Viagem ao Brasil Barroco e Festa II

A coerência entre a análise do presente e a construção da vontade de futuro.

A coerência entre a análise do presente e a construção da vontade de futuro aplicam metodologia diferenciadas pelo que colocam questões em planos gnosiológicos diferentes. Haverá que resolver esta contradição no programa de trabalhos das heranças globais.

Sentado na esplanada do museu histórico nacional, depois de ter passado um para de horas à volta com a memória do povo brasileiro, reflito sobre as suas narrativas. Melhor, sobre as suas auto narrativas, uma vez que quem faz a narrativa sobre si mesmo costuma ser como que um juiz em causa própria. O discurso sobre o povo brasileiro é antigo, de José de Alencar e Mário de Andrade a Gilberto Freyre, passando por Darcy Ribeiro, há uma plêiade de intelectuais que criaram diversos discursos. O Índio, o Português e o Africano que produziram uma nação nova. Dessa variação de dosagem matricial emergem os nordestinos, os gaúchos, os sertanejos, os baianos, os cariocas. Enfim cada identidade vai-se afirmando a partir das especificidades da observação do narrador, das referências e objetivos desse mesmo narrador.

O campo de compreensão e de explicação de cada um dos narradores parte do seu presente. E esse presente. A preocupação sobre o tempo presente é influenciada pela vontade de transformação. O futuro como ação É nesta dimensão que se levante o problema da natureza do conhecimento. Trata-se de fenómenos diferentes, em que o presente (ou passado) é codificado em dados que se constituem como fluxos de energia que se observam, ou se crê observar, no presente por via da atribuição da valor à sua carga (simbólica). A observação do valor, é dada pelo ponto de partida e quiça da vontade de futuro. Ora o mundo, enquanto vontade e representação, é nesse domínio da ação, iminentemente político. Haverá portanto uma”ciência da política?

Deixemos para depois esta questão e centremo-nos no problema do conhecimento ou nos planos gnosiológicos. Sabemos, pela filosofia que as formas do conhecimento humano se podem definir como sensíveis (os sentidos da visão, audição, gosto, olfato, tato). Como cada destes depende da ação dum órgão, haverá ainda de olhar para a conformidade dos dados que cada um fornece para ajustar a sua conformidade. Haverá portanto que adicionar a capacidade de intuir a partir de dados parciais.

Para a seleção da informação (dados) pertinente é importante a ativação da memória (nos seus diferentes planos, que permite mobilizar dados do passado obtidos em contextos similares. Uma outra capacidade primária inata do ser humano é a de representar a informação de forma diferente, de as combinar em soluções inovadores. Imaginação ou fantasia são atributos essenciais à inovação.

A partir das representações ou como suporte dessas narrativas o conhecimento produz ideias. São conjuntos de representações, de validade universal ou de discriminação, que se constituem como dados singulares duma determinada realidade a partir dos quais processam considerações de ordem estética, ética, moral, religiosa, científica, etc.

Esse princípios gerais, leis, ou normas, ao contrário de resultarem dum processo de relação com o exterior, (com o ambiente) resultam duma elaboração reflexiva do próprio pensamento. Trata-se portanto dum conhecimento reflexivo que se constrói no processo de eleboração mental. Intelectual.

Em Aristóteles encontramos uma distinção entre três tipos de conhecimento intelectual: a ideia (um conceito), o juízo (um confronto entre duas ideias, onde uma é afirmada ou negada) e o raciocínio (um confronto entre dois juízos para chegar a uma conclusão).

Todas estas formas de pensamento exprimem-se através de diferentes formas e diferentes graus de complexidade. O pensamento exprime através de termos, preposições e argumentos e são expressos através de formas sensíveis (sons e movimentos) ou simbólicas (escrita o desenho). O raciocínio aristotélico exprime-se por através da arte do silogismo, ou pensamento lógico, onde existem sempre três preposições. Duas são as premissas e a última é conclusão. (se a=b e b=c, então a=c).

Regressemos então às nossas narrativas sobre a identidade brasileira sentados que estávamos no museu nacional. A manhã começou na praia do Flamengo. Atravessei os jardins do Catete. O Jardim é um micro-cosmos recriado pelo homem que reflete o que se passa à volta. Os cheiros, os ruídos, os movimentos duma cidade escondem-se e misturam-se. É um modo de começar a interrogar os ritmos da cidade. Senti uma cidade tranquila. Sentem-se várias tensões no ar, mais na zona central. A revolta dos estudantes e dos professores contra a falta de financiamento do sistema de ensino gerou forte contestação entre juventude. Vários grupos organizam-se para atacar bancos e instituições financeiras, olhadas como agentes ou símbolos duma sociedade desigual. São uma parte importante desta guerra que está em curso. Esta é uma premissa da análise. Estamos perante uma guerra civilizacional.

A revolta dos insurgentes contra a mercadoria mostra-nos um país em convulsão. Um país envolvido no Barroco. Trata-se portanto duma país em mudança onde os movimentos sociais se orientam por ideias de construção coletiva. Esta é uma segunda premissa, de que o movimento social se assume como uma agregação de indivíduos em determinada direção.

O barroco como emergência dessa insurgência é um contraste com as narrativas do museu histórico nacional. Nele se falam sobre as memórias guardadas. Sobre as várias narrativas étnicas. Sobre as formas como o passado chega ao presente. Não fala sobre esse presente. Ora se os museus guardam memórias, também lhes dão sentidos. São essa as narrativas dos museus. Poderemos concluir que os espaços de memória apenas apresentam as narrativas do passado não assumindo as contradições do presente.

Vejamos como é construída esta narrativa sobre a identidade brasileira no museu de histórico nacional. Com amplos recursos tecnológicos, a narrativa é apresentada com base numa linha histórica, desenvolvendo-se em circuito através dos quais vão surgindo os diferentes núcleos temáticos. A exposição principal, de longa duração, apresenta um interlúdio, sobre o edifício. O antigo palácio, conjunto arquitetónico inseridos no centro do Rio de Janeiro, adossado às primeiras estruturas defensivas da cidade, na baía de Guanabara. Uma narrativa apresentada através de painéis. Uma estátua equestre do Imperador Dom Pedro II de Francisco Manuel Chaves Pinheiro, um escultor romatico, integrante da Missão Francesa.

O circuito de exposição de longa duração inicia-se no primeiro piso, onde no grande salão do primeiro andar se apresenta o diferentes momentos do museus através de um filme. A exposição de artefactos apresenta-se na sala seguinte. Uma coleção de artefatos da pré-história brasileira. Os objetos mostram a presença e a ocupação humana na amazónia. De entre elas sobressaem os sambaquis, uma palavra tupi que significa monte de moluscos, ou seja os concheiros do litoral. Algumas das representações pictóricas encontradas nas grutas e caverna, são reproduzidas em cenário virtual.

Ainda nestes espaço expositivo ensaia-se uma narrativa sobre a “memória, impressões e expressões. Um texto intrepertativo de Anne Marie Pessis[1] que sintetiza a abordagem sobre a memória social. Afirma a autora: “Antes da invenção da escrita, os acontecimentos relevantes da vida humana se guardavam na memória das comunidades por meio da comunicação oral. Os mais idosos passavam seus conhecimentos aos mais jovens, que fariam depois o mesmo com as gerações subseqüentes.

Para garantir a memória dessa transmissão e impedir o esquecimento dos eventos e do saber obtido pela experiência, recorria-se a atividades rituais. Organizavam-se diversos tipos de festas comemorativas e criavam-se objetos especiais, que diferiam dos utensílios usados no dia-a-dia da comunidade por sua beleza, às vezes extraordinária, e por uma apurada qualidade técnica. Tais objetos tornavam-se marcadores de memória, ajudavam a lembrar o passado e a manter a identidade de cada grupo. Por serem diferentes, tornavam-se únicos e simbólicos, e possibilitavam assim a associação das lembranças coletivas às histórias sobre acontecimentos, constituindo um acervo de explicações que representava a memória social.

A partir de certo momento, dentre esses procedimentos destinados a ativar a memória social, surgiu um de grande força evocativa, fruto da capacidade humana de representar graficamente uma narração. São as imagens realizadas sobre suportes corporais ou materiais, registro gestual da fugacidade dos eventos, que atravessaram milênios e se conservaram até nossos dias.

De norte a sul do Brasil, existem centenas de sítios, cavernas e rochas a céu aberto onde se encontram esses sinais pictóricos, deixados pelo homem em diferentes épocas. As imagens das pinturas rupestres representando animais, objetos e figuras humanas – nem sempre reconhecíveis pela contemporaneidade – formam uma espécie própria de linguagem, diferente da escrita. Elas são a representação gráfica de suas crenças, de seus afazeres, de suas técnicas e de seu modo de convivência social.

Foi devido a essa capacidade do homem primitivo, de reproduzir graficamente o produto do pensamento e da imaginação através do desenho, que pôde constituir-se o acervo de pinturas e gravuras feitas em suportes rochosos, fontes de informações sobre um período longínquo da vida humana.

Na sala seguinte, mantém-se o conceito evolutivo, introduzindo-se a chegada dos invasores europeus, simbolicamente representada pelo quadro de Pedro Alvares Cabral no meio dos índios brasileiros. O conquistador é apresentado debaixo de um foco de luz solar, mostrando-se as imagens dos índios como uma massa obscurecida, que permanece na sombra da floresta. Curiosamente este novo ciclo inicia-se com a apresentação do “dono da terra”. Uma abordagem mais antropológica sobre os índios da amazónia. Inicia-se com a apresentação dos estudos sobre os índios, desenvolvidos sobretudo a partir do século XX, através do estudos das comunidades sobreviventes. Apresenta-se ainda alguma preocupação social com a condição atual destas comunidades, que vivem nas periferias das grandes cidades. De seguida a exposição aborda a cosmogonia das comunidades ameríndias. O tempo, as formas de produção para a subsistência, da caça, da pesca e a agricultura, com a tradicional separação de género. Segue-se a arte da vida, onde se apresentam os modelos de sociabilidade, as formas de organização e hierarquização social, as formas simbólicas de representação através dos adornos e das diferentes especializações funcionais. A arte da guerra, onde se apresentam as formas de defesa e agressão contra os outros, para além dos territórios. As formas rituais e as suas produções simbólicas, tais como os adornos e as pinturas surgem de seguida.

Cada secção é apresentada através dum painel explicativo onde se fornece a chave de interpretação dos objetos que de seguida são apresentados em vitrinas. Textos curtos, com cerca de mil carateres, em português. Por exemplo, sobre os rituais escreve-se “Os rituais são geralmente meios de interagir com o outro e com o meio ambiente, seguindo determinada lógica tribal de participação em conjunto. Eles multiplicam as conexões associativas, ampliando os sentidos. Assim, há sempre alusões ao espírito coletivo, à comunhão. A pintura dos corpos, a utilização de máscaras, músicas, danças e diversas outras atividades que podem ser relacionadas a rituais indígenas brasileiros acontecem para manter o fluxo de energia. Alguns rituais procuram estabelecer conexões com o ecossistema. Neles, os indivíduos tentam provocar fenômenos físicos como a chuva, incorporar espíritos de animais, obter a cura com a utilização da flora local nas cerimônias. Em outros, há uma conexão com o “mundo exterior”, com o transcendental. Por isso, há cerimônias para reverenciar seus ancestrais, seus deuses e os espíritos guardiões. Os líderes que comandam os ritos têm papéis centrais na vida social dessas comunidades, pois são considerados conectores de uma experiência para outra, passagem marcada pelo ritual. Cada grupo, em cada tempo e espaço, desenvolveu diversos e específicos rituais que regulamentavam o seu viver em conjunto. Cada texto temático é apresentado por especialistas de diferentes áreas e universidades, procurando que a apresentação seja também sobre a totalidade do território.

O ciclo expositivo que apresenta ainda os objetos de cerâmica e demais objetos de trabalho, produção essencial para a sobrevivência, os rituais de aprendizagem dos jovens, essenciais para o desempenho dos papéis sociais, e termina com a abordagem da morte, dos rituais fúnebres e da questão da antropofagia. A explicação sobre a antropofagia é dada pela lógica dos ciclos temporais e pela sua conexão às forças da vida e da natureza. Trata-se pois duma abordagem que observa a organização social do índio a partir dos registos do tempo e das suas estruturas. O conceito expositiva apresenta ainda muitas réplicas de homens e mulheres que atuam como ilustração que emergem ao longo do eixo expositivo.

De seguida apresentam-se os portugueses, pioneiros na ocupação do território, e os demais colonizadores, holandeses, franceses. A sala apresenta-se com uma composição sincrética de objetos de arte com o nome “Os portugueses no mundo”. Apresenta-se uma descrição das tensões existente no mundo, as linhas de força dos processos de colonização das Américas e da relação deste novo mundo com o resto dos mares e terras do mundo. Desse período sobressai a ocupação do território. A implementação do sistema escravocrata com os seus engenhos de açúcar e o processo de importação de mão-de-obra escrava. De seguida.

Ensaia-se já aqui um esboço da “construção da nação”. A ocupação do território e o sistema de relações que nele se estabelecem, seja por via do comércio, seja por via das diferentes ciclos de espacialização, dão consistência a formação da entidade política. Dessa forma o ciclo do café e a questão da presença da corte portuguesa emergem como duas questões estruturantes da autonomia política, vista, ao modo novecentista, como um nova entidade nacional. Uma nova entidade que incorpora diferentes membros da comunidade em função de uma ação comum.

Esta economia do café e a religiosidade dos conquistadores sucedem-se as apresentações sobre os diferentes mundos. Diferente objetos, apresentados em vitrinas que ilustram diferentes modos de vida. Mundos que se vão reunindo nessa nação brasileira. Exposições didáticas. Explicações em painéis, legendas nos objetos. –Cada sala cada mudo. A emergência do exército, por exemplo, ganha força como corpo representante da nação já nas salas finais. São um elemento de explicação da construção do império. Esse mesmo exército que depois se dedica à construção da republica. A entidade política debaixo da republica é apresentada como a iniciadora da construção dos direitos civis e sociais. Com a segunda e terceira vaga de direitos entra-se no tempo contemporâneo. O Brasil atual. O Brasil das lutas sociais. Dos grandes avanços na economia e na sociedade. Quase que poderíamos falar das batalhas da educação, pela saúde, pelo direito das mulheres e das minorias, dos negros e dos índios. Os direitos ao lazer, ao bem-estar. O museu apresenta uma visão da sociedade brasileira atual. Aponta um caminho em construção. Apresenta-se uma visão da sociedade e do país. Uma identidade política.

Vejamos como é que esta questão se relaciona com a questão identitária. Recordemos que estávamos aqui a elaborar sobre a questão da contradição entre os planos gnosiológicos entre a leitura o passado e a vontade de ação. Neste museu encontramos a presença desta contradição. A leitura do passado é aqui feita com base na leitura do presente.

Se, como diz Boaventura Sousa Santos há duas contradições no sistema económico contemporâneo (Santos, 2013, 53): uma identificada por Marx, entre o capital e o trabalho; a outra identificada por Polany, onde se verifica que a lógica do capital reduz tudo à lógica de mercadoria. Ou seja, tudo, incluindo a natureza e a vida social é observada na lógica do mercado, como recursos reprodutíveis. Ora sabemos hoje que a natureza e a energia com base no carbono não é reprodutível à escala da história humana. Nem tão pouco, a vida social e individual é passível de ser tratada como um conjunto de recursos permanentemente disponíveis e estáveis.

A questão da identidade brasileira apresentada neste museu é passível de uma leitura narrativa construída sobre o presente. Sobre a intensa movimentação social e de exploração dos seus formidáveis recursos naturais dum país continente que aproveitou as diferentes vantagens da globalização.

Ao invés da impossibilidade do discurso narrativo em Portugal em produzir uma síntese sobre o seu presente, esta narrativa brasileira apresenta-se dotada duma grande vitalidade associando a dinâmica social à dinâmica económica. É certo que nesta dinâmica social estão ausentes as principais contradições da contemporeiniedade. Aqui e ali fala-se da condição do índio, da integração do negro, do pobre e do marginal. Da favela e do subúrbio. Sempre na lógica dos problemas a resolver. Como possibilidade de ação. Como orientação da ação.

Em Portugal esta narrativa não se verifica porque a leitura da história está presa a concretização do passado. Essa impossibilidade de resolver o passado impede, como uma cortina de nevoeiro, de pensar o futuro. Pelo contrário, no Brasil é a criação do barroco que alimenta a narrativa.

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