Método Genealógico

Fonte EA – Mariana Carolina Mandelli, Michel de Paula Soares e Raphael Piva Favalli Favero

O artigo “O método genealógico na pesquisa antropológica”, assinado por William H. R. Rivers (1864-1922), como indica o título, dedica-se à apresentação do método genealógico concebido por Rivers com auxílio de Alfred Cort Haddon (1855-1940), durante a expedição ao estreito de Torres (1898), cujo objetivo é fornecer uma base científica para a nova disciplina, pela sistematização de instrumental próprio para a análise antropológica. Sua primeira versão, “A genealogical method of collecting social and vital statistics”, é exposta à comunidade científica em 1900; após a experiência etnográfica de Rivers entre os Toda na Índia, o texto é republicado no The Genealogical Method of Anthropology Inquiry(1910).

O método consiste na coleta de genealogias reais de determinado povo com base em perguntas específicas feitas aos seus membros. Por meio delas, o pesquisador obteria um diagnóstico da organização social do grupo, possível porque, de acordo com Rivers, as sociedades tendem a conservar oralmente, e por diversas gerações, as suas genealogias. O método genealógico seria, portanto, a solução ideal para etnógrafos que dispõem de pouco tempo de permanência em campo, sem o domínio do idioma local ou auxílio de bons intérpretes. Seu uso mostra-se também eficaz por permitir o acesso, em um curto período, a informações objetivas e precisas acerca da filiação, aliança, residência, status, entre outras.

Em virtude das diferenças entre os sistemas de parentesco existentes, na aplicação do método e na formulação das questões, o antropólogo deveria utilizar um vocabulário limitado a poucas categorias: pai, mãe, filho, filha, esposo e esposa. Após obter os dados necessários nas linhas de descendência masculina e feminina, ao pesquisador caberia dispor as informações de forma gráfica –  grafando os nomes dos homens em letras maiúsculas e sempre à esquerda dos das mulheres, sendo estes redigidos em minúsculas. Outras informações deveriam ser destacadas de modo a que a identificação precisa de cada indivíduo seja possível, tais como: nome, idade, condição social, localidade de origem ou habitação; grupo ou clã, entre outros. A despeito de eventuais erros, Rivers defende a eficiência do método devido à possibilidade de testar a veracidade das informações a partir do entrecruzamento dos dados com base em três genealogias completas. Assim, segundo o autor, seria possível alcançar uma demonstração científica e, simultaneamente, retornar até um século na trajetória da sociedade em questão. Dentre suas aplicações estariam, além da obtenção do sistema de parentesco de um povo, o estudo de relações matrimoniais, já que se revelariam as leis que regem os casamentos, bem como regras de descendência, herança, propriedade, cargos de chefia, entre muitas outras. O método poderia ainda ser utilizado ainda para detalhar processos migratórios, práticas mágicas e religião, bem como para oferecer um amplo banco de dados censitários e estatísticos, revelando padrões. Seu uso na antropologia física foi também referenciado por Rivers.

OLIVEIRA, Roberto C. A Antropologia de Rivers, 1991

OLIVEIRA, ROBERTO C. A ANTROPOLOGIA DE RIVERS, 1991

Apesar de ser considerado o mais notório defensor do método genealógico, Rivers não foi o primeiro a fazer uso de genealogias em estudos antropológicos; o questionário de parentesco de Lewis Henry Morgan (1818-1881), publicado em Sistemas de Consanguinidade e Afinidade da Família Humana (1871), já apresentava um minucioso roteiro para a coleta de dados de parentesco. Se isso é verdade, a contribuição de Rivers foi criar uma ferramenta ágil, capaz de produzir, com precisão e rapidez, informações chave para os estudos de parentesco, a partir de uma genealogia considerada real, já que o informante seria capaz de fornecer com exatidão as classificações de seus parentes. No entanto, é preciso lembrar que tanto a obtenção das informações quanto a construção da genealogia, com base nos dados recolhidos, seguem os critérios classificatórios do pesquisador e não propriamente os dos informantes. Sua objetividade deriva, portanto, da tradução que o antropólogo realiza dos conceitos nativos.

O método genealógico pode ser apontado como um dos maiores subsídios metodológicos para os estudos de parentesco, considerado durante décadas como instrumento indispensável e mínimo do antropólogo em campo na coleta de informações. Foi retomado pelos estudos africanistas e adotado em diversas pesquisas da etnologia sul-americana, ainda que extensamente criticado por pesquisadores que apontaram as limitações do modelo, como David Schneider (1918-1995) e Mary Bouquet (1955-). No Brasil, o artigo de Rivers conheceu duas traduções: uma primeira, de 1969, a cargo de Roque de Barros Laraia (1932-) e outra de Roberto Cardoso de Oliveira (1928-2006), em 1991.

PALAVRAS CHAVE

método genealógicoparentescoetnografia

BIBLIOGRAFIA

LARAIA, Roque de Barros (org.), Organização Social, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1969

RIVERS, William H., “O método genealógico na pesquisa antropológica” In: CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto (Org.), A Antropologia de Rivers,Campinas, Editora da Unicamp, 1991, p. 51-67

SILVA, Márcio Ferreira, “1871: o ano que não terminou”, Cadernos de Campo, n. 19, São Paulo, PPGAS/USP, p. 323-336, 2010

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Sobre Pedro Pereira Leite

Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra onde desenvolve o projeto de investigação "Heranças Globais: a inclusão dos saberes das comunidades como instrumento de desenvolvimento integrado dos território".(2012-2107) . O projeto tem como objetivo observar a relevâncias no uso da memória social em quatro territórios ligados por processos sociais comuns. A investigação desenvolve-se em Portugal e Espanha, na zona da Fronteira; em Moçambique e no Brasil. (FCT:SHRH/BPD/76601/2011). É diretor de Casa Muss-amb-iki - espaço de Memórias. Intervém no âmbito de pesquisa de redes sociais de memoria.
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