Redes de museus X – Rede de museus de Lisboa

Como é costume, Lisboa costuma ser usada como laboratório administrativo. É em relação a reforma administrativa das freguesias, quando antecipando em alguns meses o que se passou no país. É-o em relações a certas varas criminais, onde aqui são testados tribunais específicos, antes de se alargar ao país (o caso, por exemplo da violência domestica e bulling nas escolas). Assim o é também na política museológica.

Na capital cruzam-se vários tipos de museus. Nacionais, Municipais, Privados, centros culturais, centros de interpretação, com diferentes tutelas e formas de regulação.

Na sua distribuição espacial, ganham relevância dois espaços. O eixo Ajuda Belém, alvo dum plano especial que já fez correr muita tinta, e o espaço museológico do Lumiar, constituído por dois museus nacionais e um parque urbano. Ambos tem percursos diferenciados. O primeiro, resulta da transformação urbana que é fortemente influenciado pela história e pela elegia da portugalidade, o segundo, marcado pelo gosto barroco da aristocracia. Em ambos os espaços, contudo, a Câmara de Lisboa, embora com uma palavra no âmbito do planeamento, não efetua uma gestão direta.

A gestão direta dos equipamentos museológicos camarários é feita em vários equipamentos, que recentemente passaram por uma reforma administrativa. Assim o museu de Lisboa, onde se contava a história da cidade passou por um processo de restruturação. O edifício do museu, um palácio do século XVIII (Palácio Pimenta) no Campo Grande, passou a ser a sede de um conjunto de equipamentos municipais (que incluem o Museu Bordalo Pinheiro, O Museu de Santo António, A Casa dos Bicos, o Teatro Romano, na rua de são Tomé e o Torreão Poente do Terreiro do Paço).

A alteração do nome é subtil, pois anteriormente era conhecido como Museu da Cidade, embora na linguagem comum toda a gente se referisse ao espaço como o Museu de Lisboa, pois era essa a cidade. No entanto a alteração não é apenas o nome. Pois agora o espaço assume-se como do território, integrando os “núcleos”. Note-se uma sede e núcleos, fazem uma estrutura polinucleada.

Mas a alteração mais profunda não será só essa. Pois para além destas reformas, na cidade de Lisboa, os vários equipamentos culturais, museológicos, teatros e galerias, passaram, em 2016, para a administração da EGEAC, uma empresa municipal que faz a gestão dos equipamentos e da animação cultural na cidade, incluindo as “Festas de Lisboa”, um mega evento que em 1991 passou a incluir todo o mês de junho, em toda a cidade. (curiosamente, esta empresa não tutela as bibliotecas de Lisboa, certamente porque estas não atraem turistas, ou os filhos dos turistas não são um “target”).

É certo que em muitos destes equipamentos a alteração foi benéfica. Foi possível reorganizar as receitas e o pessoal. Uma gestão por empresa municipal é diferente dos mecanismos das administração pública, sendo mais fácil operacionalizar. É evidente que uma gestão deste tipo tem vantagens e desvantagens.

Regressando á questão das redes de museus e dos seus núcleos, este será certamente um caso que valerá a pena analisar pois Lisboa vive num momento de forte densidade de turismo, com receitas que deverão ser bastante significativas e permitem sem dúvida alguma sustentabilidade nestes equipamentos. Todos conhecemos a excelência da programação cultural nos teatros municipais.

A questão que se coloca é saber se este modelo polinucleado de empresa municipal, ancorado no turismo e na gestão da economia cultural pode ser usado noutras zonas do país, sobretudo form do contexto urbano.

Analisar estes caso é o tipo de trabalhos que o Observatório das Atividade Culturais deveria fazer para assessorar o Ministro da Cultura e o conselho Nacional de Cultura. Por exemplo, ao olharmos para o mapa da EGEAC podemos verificar que todos estes equipamentos se encontram no Centro da cidade. Exatamente nos lugares onde os residentes de Lisboa estão a desaparecer. Onde está a função social do museu de Lisboa.

Certamente nos responderão com as freguesias, embora eu tenha algumas dúvidas.

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Sobre Pedro Pereira Leite

Cátedra UNESCO - Educação, Cidadania e Diversidade Cultural - Lisboa ULHT Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra onde desenvolve o projeto de investigação "Heranças Globais: a inclusão dos saberes das comunidades como instrumento de desenvolvimento integrado dos território".(2012-2107) . O projeto tem como objetivo observar a relevâncias no uso da memória social em quatro territórios ligados por processos sociais comuns. A investigação desenvolve-se em Portugal e Espanha, na zona da Fronteira; em Moçambique e no Brasil. (FCT:SHRH/BPD/76601/2011). É diretor de Casa Muss-amb-iki - espaço de Memórias. Intervém no âmbito de pesquisa de redes sociais de memoria.
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