Paisagens Rurais em Portugal

 De Henrique Pereira dos Santos, a Fundação Francisco Manuel dos Santos publicou-se no mês de janeiro o nº 70 da coleção Ensaios, com o título “Portugal: Paisagem rural”.

Esta pequena coleção de livros de bolso tem vindo a apresentar um conjunto de síntese sobre questões da atualidade. Este numero sobre a leitura os processos de transformação da paisagem rural de portugal nos últimos cem anos resulta da tese de doutoramento do autor.

É uma pequena história da agricultura e do uso do solo no mundo rural português. As principais dinâmicas de transformação da paisagem por via do seu uso, da emergência da mecanização, da forma como as comunidades se adaptaram aos diferentes tipos de solo, de regimes pluviais, dos movimentos demográficos, de crescimento de de recessão.

Prudentemente o autor introduz uma citação de José Mattoso,  sobre o uso a História (que não referencia da fonte) . “Estamos reduzidos a fazer deduções a partir dos acontecimentos, alguns deles de significado ambíguo, e sem o apoio de informações documentais expressas. Que o leitor não esqueça esta advertência para não transformar em certezas indubitáveis o que apresentamos apenas como uma interpretação verossímil dos factos

Francisco Pereira dos Santos é um articulista conhecido pelos seus trabalhos no “Público” sobre questões ambientais, e mais recentemente nos seus escritos no “Quebra-fitas” (onde alarga a sua escrita a questões da atualidade.

Na sua tese propõe uma leitura da evolução das das paisagens rurais no processo da transição duma economia agrária orgânica (fechada) para economias agrárias comerciais (economias de mercado).  Sem entrar nas questão das suas transformações sociais, que naturalmente acompanham as transformações económicas, centra a sua análise nos processos de transformação da paisagem. Segundo a sua tese, a cartografia da paisagem fornece os indicadores de análise.

Na sua hipótese, as paisagens nas economias agrárias fechadas, a alimentação da comunidade é uma consequência dos limites dos usos do solo. O que é possível produzir no âmbito de processos tecnológicos pré-industriais e pré-comerciais determina as dietas. A disponibilidade de alimentos (a capacidade de sobrevivência das comunidades) condicionam, quer o numero de braços disponíveis, quer  os usos do solo.

Com a transformação das economias agrárias de subsistência em economias abertas, por via  do comércio dos seus produtos, a revolução agrícola (primeiro com a mecanização, depois com a chamada revolução verde no uso da fertilização dos solos, da extensão do uso da tecnologia agrícola) implicará alterações na dinâmica da paisagem, alterando os regimes de dieta alimentar das populações.

Esta capacidade de produzir vida, primeiro localmente, com uso de recursos locais, depois globalmente, por importação de tecnologia e exportação de bens para o mercado, marca, no caso da agricultura portuguesa o processo de transformação da paisagem, ou do seu processo de humanização. No caso da paisagem portuguesa o clima e a geologia delimitam as suas possibilidades. As condições de partida são os tipos e disponibilidade de solo, o regime pluvial, a possibilidade de adicionar nutrientes elementares ao solo, o regime solar. Sobre estas condições de partida o trabalho (humano ou mecânico) e a sua organização.

É para compreender as alterações nestas paisagens tradicionais (dos campos de milho do noroeste entre o minho e o mondego, dos altos agrestes do para além do Marão com campos de trigo e centeio e sistemas de pastagens, os campos pobres dos xistos do centro, das áreas calcáreas do litoral estremenho, das planícies e charnecas alentejanas, do barrocal algarvio) que propõe olhar para aquilo que chama “forças motrizes da evolução da paisagem”.

Havia naturalmente lugares de maior fertilidade natural, os vales do Vouga, do Mondego, do Liz, do Tejo, do Sado, algumas Ribeiras do Algarve e do vale do Guadiana, onde a relação com as cidades, permitam relações abertas. Mas nos lugares de subsistência, o século XIX irá desenvolver o aproveitamento das paisagens até aos seus limites.  Este aproveitamento dos recursos naturais terá como uma das principais dinâmicas a necessidade de produzir alimentação para as comunidades. O regime alimentar depende do solo e influencia o uso do solo. cultura do porco, a presença de leguminosas em associação com cereal, o pastoreio de cabras e ovelhas, o regime florestal, tudo é usado como forma de maximizar a disponibilidade de alimentos, ao mesmo tempo que o seu consumo é feito em função das disponibilidades, As variações alimentares regionais, são assim uma das formas de adaptação das comunidades a estes processos.

Uma dos outras forças motrizes da transformação da paisagens, é a capacidade de aproveitamento da água. Em função da morfologia e do regime de chuvas, as paisagens mediterrâneas caracterizam-se por uma elevada capacidade de aproveitar os recursos aquíferos. O uso da água é a segunda força de transformação.

Um terceiro elemento de transformação na paisagem será o sistema de cultivo. O tipo de sementeira e o processo de adição de nutrientes determina as vitalidade dos resultados das colheitas. Dos processos tradicionais à introdução dos adubos e da mecanização , que se inicia no final do século XIX, virá relutará uma das mais forte forças de transformação da paisagem.  Grosso modo assistiremos a uma gradual passagem de sistemas de policultura, para sistemas de monocultura orientada para mercados. A fertilidade dos solos que assegura a rotação das culturas será marcada pelo crescente uso de adubagem industrial, alternado os processo de cultura em associação.

A tecnologia será um poderoso elemento transformador da paisagem, ao mesmo tempo que a marcará. Esse será o quarto elemento de transformação da paisagem. A  gradual transição para sistemas de cultura mecânica levará ao abandono dos fertilizantes naturais, e dos usos dos animais.

Ao longo do século XX cada um destes vetores de transformação levará a transformações dos processos de gestão agrícola. e através deles à transformações ou construção de novas paisagens humanizadas . O livro procura mostrar como a partir da morfologia do espaço, os usos do solo, da água, ada gestão da fertilidade e os processos de trabalho, na sua ligação com as formas de alimentação da comunidade (produção de alimentação)  se vão alternado  em função de evoluções tecnológicas.

A sua tese defende que a transformação da paisagem rural portuguesa, ao longo do século XX será profundamente influenciada pelos processos de mecanização e pela adubagem (através da introdução do azoto a baixo custo)   e pela crescente disponibilidade de água. Essa transformação quebrou a ligação tradicional entre sistema integrado (produção vegetal e animal) para um sistema comercial (de venda para o mercado). Os sistemas orgânicos fechados tornaram-se abertos, de monocultura e orientados para o mercado.

Os vetores de transformação levaram a uma possibilidade de aumentar o rendimento agrícola pela melhoria da rendibilidade de (alguns) solos, ao mesmo tempo que o abandono dos campos menos férteis, o êxodo rural e o fim da relação culturas e animais levaram a transformações na paisagem.

Estas alterações nas dinâmicas da paisagem levaram a profundas alterações da relações com a natureza, de que avida selvagem (apresenta o caso do Lobo ibérico como exemplo) ou os fogos florestais testemunham.

 

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Sobre Pedro Pereira Leite

Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra onde desenvolve o projeto de investigação "Heranças Globais: a inclusão dos saberes das comunidades como instrumento de desenvolvimento integrado dos território".(2012-2107) . O projeto tem como objetivo observar a relevâncias no uso da memória social em quatro territórios ligados por processos sociais comuns. A investigação desenvolve-se em Portugal e Espanha, na zona da Fronteira; em Moçambique e no Brasil. (FCT:SHRH/BPD/76601/2011). É diretor de Casa Muss-amb-iki - espaço de Memórias. Intervém no âmbito de pesquisa de redes sociais de memoria.
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