Redes de museus VIII o caso das festas antoninas de Lisboa

Lisboa formosa sai à rua neste 13 de junho. Os aromas adocicados dos jacarandás misturam-se com os vapores das sardinhas. A maresia do Tejo invade a cidade. Inevitavelmente, lisboetas de gema, lisboetas migrantes, saloios e alentejanos da margem sul, conquistam as sinuosas ruelas de alfama e da mouraria.

Sobem ao castelo e tomam conta da Graça, antiga almofala do infanção Henriques, autoproclamando Rex Portucallensis, acompanhados de hordas de nórdicos germânicos e francos cruzados em demanda da salvação das almas na guerra justa.

Aqui encontravam-se os velhos ritos pagãos, que por alturas do solstício celebravam a vida caçando as tágides indefesas embarcados em tuk-tuks coloridos, quão cavaleiros do apocalipse, trespassando à espadeirada aqueles que entalaram o Moniz `na praia homónima, feita nos dias de hoje centro da diversidade cultural.

Uma das questões que ainda não consegui entender nesta cultura popular lisboeta é esta devoção a António, quando afinal é Vicente o orago da cidade.

Segundo consta na lenda, o mártir Vicente supliciado no levante terraconnensis nos conturbados tempos de Diocleciano, sepultado no cabo homónimo (promontório sacrum), foi trasladado para Lisboa, a mando do conquistador cristão Henriques. Ainda segundo a lenda, as relíquias do santo, teriam chegado a Lisboa numa barca, acompanhadas por dois corvos: As duas aves presentes na heráldica da cidade, que ladeia a barca da bandeira alvinegra

As relíquias estão guardadas, segundo a lenda na Sé de Lisboa, para onde foram trasladadas após o terramoto de 1755.

Em 1175 que Rei Afonso, o primeiro, já formalmente investido na dignidade da coroa, mais uma vez segundo lenda, mandou construir, fora das muralhas da cidade, o mosteiro de São Vicente, para orago da cidade, uma igreja que seria posteriormente construída, nos tempo da monarquia dual, e que é panteão dos réis da dinastia bragantina. De tanta lenda feita, algo deve ter eco no tempo, digo eu,

É certo que António nascido e criado em Lisboa, ali mesmo junto à Sé, onde ainda hoje se pode visitar uma pequena Cripta no museu Antoniano, é uma figura popular entre os alfacinhas, patrono dos namoradeiras.

Ora,  segundo se sabe o culto a este santo terá tido origem nos colégios jesuítas a partir de meados do seculo XVI e sobretudo no século XVII. E isto parece que não é lenda. e as festas em sua honra, foram mais tarde aproveitadas pelo António de Chumbo, como corolário da política do Espírito para as festas da cidade.

Talvez seja uma escolha natural que entre a nobreza castelhana aristocrática e a lusitanidade republicana. Afinal narrativas de legitimação do poder, ou apenas tradições inventadas, ou talvez a tensão entre tradição e modernidade para os mais distraídos

Enfim símbolos duma cidade num certo tempo, ou se quisermos museus vivos. Até estou admirado desta coisa de assar sardinha no meio da rua ainda não ser classificado como PIH.

O museu da cidade deve andar distraído? Ou a EGAC ainda não percebe que pode ter a festa ao vivo em junho e durante o resto do ano numa versão revivalista no novo terminal de cruzeiros, que proponho que se chame “museu das festas”.

Não seria muito mais original desembarcar num museu do que num “terminal” ou “cais”.

 

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Sobre Pedro Pereira Leite

Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra onde desenvolve o projeto de investigação "Heranças Globais: a inclusão dos saberes das comunidades como instrumento de desenvolvimento integrado dos território".(2012-2107) . O projeto tem como objetivo observar a relevâncias no uso da memória social em quatro territórios ligados por processos sociais comuns. A investigação desenvolve-se em Portugal e Espanha, na zona da Fronteira; em Moçambique e no Brasil. (FCT:SHRH/BPD/76601/2011). É diretor de Casa Muss-amb-iki - espaço de Memórias. Intervém no âmbito de pesquisa de redes sociais de memoria.
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