Ensino da Museologia em Portugal II

Saiu neste final mês de maio, mais um Caderno de Sociomuseologia (nº 58, 2017), sobre O Programa de Pós-Graduação em Museologia da Universidade Federal da Bahia – 2013 a 2016

No seu editorial, Mário Moutinho e Judite Primo fazem uma comparação entre o panorama da formação no Brasil (em particular na Baía) e em Portugal. Apresentam dados curiosos que valem a pena ser usados para reflexão quando todos sabemos o que se está a passar nos nossos museus.

No Brasil, a formação em museologia é feita na graduação (entre nós licenciaturas) onde desde as políticas de valorização das ações culturais tem sido criados dezenas de cursos. Entre nós, fruto duma tradição que remonta aos anos sessenta, não há licenciaturas em museologia.

No Brasil, a formação pós-graduada está em crescimento, com cinco programas de mestrado USP, UFBA, UNIRIO, UFPI e UEFRS e um programa de doutoramento na UNIRIO. Em São Paulo e na Bahia está em curso a preparação dos programas de doutoramento. (A CAPES exige que antes da proposta de programa de doutorado, haja um número mínimo de anos de funcionamento do mestrado e de defesas de dissertação (se a memória não me falha, são 5 anos e 20 mestres).

Em Portugal, a formação em museologia é sempre pós-graduada. Desde que foi extinto o Curso de Conservadores nos anos oitenta, a maioria dos nossos atuais conservadores séniores se formaram, que o ensino da museologia é feito pelas universidades.

Nos últimos 30 anos a formação em museologia é feita numa universidade. Atualmente, a A3ES (Agencia de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior) exige que a formação académica seja completada com estágios em museus, de forma a permitir aos alunos ganharem experiência prática.

Depois dum entusiasmo pela formação em museologia nos anos noventa, com dezenas de cursos em todos o país (a nossa DGPCC ainda mantém uma página com a exuberância neste domínio http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/patrimonio/formacao-em-patrimonio/, confundindo museologia, património com as tradicionais disciplinas da história, arqueologia, antropologia, artes animação cultural ) o atual panorama da formação não será animador. Os mestrados estão em regressão, e segundo se percebe os doutoramentos também são escassos.

Com a externalização dos serviços a que os museus recorreram nos últimos anos, cada vez mais os profissionais que chegam aos museus são menos profissionais e mais tarefeiros.

Há uns meses atrás, em visita à bela Vila museu de Mértola, em conversa com os vários funcionários dos seus 12 equipamentos, apercebi-me que na sua maioria estavam a fazer um estágio (que completava a formação escolar) e que ansiavam o dia em que partiriam para a cidade, á procura de outro trabalho fora “daquelas tumbas”, como eles enfastiadamente tratavam os lugares onde estagiavam.

Não admira que a procura de formação qualificada esteja em perda no mundo dos museus portugueses.

Duas questões são possíveis de colocar:

1. O que justifica o interesse pela museologia no Brasil e o desinteresse pela museologia em Portugal. Como sempre a resposta não está no mundo, mas naqueles que são museólogos. Há museologia onde há vontade de museu, seja lá a forma com que ele se configura!

2. Porque é que em Portugal a questão da formação em museologia não está na agenda dos seus profissionais. Também aqui, mais uma vez a resposta está na capacidade profissionais se organizarem. Alguém vai para uma escola onde não em vez de professores, há tarefeiros? Ou para um hospital sem médicos ou enfermeiros? Ou se constroem pontes sem engenheiros.Como sabemos as profissões não são algo que existem independentemente da vontade dos seus profissionais de a pensarem e fazerem.

No Brasil os profissionais estão a criar uma agenda. E entre nós?
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Sobre Pedro Pereira Leite

Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra onde desenvolve o projeto de investigação "Heranças Globais: a inclusão dos saberes das comunidades como instrumento de desenvolvimento integrado dos território".(2012-2107) . O projeto tem como objetivo observar a relevâncias no uso da memória social em quatro territórios ligados por processos sociais comuns. A investigação desenvolve-se em Portugal e Espanha, na zona da Fronteira; em Moçambique e no Brasil. (FCT:SHRH/BPD/76601/2011). É diretor de Casa Muss-amb-iki - espaço de Memórias. Intervém no âmbito de pesquisa de redes sociais de memoria.
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