Museus e Interpretação da Paisagem III

O terceiro artigo da serie do Arquiteto Fernando Pessoa, no seu blog “Bagos de Uvas

(anterior aqui)

A paisagem é, pois, o território correctamente ordenado capaz de suscitar emoções estéticas e de transmitir beleza; a funcionalidade da paisagem anda aliada com o seu ordenamento pois, como já ensinava santo Agostinho, a beleza é o esplendor da ordem.
Uma das funções dos museus é a de interpretar o património a que estão dedicados; a interpretação é indispensável para que haja compreensão daquilo que se observa e se quer conhecer.
Não basta conservar objectos e documentos, pois um arquivo ou depósito também o fazem, e todos os museus têm essas secções indispensáveis; o museu além de conservar património tem também que dar a conhecer ao público, e facultar-lhes a interpretação daquilo que é exposto.
Eu penso que a ecomuseologia, com as suas propostas de musealização no espaço (o Museu do Espaço de Rivière) é uma museologia de interpretação da paisagem, e daí eu propor que os museus das áreas protegidas fossem designados de museus de interpretação da paisagem.
Eles não se confundem com os centros de interpretação, pois estes não são propriamente museus, não conservam património – apenas dão informação e ajudam a interpretar a Natureza ou mesmo a paisagem.
A museologia de interpretação da paisagem, e os ecomuseus, são instrumentos de desenvolvimento local ou regional, e enquadram-se na perspectiva dum processo cultural sustentável, equivalente cultural ao desenvolvimento sustentável com idênticas premissas na diversidade – num caso a diversidade cultural, no outro a biodiversidade.
As actividades tradicionais de difícil continuidade pela reduzida dimensão ou pouca competitividade podem ser suportadas com o apoio da sua valorização cultural, que o ecomuseu (ou no Canadá o ecomuseu) proporciona.
A imagem junta dá-nos uma vista geral da área da vinha dos Biscoitos, na ilha Terceira, sobre a qual nos vamos debruçar na nossa proposta.
Trata-se de uma encosta voltada a N. relativamente suave, que vem desde a linha de alturas no interior e desce até ao mar, acentuando-se o declive à medida que nos aproximamos do topo da elevação.
A designação de Biscoitos foi-lhes dada, ao que pelos primeiros povoadores, logo a seguir ao achamento da Ilha de Jesus Cristo, a “terceira” a ser descoberta, por causa da pedra solta, castanho torrado a negro, da pedra vulcânica que forma a calçada das vinhas fazendo lembrar os pedaços dos biscoitos que os marinheiros transportavam a bordo das caravelas e naus, como alimento de longa duração.
De acordo com José Henrique Pires Borges, jornalista e estudioso da História da Terceira, a vinha foi começada a plantar logo a seguir à cultura dos cereais, aos quais se dedicaram os melhores solos, pois daí dependia a sobrevivência dos colonizadores; a vinha ocupou os solos mais pedregosos de “biscoitos”.
Igualmente segundo Jácome de Bruges Bettencourt, que tem estudado e conhece também muito da História da Ilha, foi logo no século XV que se plantaram as primeiras vinhas, sendo as da Verdelho tão produtiva que acabou por travar a expansão da área de vinha, pois o preço do vinho baixara tanto que não era compensador; dessa casta saem vinho do lavrador e vinho fortificado.
Entre meados do século XVII a inícios do século XVIII decorreu uma época de baixa produção, e no século XIX deu-se o aparecimento de uma série de doenças das vinhas como o oídio, míldio e filoxera, que causaram um terrível decréscimo daquela cultura. Em finais do século XIX com a utilização de porta-enxertos resistentes ao filoxera, reiniciou-se a expansão da vinha com a casta da Verdelho, em grande parte devida ao fundador da Casa Agrícola Brum (Francisco Maria Brum), ainda hoje dedicados à vitivinicultura; mantiveram as práticas tradicionais, que se revelaram as mais adequadas à cultura, e a paisagem continuou imperturbavelmente com as mesmas características com que havia sido construída no século XV.
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Sobre Pedro Pereira Leite

Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra onde desenvolve o projeto de investigação "Heranças Globais: a inclusão dos saberes das comunidades como instrumento de desenvolvimento integrado dos território".(2012-2104) . O projeto tem como objetivo observar a relevâncias no uso da memória social em quatro territórios ligados por processos sociais comuns. A investigação desenvolve-se em Portugal e Espanha, na zona da Fronteira; em Moçambique e no Brasil. (FCT:SHRH/BPD/76601/2011). É diretor de Casa Muss-amb-iki - espaço de Memórias. Intervém no âmbito de pesquisa de redes sociais de memoria.
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