O que ficou por dizer no Dia Internacional dos Museus II

O ICOM internacional propôs como tema para o dia internacional dos museus em 2017 a questão “Museums and contested histories: Saying the unspeakable in museums” que alguém traduziu por “Museus e histórias controversas: dizer o indizível em museus”.

Durante a semana que passou muitas foram as manifestações nos museus, que organizaram eventos para este “dia” e para a “noite dos museus”. Vale a pena realçar que o tema foi tratado nas Jornadas da Primavera do ICOM Portugal, que no Dia internacional tornou pública uma nota com o título “Contributos para uma urgente e necessária política museológica nacional” (http://icom-portugal.org/multimedia/documentos/2017_ICOMPT_PoliticaMuseus.pdf)

Ainda nessa semana Luís Raposo, presidente do ICOM Europa escrevia no Público um artigo de opinião sobre “Cultura tudo será feito quando calhar ser feito” (https://www.publico.pt/2017/05/15/culturaipsilon/noticia/cultura-tudo-sera-feito-quando-calhar-ser-feito-1771908).

São dois balanços, que procuram refletir a realidade de cultura portuguesa, a partir dos museus e do património, numa altura em que os eventos que são organizados permitem alguma visibilidade na comunicação social.

Na espuma dos dias e na pressão que todos têm para todos os dias se renovarem raramente são feitos balanços. Como escreveu em tempos Pierre Nora os excessos de comemorações conduzem a uma perde de referência sobre o que se pretende comemorar. Faltrá fazer uma balanço destes debates.

Na Critica de Raposo e no documento do ICOM fez-se o diagnóstico da política cultural. Talvez seja melhor dizer da “ação cultural” deste governo. Ação, porque não haverá uma “política” percetível para acultura. Por exemplo Raposo apresenta o conjunto de propostas que estavam presentes no programa de Governo, para sobre elas concluir que não constituem um programa. Conclui com ironia com aquilo que todos sabemos; que entre quem faz o programa e quem o executa, são cabeças diferentes. Ora como em cada cabeça cada sentença, não admira tanta inconsistência.

Depois da breve passagem de João Soares pelo Ministério, de onde saiu após uma truculenta troca de bengaladas, o atual ministro, diplomata de carreira, acalmou o setor e distribuiu os parcos recursos em função das agendas que foram surgindo. Na cultura, como na vida “Quem não chora não mama!”. Mais uns museus nacionais, mais umas verbas para os teatros. Mais uns funcionários para aqui, promessas de futuro acolá. Como o orçamento não estica, quando se pões dum lado, tira-se do outro.

A ação tem sido hábil e está longe de ser um erro de casting. Embora alguns apontem que não parece ter uma visão estratégica para a cultura; outros pontam que talvez o ministro seja o próprio Ministro dos Negócios Estrangeiros, se tivesse tempo para tal, não fora as preocupações com as migrações, o terrorismo, as instabilidades nas comunidades portuguesas. Ainda para outros talvez seja um bom ministro, que como diplomata que é talvez trabalhe mais nos corredores, longe dos holofotes, tecendo laboriosamente um caminho que só ele conhecerá.

Faltará uma estratégia para a cultura? Será possível uma estratégia para a cultura em estados de poder exíguo?

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Sobre Pedro Pereira Leite

Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra onde desenvolve o projeto de investigação "Heranças Globais: a inclusão dos saberes das comunidades como instrumento de desenvolvimento integrado dos território".(2012-2107) . O projeto tem como objetivo observar a relevâncias no uso da memória social em quatro territórios ligados por processos sociais comuns. A investigação desenvolve-se em Portugal e Espanha, na zona da Fronteira; em Moçambique e no Brasil. (FCT:SHRH/BPD/76601/2011). É diretor de Casa Muss-amb-iki - espaço de Memórias. Intervém no âmbito de pesquisa de redes sociais de memoria.
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