Navem da Nova Guiné

Fonte EA – Eduardo Santos Gonçalves Monteiro e Rodrigo Rossi Mora Brusco

 Publicada originalmente em 1936, Naven: um esboço dos problemas sugeridos por um retrato compósito, realizado a partir de três perspectivas da cultura de uma tribo da Nova Guiné é uma obra baseada no trabalho de campo que Gregory Bateson (1904-1980) realizou entre os Iatmul (povo das terras baixas do rio Sepik, Nova Guiné), ao longo de 1929 e 1932. Uma das principais contribuições da obra é fazer do comportamento ritual o centro da investigação antropológica.

A monografia focaliza as atitudes observadas durante o ritual nativo naven, analisando-as a partir de diferentes pontos de vista científicos, parciais mas complementares entre si. A cerimônia que dá título ao livro ocorre para comemorar realizações culturalmente valorizadas de um jovem iatmul. Sua principal figura é o tio materno (wau) que, em clima de bufonaria, “traveste-se” em “repugnantes” (velhas, sujas) roupas femininas. Nesse contexto, procura seu sobrinho (laua) e, ao encontrá-lo, o embaraça com uma “saudação sexual”: esfrega suas nádegas na canela do laua, o qual deve dar objetos de valor para que o wau “fique bom”. Ainda que este “travestismo” se irradie com modos e intensidades variadas entre diversos parentes ligados ao laua, e que o naven não se limite à relação entre laua wau (o que não passa despercebido por Bateson)é aí que reside o centro e parte mais significativa da cerimônia, seu ponto de partida e foco de sua análise.

As escolhas metodológicas e o modo de exposição dos problemas nesta obra – primeira e única monografia escrita por Bateson – fazem ressoar as múltiplas facetas de seu percurso intelectual. Em Naven, a relação do autor com o estrutural-funcionalismo, por meio do qual ele trava o seu contato inicial com a antropologia, é marcadamente heterodoxa: ainda que lide com questões relativas à integração social no livro – caras à tradição britânica na qual se forma – enfatiza ser insuficiente, do ponto de vista explicativo, tomá-las isoladamente. Nesse sentido, busca em outros campos disciplinares (como a psiquiatria) e tradições antropológicas (como a norte-americana) instrumentais analíticos que permitam observar novos aspectos do fenômeno cultural. Por um lado, através do exame do que denomina eidos iatmul, Bateson explicita modos de pensamento culturalmente padronizados, premissas e operações de identificação relevantes para o “comportamento naven” do wau, inspirando-se no trabalho seminal de Radcliffe-Brown (1881-1955) sobre o irmão da mãe na África do Sul. Por outro lado, observa expressões características da emoção iatmul, de seu ethos, e o valor específico a elas atribuído durante a cerimônia, o que mostra como a análise do naven encontra-se repartida em um ponto de vista sociológico, um eidológico-cognitivo e outro etológico-afetivo. Apesar da separação meticulosa dos planos de análise, Bateson esclarece que o material sobre o qual se baseia o estudo é o mesmo, concluindo, no balanço autocrítico efetuado nos epílogos das edições de 1936 e de 1958, que as perspectivas adotadas são apenas maneiras pelas quais os cientistas organizam a sua descrição, e que, portanto, nem o ethos, o eidos ou a estrutura social têm uma existência independente da explicação científica. Por essa razão, Bateson considera que Naven é principalmente um “estudo sobre a natureza da explicação”, através do qual se deduz a impossibilidade de totalização explicativa do fenômeno trabalhado, já que sempre haverá resíduos e impurezas que escapam a qualquer tentativa de análise.

Se a investigação é construída a partir de planos heterogêneos, há um fenômeno que os atravessa: a cismogênese, que Bateson define como “criação da separação”. Formulada para demonstrar o potencial disjuntivo da relação entre as diferentes ênfases emocionais atribuídas a cada sexo (derivada da análise do ethos), a cismogênese também foi notada na descrição dos padrões de fissão da estrutura social iatmul (perceptíveis pelo prisma sociológico) e nos modos de operação dos dois tipos de dualismo encontrados no pensamento iatmul (que se mostram pelo exame do eidos). A ligação entre as análises afetiva e cognitiva, tornada possível pela persistência da cismogênese, faz com que Bateson proponha uma relação entre estímulos e reações para compreender como ethos eidos são inculcados no indivíduo. Tal discussão expressa o interesse do autor nos processos de aprendizagem, intimamente ligados às suas reflexões posteriores sobre teoria da comunicação e cibernética.

Gregory Bateson e Margaret Mead trabalhando, Tambunam, foto por Gregory Bateson, 1938. Seção de Manuscritos, Biblioteca do Congresso dos EUA (211b).

GREGORY BATESON E MARGARET MEAD TRABALHANDO, TAMBUNAM, FOTO POR GREGORY BATESON, 1938. SEÇÃO DE MANUSCRITOS, BIBLIOTECA DO CONGRESSO DOS EUA (211B).

Naven não foi uma obra recebida com destaque pelo establishment antropológico de sua época; recentemente, contudo, o livro tem fornecido grandes inspirações para a antropologia, lembremos a importância do conceito de cismogênese para a antropologia de Roy Wagner (1938), como mostra o seu A invenção da cultura (1975); a influência da descrição dos ethos sexuais iatmul para as análises do gênero na Melanésia, realizadas por Marilyn Strathern (1941) em O gênero da dádiva (1988) e a relevância do naven para a análise do ritual proposta por Michael Houseman e Carlo Severi, em 1994. Como se vê, uma obra que forneceu potências renovadoras ao pensamento antropológico ao longo das últimas décadas.

Eduardo Santos Gonçalves Monteiro e Rodrigo Rossi Mora Brusco

PALAVRAS CHAVE

Reino UnidoMelanésiaritualgrupo social

BIBLIOGRAFIA

BATESON, Gregory, “Social structure of the Iatmul people of the Sepik River”, Oceania, v. 2, n. 3, Sidney, 1932, p. 245-291

BATESON, Gregory, Naven: a survey of the problems suggested by a composite picture of the culture of a New Guinea tribe drawn from three points of view (1936), Stanford, Stanford University Press, 1958 (Trad. Bras. Magda Lopes. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 2008)

BATESON, Gregory, Steps to an ecology of mind. Chicago, Chicago University Press, 1972

BENEDICT, Ruth, Patterns of culture,Boston e Nova Iorque, Houghton Mifflin Company 1934 (Trad. Bras. César Tozzi. São Paulo, Perspectiva, 1988)

GEIGER, Amir, “Introdução” In: Gregory Bateson, Naven: um esboço dos problemas sugeridos por um retrato compósito, realizado a partir de três perspectivas da cultura de uma tribo da Nova Guiné. Trad. Bras. Magda Lopes. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 2008

HOUSEMAN, Michael & SEVERI, Carlo,  Naven ou le donner à voir. Essai d’interpretation de la action rituelle, Paris, CNRS Édition/Éd. de la Maison des sciences de l’homme, 1994

LIPSET, David, Gregory Bateson. The legacy of a scientist, Boston, Beacon Press, 1982

LIPSET, David, “O que faz um homem? Relendo Naven e The Gender of the Gift”, Cadernos Pagu, n. 33, Campinas, 2009, p. 57-81

MEAD, Margaret, Sex and Temperament in three primitive societies, New York, W. Morrow & Company, 1935 (Trad. Bras. Rosa Krausz, São Paulo, Editora Perspectiva, 2015)

RADCLIFFE-BROWN, Alfred Reginald, “The mother’s brother in South Africa” South African Journal of Science, v. XXI, Pretoria, 1926, p. 542-555

RADCLIFFE-BROWN, Alfred Reginald, “On social structure”, The Journal of the Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland, v. 1, Londres, 1940, p. 1-12

STRATHERN, Marilyn, The gender of the gift. Problems with women and problems with society in Melanesia, Cambridge, Cambridge University Press, 1988 (Trad. Bras. André Villalobos. Campinas, Editora da Universidade de Campinas, 2006)

WAGNER, Roy, The invention of culture (1975), Chicago, The University of Chicago Press, 1981 (Trad. Bras. Marcela Coelho de Souza e Alexandre Morales. São Paulo, Cosac Naify, 2010)

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Sobre Pedro Pereira Leite

Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra onde desenvolve o projeto de investigação "Heranças Globais: a inclusão dos saberes das comunidades como instrumento de desenvolvimento integrado dos território".(2012-2107) . O projeto tem como objetivo observar a relevâncias no uso da memória social em quatro territórios ligados por processos sociais comuns. A investigação desenvolve-se em Portugal e Espanha, na zona da Fronteira; em Moçambique e no Brasil. (FCT:SHRH/BPD/76601/2011). É diretor de Casa Muss-amb-iki - espaço de Memórias. Intervém no âmbito de pesquisa de redes sociais de memoria.
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