O que ficou por dizer no Dia Internacional dos Museus I : O Impronunciável

Tomei por empréstimo ao meu bom amigo Pedro Cardoso Pereira a palavra com que ele se tem vindo, esforçadamente, a procurar demonstrar nas suas Oficina Žylĕch que, o aqui e agora, é e não é simultaneamente, uma condição da humanidade. Como tal não há possibilidade de se falar, sem simultaneamente dizermos tudo e ao mesmo tempo não dizermos nada, e de quando dizemos algo, isso já não interessa para nada, porque o que é necessário que seja dito, ainda não está dito.

Não sei se o ICOM internacional é um leitor atento deste nosso colega, mas para 2017 convencionou-se (fico sempre na dúvida sobre quem é que são os iluminados que se lembram destas coisas) que o dia internacional dos museus tenha tido como tema “Museums and contested histories: Saying the unspeakable in museums” que alguém traduziu por “Museus e histórias controversas: dizer o indizível em museus”.

Os procedimentos de tradução, sobretudo de expressões idiomáticas podem ser complexos. Por exemplo: porque razão o termo inglês “contested” foi traduzido por controverso, e “unspeakable” por indizível? Eu sei que a hermenêutica tem sido uma disciplina pouco usada nas nossas academias, preocupadas com a produtividade e com a empregabilidade dos seus alunos. Também reconheço a utilidade do Google tradutor para resolver rapidamente este tipo de problemas, sem grande contestação ou controvérsia.

Ainda para mais, se em vez de indizível se tivesse escrito impronunciável, este dia 18 de Maio teria sido preenchido com uma multiplicação de Oficinas “Žylĕch”, o que garantiria mais um contributo da museologia portuguesa para o Mundo. Oportunidade perdida que eu contesto. Vá lá: Pelo menos talvez seja controverso, o que obviamente levantaria um problema à Patrícia Remelgado de criar a sua exaustiva listagem de atividades para este dia, todas com o mesmo nome, tivesse sido dizível.

Contudo não deixa de ser curioso que tanto tenha sido dito antes deste dia, e nada se diga depois? Afinal não há controvérsias nos museus portugueses? Haja alguém que conteste este estado de alma!

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Sobre Pedro Pereira Leite

Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra onde desenvolve o projeto de investigação "Heranças Globais: a inclusão dos saberes das comunidades como instrumento de desenvolvimento integrado dos território".(2012-2107) . O projeto tem como objetivo observar a relevâncias no uso da memória social em quatro territórios ligados por processos sociais comuns. A investigação desenvolve-se em Portugal e Espanha, na zona da Fronteira; em Moçambique e no Brasil. (FCT:SHRH/BPD/76601/2011). É diretor de Casa Muss-amb-iki - espaço de Memórias. Intervém no âmbito de pesquisa de redes sociais de memoria.
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