Disparem sobre o Utopista de Raquel Lima

De Raquel Lima

Referência do documento impresso

Raquel Lima, « Disparem sobre a utopista! », Revista Crítica de Ciências Sociais, 114 | 2017, 245-248.

Referência eletrónica

Raquel Lima, « Disparem sobre a utopista! », Revista Crítica de Ciências Sociais[Online], 114 | 2017, colocado online no dia 20 Dezembro 2017, criado a 28 Dezembro 2017. URL : http://journals.openedition.org/rccs/6852

Paira um fantasma no ar,
o de que todas as conquistas são frágeis e reversíveis.
Tudo pode ser destruído de um dia para o outro,
Tudo o que é sólido se desfaz no ar…
E hoje?
Hoje quando observo e absorvo esta urgência,
esta necessidade de pensar para além do possível, do credível e do verosímil,
quando percebo que a política degrada exponencialmente à medida que degrada a natureza,
quando percebo com toda a certeza que hoje, há esta urgência e esta necessidade no ar
De deixar de ver as notícias sobre injustiças do nosso tempo com essa naturalidade típica e conformista, duma indiferença atroz e nada salutar…
Esta necessidade de não querer ser só literária mas ser social
Esta necessidade impossível, e que por ser impossível é necessária
E não o contrário reformista que nos foram vendendo, vendando os olhos da cega
Porque muitos olham mas poucos vêem
Que as expectativas de ver de uma cega são à partida negativas,
E que existe esse mal-estar, essa fragilidade de que tudo desapareceu aos seus olhos de um momento para o outro
E que o seu olhar não se vai aperfeiçoando, nem mesmo depois de morta
A sua cegueira é já perfeita, completa, e por isso a sua visão só tem que ser nula
Os seus olhos, são um território em que já não é possível a perfeição
E por isso já não é preciso sonhar, quando já se tornou irreversível a sua exclusão de todos os lugares, a da cega
Aqui na nossa cegueira o fim chegou antecipado, apocalíptico, desastroso, e aqui o medo e a austeridade mataram há já muito a esperança
O medo!
O medo de ser… O medo que tem tudo,
O medo tem ambulâncias,
O medo tem sirenes,
O medo tem capacetes e cintos de segurança
O medo tem terrorismo
Aqui o medo já há muito matou
a esperança

E quem não tem medo do nosso medo?
Quem não tem medo do monstro das 3 cabeças?
Quem é que ainda o vê como a melhor das possibilidades no meio de todas as crenças?
Serão heróis? Os que se arrastam até aqui para ser explorados?
Serão heróis esses homens e mulheres que morrem afogados?
Heróis silenciados…
Num silêncio que grita por um mundo melhor.
Mataram esse utopista!!! Não. Nem sequer tiveram que disparar sobre ele,
Ele suicidou-se quando tentava viver, e atrás dele seguiram outros
Sem medo, sem medo de já estarem mortos
Sem medo dessa repetição
Porque mesmo que lhes mostrem repetidamente a ideia de morte eles acreditam que não a vão repetir
Em movimentos limitados, eles expandem-se nesse acto de amor
Será um refugiado emancipado apenas um refugiado morto?
Ou será ele um sintoma dessa utopia urgente e necessária?
E mesmo não sabendo se é possível ou não, será ele o único em condições para responder?
Vindo ele dessa exclusão abissal intolerável e diária.

Aqui deste lado (e nestas condições) dizem que a utopia é impossível
Enquanto o excesso de capital cresce eternamente e nunca é suficiente
Enquanto não existirem limites para o dinheiro e a propriedade
Enquanto o medo avassalador estiver sempre presente
Aqui deste lado tentamos mais, sempre mais, para no final irmos para um lugar melhor, o paraíso… Sem saber que a nossa esperança imposta consome outras esperanças
E em pleno juízo seguimos, com a nossa meta na felicidade de ter mais,
Com o nosso sonho implementado de fora, do nada
duma coisa que não é natural nem humana, mas que nos é plantada
Já não há flores utópicas a crescer neste jardim…
Porque para alguns é necessário plantar a ruptura,
Mas para a maioria não
Porque para uns criar os seus próprios valores é já uma revolução
Porque para uns não se submeter ao que é imposto é a única forma de emancipação

E quem vai perceber essa sabedoria dos periféricos?
Quem vai chegar até esse ponto de humildade?
Quando a elite está condicionada pela sua própria superioridade
Quem vai ter peito para encarar a dificuldade de uma pessoa sem universidade?

Quem vai querer largar as teorias para abraçar as utopias?
As utopias das vivências e da sabedoria
Quem vai largar as teorias que geram facilmente arrogância?
Para abraçar a humildade intrínseca onde há sabedoria e esperança?

Quem vai pensar para além da sua condição?
Expandir o Presente, encolher o Futuro e aumentar as possibilidades de alternativas?
Quando há poucas alternativas…
Quem vai se lembrar do mais importante na vida – dos afectos?
E de que não existe um ser melhor do que outro
Mas sim atitudes melhores do que outras
Será que ser utópico é uma dessas atitudes?
Quando mesmo a utopia dos pobres pode gerar a repitação dos ricos
Porque é preciso manter a maioria na ignorância
Para continuarem a construir as nossas estradas
Para continuarem a costurar as nossas roupas
Para conrinuarem a plantar o que comemos
Para continuarem a fazer a base da sociedade sem terem a consciência de que são a parte mais importante!
Para se continuarem a sentir fracos, invisíveis, impotentes…

E se a utopia é procurar uma humanidade melhor
Quando ainda não existe humanidade?
E se a utopia procura um território melhor
Quando já não existe esse território?

Já não interessa transpôr essa linha abissal
Convém ficar em cima, no topo, dessa linha
O caos é o espaço ideal para ocorrer a transição emancipatória
Mas do outro lado as leis que nos regulamentam não são suficientes
Há todo um espaço de leis ausentes onde os mais excluídos continuam a lutar pacificamente
Porque paz significa mente
E a utopia contemporânea está nas mentes como dissidência, como insurgência
Como um caminhante que desconhece o seu caminho mas sabe qual é a sua realidade
É a presença de querer ser futuro no desconhecido
E cada passo é pesado mas não existe a hipótese de não avançar
Na mala tem novos planos e infinitas possibilidades
Mas no bolso, mais à mão, tem a vontade de as conquistar
E vai lutar por elas, vai escavar onde nunca foi escavado
Vai escavar o silêncio, e fazer as questões que ficaram por perguntar

A sua identidade é múltipla, inacabada, sempre em processo de reconstrução
Uma identidade em curso sujeita a constante reivenção

Para ele não existe fracasso porque desconhece os seus direitos, ou as leis que o regulamentam
Por isso resiste, persiste, sem coerência
e eficácia garantida
E quanto mais à vontade me sente na fronteira, melhor se explora e emancipa
Viver na fronteira em suspenção, num espaço vazio, num tempo entre tempos
O seu carácter (e o seu coração) é aberto, inacabado, autónomo e criativo, e vem das margens, da periferia, da fronteira, da linha abissal
O seu passo é excêntrico, exagerado, subversivo, turbulento e transitório
A sua meta é inventar tudo, incluindo o próprio acto de inventar
É um ser híbrido, provisório e temporário, e as suas raízes se deslocam tãonaturalmente como o solo que as sustenta
Porque mais difícil do que crescer asas que voam,
É crescer asas com raízes
E nesse local ela cria raízes e laços
preciosos porque são raros, precários e vitalmente úteis
Ali, nessa micro-fronteira utópica, são todas clandestinas, ilegais, indocumentadas, deslocadas, refugiadas em busca de asilo
Com um pé na terra e outro sem Estado, prosseguem pacíficas, esse é o seu estado
Pensam ir para Norte mas vão para Sul, vão desnorteadas
Já não há meios para atingir os fins porque desconhecem esse Monstro que as assombra
Já podem disparar sobre a utopista,
Disparem contra a utopista!
Disparem contra a utopista até que ela caia no chão
Disparem com as vossas balas inúteis, quando ela morre por auto-determinação
Porque para ela “cada momento é eterno enquanto dura”.

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Sobre Pedro Pereira Leite

Cátedra UNESCO - Educação, Cidadania e Diversidade Cultural - Lisboa ULHT É diretor de Casa Muss-amb-iki - espaço de Memórias. Intervém no âmbito de pesquisa de redes sociais de memoria.
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