Ecomuseus e interpretação da paisagem II

Ecomuseus dos biscoitos O segundo artigo do Arquiteto Fernando Pessoas em Bagos de Uvas

Creio que é pacifica a ideia de que a paisagem de uma dada região é onde se conjugam de forma inequívoca o património natural – os valores da geologia, das plantas e dos animais, e os sistemas que os integram (ecossistemas) – e o património cultural das populações que habitam aquela região – as construções, as estruturas da paisagem, as benfeitorias que permitam a exploração da terra. Mas também as suas crenças, as suas tradições, hábitos e modos de vida.
Tenho lido centenas de páginas – e os franceses nisso são exímios, digo-o com admiração – sobre conceitos de paisagem, teorias da paisagem, filosofia da paisagem, etc.
A mim, como arquitecto paisagista, a paisagem interessa-me como o resultado da construção, pelo homem, do seu ambiente, utilizando os recursos e os materiais da Natureza que os rodeia.
Essa modelação do território foi iniciada com a passagem do povoamento nómada ou itinerante dos tempos mais primitivos para o povoamento predominante sedentário a partir dos tempos neolíticos. Também, não vou aqui alongar a deserção académica do tema, por demais conhecido de todos.
De geração em geração as populações imprimiram ao território as características das suas formas de economia e da sua cultura.
A noção de paisagem, que hoje consideramos, é um fenómeno sobretudo ocidental, como é do conhecimento geral, e iniciado com pintura de elementos do ambiente natural como fundo ou cenário das figuras humanas, de cariz religioso, que se realçavam nos quadros.
Da ideia de “paisagem” pintada passou-se depois ao conceito de paisagem real, biofísica.
Paisagem e território passam a serem usados em comum, embora existam abordagens diferentes às duas designações.
Os arquitectos paisagistas estão particularmente envolvidos nesta utilização do termo paisagem, desde os inícios do século XX, e mais tarde no regresso ao conceito de território sem que, contudo, a noção de paisagem deixasse de estar sempre presente.
Durante os anos 50 (já custa a dizer do século passado) começaram a surgir os planos de ordenamento paisagístico, processo que nas décadas de 60 e 70 sofreu considerável sistematização e evolução de metodologia, e através dos quais os paisagistas procuravam estabelecer o uso correcto do território; eles evoluíram depois para os actuais planos de ordenamento do território.
As ideias-base, a metodologia de análise, diagnóstico e síntese, própria do ordenamento paisagístico incluíam já os aspectos económicos, culturais e sociais que hoje dão forma, a par dos aspectos biofísicos, ao processo de ordenamento do território.
Mas o termo paisagem permanece, pois o ordenamento ao definir os usos do espaço de acordo com as aptidões e potencialidades de cada parcela, deve procurar conservar e valorizar as paisagens – e aqui entra inequivocamente o factor estético.
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Sobre Pedro Pereira Leite

Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra onde desenvolve o projeto de investigação "Heranças Globais: a inclusão dos saberes das comunidades como instrumento de desenvolvimento integrado dos território".(2012-2104) . O projeto tem como objetivo observar a relevâncias no uso da memória social em quatro territórios ligados por processos sociais comuns. A investigação desenvolve-se em Portugal e Espanha, na zona da Fronteira; em Moçambique e no Brasil. (FCT:SHRH/BPD/76601/2011). É diretor de Casa Muss-amb-iki - espaço de Memórias. Intervém no âmbito de pesquisa de redes sociais de memoria.
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