A Magia dos Jardins de Corais

Fonte EA Natalia Ribas Guerrero e Flávio Bassi

Publicada em 1936, Coral gardens, a study of the methods of tilling the soil and of agricultural rites in the Trobriand Islands é a quarta e última monografia produzida por Bronislaw Malinowski (1884-1942) acerca da vida dos nativos das Ilhas Trobriand, no Pacífico Ocidental. Com quase mil páginas de extensão, a obra tem como foco a relação entre magia e práticas agrícolas dos trobriandeses. Embora não tenha tido a notoriedade e difusão de Argonautas do Pacífico Ocidental (1922), Coral Gardens foi considerada pelo próprio autor como sua obra mais bem-acabada, tanto pela exposição sistemática do método funcionalista quanto por sua inovadora abordagem em relação ao campo da linguística, juízo compartilhado por leituras posteriores da obra, como as dos linguistas Jean Rupert Firth (1890-1960) e Terence Langendoen.

Bronisław Malinowski e trobriandeses, 1918. Wikimedia commons.

BRONISŁAW MALINOWSKI E TROBRIANDESES, 1918. WIKIMEDIA COMMONS.

O livro é dividido em sete partes, distribuídas em dois volumes. No primeiro, Malinowski esboça aspectos gerais da vida social dos trobriandeses, tomando como base suas obras anteriores e o método funcionalista, exercitado antes, e que se encontra sistematicamente apresentado nos capítulos finais do primeiro tomo. Encontra-se aí descrita a distribuição da população do arquipélago em diversas aldeias e sua especialização econômica, além de sua integração em um sofisticado e abrangente sistema de comércio, o kula. Na segunda parte, a mais extensa do primeiro volume, Malinowski volta seu olhar às práticas agrícolas, à magia e ao regime de posse da terra – sobre os quais se assentam elementos centrais da organização social trobriandesa – além de se deter nos mitos que narram a origem dos clãs e sua conexão com determinadas porções do território, na divisão dos clãs em classes (ranks), nas regras matrimoniais e no papel de liderança ocupado pelo mágico. Em relação às roças, ou jardins cultivados, o autor as descreve como verdadeiras obras de arte produzidas pela tecnologia e pela magia, e não como meros espaços utilitários.

Uma das contribuições mais originais da obra é o esboço de uma teoria etnográfica da linguagem, levada a cabo no segundo volume da obra. O autor defende que os encantamentos mágicos, como toda forma de linguagem, devem ser entendidos em seu contexto como “atos verbais”, tendo por função produzir efeitos práticos. Para Malinowski, o verdadeiro fato linguístico é a fala em seu contexto, entendido em um sentido amplo, envolvendo não apenas as palavras, mas expressões faciais, gestual, atividades corporais, o grupo presente ao ato de fala e o próprio ambiente em que se encontram. Nesse sentido, a obra traz aportes pioneiros ao campo da linguística conhecido como pragmática, o que se evidencia, por exemplo, na sua apropriação por J. R. Firth.

Merecem destaque também as inspirações que fornece ao antropólogo Stanley Tambiah (1929-2014) no ensaio The Magical Power of Words (1968). Reanalisando o material reunido por Malinowski em Coral Gardens à luz da teoria dos atos de fala de John Austin (1911-1960), Tambiah defende que ato e palavra se relacionam de forma indissociável no pensamento mágico. A abordagem pragmática ecoa ainda na análise de Alfred Gell (1945-1997) sobre a eficácia do objeto de arte e seu poder de agência. Coral Gardens foi também objeto de reflexão o historiador Karl Polanyi, para elaboração de sua crítica ao homo economicus, desenvolvida em A grande transformação (2000). Em sua introdução crítica à edição inglesa de 1966, Edmund Leach (1910-1989) aponta que Malinowski é inovador por descrever um modo de vida e não apenas descrições de costumes, modos e artefatos como seus antecessores; critica, entretanto, ser sua análise da sociedade pouco sociológica e concentrada nos indivíduos. Além disso, haveria, segundo Leach, uma contradição inerente ao seu tratamento dos trobriandeses como, ao mesmo tempo, únicos e universais, o que não o impede de reconhecer o “mestre do trabalho de campo antropológico” que foi Malinowski – Coral Gardens uma evidência irrefutável desse fato.

FIRTH, John Rupert, The Tongues of Men and Speech, London, Oxford University Press, 1964

GELL, Alfred, Art and agency, Oxford, Clarendon Press, 1998

LEACH, Edmund, “Introduction” In: Malinowski, B., Coral Gardens and Their Magic, Soil-tilling and agricultural rites in the Trobriand Islands (1935), London, George Allen & Unwin Ltd., 1966, v. 1

LANGENDOEN, Terence, London School of Linguistics: A Study of the Linguistic Theories of B. Malinowski and J. R. Firth, Cambridge, MIT Press, 1968

MALINOWSKI, Bronislaw, Coral Gardens and Their Magic. A Study of the Methods of Tilling the Soil and of Agricultural Rites in the Trobriand Islands (1935), London, George Allen & Unwin Ltd., 1966, v. 1 e 2

POLANYI, Karl, The Great Transformation: Origins of Our Time, New York, Farrar & Rinehart, 1944 (Trad. Bras. Fanny Wrobel. Rio de Janeiro, Campus, 1980)

SENFT, Gunter, “Bronislaw Malinowski and Linguistic Pragmatics”, Lodz Papers in Pragmatics v. 3 (2007), p. 79-96

TAMBIAH, Stanley, “The Magical Power of Words”, Man, New Series, v. 3, n. 2 (Jun., 1968), pp. 175-208

YOUNG, Michael W., “Malinowski’s Last Word on the Anthropological Approach to Language”, Pragmatics, v.1, n. 21 (2011), p. 1-22

 

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Sobre Pedro Pereira Leite

Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra onde desenvolve o projeto de investigação "Heranças Globais: a inclusão dos saberes das comunidades como instrumento de desenvolvimento integrado dos território".(2012-2107) . O projeto tem como objetivo observar a relevâncias no uso da memória social em quatro territórios ligados por processos sociais comuns. A investigação desenvolve-se em Portugal e Espanha, na zona da Fronteira; em Moçambique e no Brasil. (FCT:SHRH/BPD/76601/2011). É diretor de Casa Muss-amb-iki - espaço de Memórias. Intervém no âmbito de pesquisa de redes sociais de memoria.
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