Samba e Rodas de Samba

Fonte Corpo e Mente

Eram os negros tirados de seu habitat natural, colocados nos porões dos navios e levados para os novos horizontes recém-descobertos pelas grandes potencias européias da época, chegando a nova terra eram repartidos entre os senhores, marcados  a ferro em brasa como gado e empilhados nas prisões infectadas.

No Brasil tinham a função de assegurar a posse, desbravar e transformar  as novas terras em grande produtora de riquezas para a coroa portuguesa, sendo valiosas mercadorias, trabalhando sol a sol, derrubavam matas, preparavam a terra, plantavam a cana e produziam, o açúcar, doce da riqueza dos seus  senhores.

Os negros nunca deixaram de lutar, reagiam de diversas formas, desde a fuga incerta e o suicídio, até o assassinato do seu opressor, mesmo sabendo da conseqüência fatal do ato, o que lhes faltava era condições para a luta em massa e organizada, porém com as invasões holandesas

(1624-1630), as fazendas sofreram certa desorganização, e com isso os negros viram a possibilidade da fuga, escapulindo massas pata matas e agrestes nordestinos, formando os quilombos, sendo o do Palmares um dos mais importantes.

Organizado social e politicamente como as tribos da África, os negros criam suas leis e escolheram Ganga-Zumba como rei, mais tarde substituído por Zumbi, o grande general das armas, onde nos quilombos os negros se escondem e se protegem, é a força unida na luta pela liberdade de ser e existir.

A capoeira originou-se na África e desenvolveu-se no Brasil, após a expulsão dos Holandeses ao coroa foi atrás da sua base econômica, sua mercadoria valiosa os negros, função que coube as capitães do mato, contratados para capturar os negros fugidos, armados até os dentes, queriam acabar com os quilombos.

Os negros não possuindo armas suficientes para sua defesa, movidos pelo instinto natural de preservação da vida, descobrem em seu corpo a essência da sua arma, e tendo na natureza uma mestra, começam a observar os golpes dos animais e unem as manifestações culturais trazidas da África, aproveitando os vãos livres nas matas, para pratica de uma luta de auto defesa.

Os primeiros movimentos de ataque e defesa tem muita semelhança com os movimentos dos animais, essa arma é assimilada e batizada de capoeira de angola.

O nome capoeira vem do mato onde os fugitivos praticavam ou de uma ave, que os machos ao lutarem pela fêmea pareciam reproduzir os escravos.

Em alguns documentos os capitães do mato relatam  sobre um estranho jogo de corpo utilizado pelos negros no combate, como se fossem verdadeiros animais.

Angola por que os primeiros negros aqui vieram de lá, e também nos dias que lhes era permitido divertirem as brincadeiras dos negros eram chamada de Angola, daí o nome capoeira de angola.

A capoeira é uma invenção dos africanos no Brasil, por necessidades e circunstancias próprias da situação que se encontravam, que foi assimilado, cuidado colhido e replantado por várias gerações de um povo sedento pela liberdade,.

Devido o conhecimento das matas, valendo-se de emboscadas, da surpresa, de golpes certeiros e traiçoeiros da capoeira e da determinação de resistir ao cativeiro, os negros derrotaram muitas expedições mantendo a luta dos quilombos por quase cem anos.

A coroa reconhecia a determinação dos negros, mas como os quilombos se tornavam uma organização sócia-política cultural da época, resolveram de uma vez por todas acabar com os redutos, soltaram até negros com doenças contagiosas para ir juntar-se aos negros sadios dos quilombos, tentaram de todas as formas minar as resistências dos quilombos e destruir o reduto de Palmares.

Zumbi é morto em combate e sua cabeça é exposta nas praças de recife, como forma de destruir o mito e as esperanças da resistência, assim em historia de lutas e sofrimentos.

A capoeira é uma dança que se transformou em luta, que passou a ser divertimento, ao som do berimbau e no passo da dança, o disfarce da luta, um outro dado é o berimbau, considerado instrumento-morda capoeira, utilizado para visar da aproximação de senhores e capitães do mato.

Zumbi foi morto, os quilombos quase todos destruídos, milhares de negros exterminados e os sobreviventes levados para a senzala, mesmo assim o sentimento de liberdade continuava forte, os negros não desistiram de sobreviver.

A dança por sua vez representa a ginga, servindo de disfarçar para luta, dando lhe um caráter lúdico e inofensivo, o berimbau é um instrumento de origem centro-africano, trazida pelos negros da África, era utilizado nas festas religiosas afro-cubanas com o nome de Burum-Bumba, considerado o instrumento que podia se falar com os mortos conforme o livro Capoeira de Angola de Waldeloir Rego, sendo um arco com um arame, uma cabaça, uma moeda e um pedaço de pau.

Era no ritmo da música e no passo da dança disfarçando a luta, sendo também parte das brincadeiras e jogo de escravos, sendo que na luta era uma forma de expressão corporal, onde se expressa a maneira de ser e existir, por isso que até hoje se chama para jogar “ brincar um pouco” de capoeira.

Foi o general Deodoro da Fonseca que fez surgir o código penal 1890, onde foi proibida sua pratica em lugares públicos, com as devidas conseqüências da lei, a partir daí os capoeiras não tiveram mais sossego, sendo vitimas das mais diversas barbaridades, mas contudo isso a capoeira continuou, agora são só pelos negros, mas sim pela classe social explorada, oprimida e marginalizada.

Em 1930 Getúlio Vargas liberou a prática da capoeira em festejo popular e como espetáculo folclórico, como luta apenas como defesa pessoal e esporte, sendo praticado em lugares fechados e por pessoas idôneas, transformando em esporte nacional.

Devido às novas normas de práticas surgiu a capoeira regional, foi onde começou a rixa coma de Angola, onde os da regional atacavam dizendo que a de Angola era fraca como luta, estava ultrapassada e estava ligada a crendices e vadiagens para lesar turistas, já os de Angola diziam que a regional não era autentica, havia se misturado a outras lutas, esquecendo os fundamentos, assim começaram as disputas e as carnificinas entre eles, deixando de pensar que uma complementava a outra.

Somente em 1964 devido aos turistas surgiram as primeiras escolas, que vieram a se tornar atração de uma pequena parcela de estudantes paulistas, reivindicando uma cultura brasileira.

Em pleno estado de repressão (1969-1975), começava a ser usada como pensamento democrático, sedentos por liberdade, expressão em todo pais.

Começava a ser praticado nas academias onde se tornou ponto cultural da juventude revoltada, um mercado despontava, aparecia a possibilidade de viver apenas da arte, conquistar um espaço na sociedade, por outro lado a inteligência repressiva do país tendo conhecimento da força e do poder da manifestação popular, o governo começou a aliciar seus criadores interferindo nas normas das suas  práticas, com conseqüência  teve a criação da federação Paulista de Capoeira, que tinha o objetivo de reunir e integrar a capoeira e seus mestres a ideologia da política da ditadura.

Porém fosse considerado esporte, eram necessárias competições, regras e normas foram nesse momento que surgiu os Capitães de Areia, fundado e liderado por Almir das Areias, onde para ele a capoeira era mais que luta e esporte, mas uma consciência de vida, um reencontro com a identidade.

Os mestres têm que despertar os alunos para o prazer da liberdade, da autonomia, da cooperação princípios básicos da capoeira.

Hoje banida das ruas, seu aprendizado está em salões, clubes e academias, ao som do berimbau e um pandeiro, um canto e puxado, vem a ginga que permite o equilíbrio, a defesa, o ataque, e ainda a cadencia ao ritmo dos movimentos do corpo, onde se faz a dança, quase desafiando as leis da gravidade.

          As defesas visam proteger o corpo e preservar a vida, livrando-se do perigo, onde o reflexo instintivo faz com que os músculos emanem ordens ao corpo para que se agache, se esquive, e saia da mira do ataque adversário, usando a força deste contra ele próprio, os movimentos de defesa é a rasteira, plano baixo, negativa, cocorinha, tesoura entre outras.

Os Ataques requerem habilidade e raciocínio, exige equilíbrio e objetividade, livrando-se dos contra golpes, alguns golpes são meia-lua, queixada, martelo, benção, chapa, cabeçada e joelhada.

Os Saltos e Acrobacias propiciam a flexibilidade, elasticidade, agilidade e equilíbrio, sendo a beleza e o desempenho do corpo nas difíceis e imagináveis, sendo alguns dos movimentos o Aús, Santo Amaro, Pulo do Macaco, Pulo do Gato, Mortal, ponte para trás.

O jogo é o combate, a luta a competição ou a brincadeira, a dança, a troca de sabedoria entre dois capoeiristas, onde se desenvolve reflexos, adquire malicia, desenvolve a criatividade, existindo vários jogos e toques variados de acordo com o estilo, Angola ou Regional.

Nas rodas que se vê o mestre mostrar sua habilidade, é o palco da capoeira e expressão máxima, onde o capoeirista brinca, luta, dança, cria, celebra, obedece aos princípios e fundamentos básicos, convivendo com as diferenças e diversidades, tanto de estilo e visões, desejo de interesses dentro da roda.

Há um tema mágico e hipnótico da energia musical e atividade física através dos vários tipos de jogos, transformando a agressividade em criatividade e finalmente colocando o corpo, os sentidos, a mente a alma em equilíbrio e harmonia.

A cabeça da roda se compõe os instrumentistas, local onde os capoeiristas entram e se organizam em circulo, a música e executada e eles se revezam no jogo.

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Sobre Pedro Pereira Leite

Cátedra UNESCO - Educação, Cidadania e Diversidade Cultural - Lisboa ULHT Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra onde desenvolve o projeto de investigação "Heranças Globais: a inclusão dos saberes das comunidades como instrumento de desenvolvimento integrado dos território".(2012-2107) . O projeto tem como objetivo observar a relevâncias no uso da memória social em quatro territórios ligados por processos sociais comuns. A investigação desenvolve-se em Portugal e Espanha, na zona da Fronteira; em Moçambique e no Brasil. (FCT:SHRH/BPD/76601/2011). É diretor de Casa Muss-amb-iki - espaço de Memórias. Intervém no âmbito de pesquisa de redes sociais de memoria.
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