Ecomuseu e interpretação da paisagem IV

O IV artigo da serie do arquteto Fernando Pessoa, sobre o ecomuseu dos biscoitos, nos Açores, no blog “Bago de Uva”

(anterior aqui)

Essas vinhas, com a estrutura do território que possibilita as melhores condições para a sua cultura, chegando praticamente inalterada aos nossos dias, constituem uma paisagem histórica de grande significado.
Denotando extraordinário sentido de adaptação a novas condições ecoclimáticas e um grande conhecimento das capacidades produtivas dos materiais naturais, os primeiros povoadores começaram por escolher sabiamente a orientação de encosta, apesar de ser de difícil preparação.
Com efeito, existe pouca terra e pouco profunda nesta área, e a vinha é plantada na própria rocha friável, nela abrindo covas a esforço de braços e de alvião, onde se introduz o bacelo.
Para proteger a vinha da salinidade do ar e da força dos ventos que sopram do oceano, ali a escassos metros, toda a área de vinha foi trabalhada com a construção de uma quadrícula, mais ou menos regular em dimensões, de muros (travessas) de pedra seca – as curraletas – feitas de pedra solta que é resultado do desmonte do terreno. Como se pode depreender das imagens, é um trabalho penoso, iniciado nos recuados anos de quatrocentos e que se manteve até aos nosso dias; continua-se a trabalhar com a s mesmas técnicas e os mesmos objectivos.
Estamos assim perante uma paisagem histórica com o valor que lhes advém de ser secular e de continuar a “funcionar” ininterruptamente desde então; é como se fosse uma catedral ou uma fortificação que nos chega do século XV.
Apesar deste inquestionável valor patrimonial, a área de vinhas da Verdelho nos Biscoitos tem vindo a ser ameaçada seriamente nos últimos anos, pela expansão da construção de moradias; iniciativas diversas, nomeadamente desenvolvidas pela Confraria do Vinho de Verdelho dos Biscoitos, têm, tentado em vão, junto das autoridades, a protecção que uma paisagem daquela natureza exige.
As autoridades autárquicas têm sido pouco receptivas e as autoridades regionais pautam-se por evasivas e meias-medidas que não têm conseguido travar o surto das novas construções.
Ora nesta área da freguesia dos Biscoitos vive-se o ambiente propicio à instituição de um ecomuseu, porque uma boa parte da população participa na manutenção e na animação desta paisagem, baseada na cultura de vinha em curraletas. O facto da Junta se Freguesia e mesmo a Câmara Municipal de Praia da Vitória não serem propriamente entusiastas de medidas decisivas de protecção àquela paisagem, e até revelarem nítida preferência pela expansão urbano-turistica, isso não representa o sentido da maior parte das pessoas da freguesia.
A criação de um Ecomuseu será uma medida de alcance cultural, que alargará a notoriedade que a freguesia hoje já tem graças ao vinho licoroso (VLQPRD- Biscoitos); além disso dará novo alento á população que já hoje se envolve na actividade das vinhas e poderá atrair novos entusiasmos por exemplo através de campos de trabalho em férias para a juventude, durante os quais as camadas jovens colaboram na execução dos trabalhos e aprendem o valor patrimonial daquela região.
A musealização do Sítio dos Biscoitos onde se mantém a paisagem histórica de vinhas que remota ao século XV, poderá ser feita através do Ecomuseu doa Biscoitos, no qual entram entre outros os seguintes elementos:
– A área de curraletas.
– Rede de caminho de passeio entre as áreas de vinha.
– Miradouros no interior das áreas de vinha.
– O Museu do vinho e o campo Ampelográfico da Casa Agrícola Brum.
As adegas de vinho da zona.
– Oficinas de artesanato local (cesteiros).
– Ruínas de uma adega primitiva do século XVII ou XVIII- Presa dos Lagarinhos.
– Ermida de Santo António, e ruínas de duas outras.
– Forte de S. Pedro e Forte do Rolo.
– Animação ligada à cultura da vinha.
– Vestígios da antiga actividade da caça à baleia.
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Sobre Pedro Pereira Leite

Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra onde desenvolve o projeto de investigação "Heranças Globais: a inclusão dos saberes das comunidades como instrumento de desenvolvimento integrado dos território".(2012-2104) . O projeto tem como objetivo observar a relevâncias no uso da memória social em quatro territórios ligados por processos sociais comuns. A investigação desenvolve-se em Portugal e Espanha, na zona da Fronteira; em Moçambique e no Brasil. (FCT:SHRH/BPD/76601/2011). É diretor de Casa Muss-amb-iki - espaço de Memórias. Intervém no âmbito de pesquisa de redes sociais de memoria.
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