biscoitos, ou que interesses poderosos estarão por trás deste continuando adiamento da decisão que um património tão valioso mercê. È fundamental que o Governo Regional, nomeadamente das suas Secretarias que se ocupam da Cultura e do Ambiente, além é claro da Agricultura, não perca mais tempo a intervir e dê provas de maturidade cultural digna de condição europeia do século XXI, instituindo ali uma Área de Paisagem Protegida.

Gostaria, por isso, de propor aqui, neste momento que uma das conclusões deste Seminário Internacional seja relativa ao Sítio dos Biscoitos, com uma recomendação ao Governo Regional dos Açores solicitando-lhe todo o empenho para a salvaguarda imediata e urgente da área histórica da vinha, não a desenquadrando da paisagem envolvente com a qual constitui uma unidade de paisagem, e impedindo novas construções de habitação; e que essas medidas possam conduzir à criação, não só de uma área protegida, como de uma instituição de carácter museológico que interprete e conserve o património ali existente.

Setúbal, 15 de Maio de 2001

Fernando Santos Pessoa

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