Amazónicas XVIII – Oficina de Contos Afro-Cubanos

A oficina de contos afrocubanos

A oficina de Corália Rodriguez é construída no âmbito da procura do reconhecimento do eu e do outro através da oralidade. É feita como um processo de construção de identidade.coraliarodriguez2

A primeira proposta, de reconhecimento iniciou-se pela procura da origem do nome próprio. Saber porque é que cada um se chama assim. Qual é a origem e a ideia de que o nome é um projeto pré-definido pelos pais. A nossa origem está ligada a um projeto. O exercício procura reconhecer essa identidade.

A oficina da oratura afro-cubana é feita com humor. O humor é um instrumento narrativo. É eficaz se for um humor positivo, feito com um sorriso. Não com o sorriso feito para dentro. Mas um sorriso para partilhar.wp_20160827_16_01_33_pro1

Os contos servem para adormecer as crianças, mas também servem para educar adultos. Por essa razão, o trabalhar com adultos e crianças, há que ter em atenção a estrutura do conto. Todos os contos têm uma introdução, tratam um conflito e têm um desenlace. É necessário ao narrador, saber o que é o conto, porque se conta, e como é contado (narrado). O conto, quando está escrito, é independente do narrador, mas é o narrador que tem que procurar a transcendência do conto através da sua narração.

Entregar-se ao conto, entregar-se à narração é não só a aplicação duma técnica (onde a técnica de representação ajuda), mas também a consciência do que se procura transmitir nesse conto. O narrador necessita de saber porque escolhe esse conto, ou porque razão o conto escolheu essa forma narrativa, através desse narrador.

Na oratura afro-cubana, o conto não é apenas uma estrutura narrativa pre-existente. É um processo que vive, que se manifesta duma determinada forma através dum narrador. O narrador também não é apenas um agente de transmissão (comunicação) inocente. É um agente, ou ator ativo, envolvido no processo, que acrescente uma experiencia pessoal e que dialoga com a estrutura do conto.wp_20160827_17_41_39_pro1

A oratura trabalha uma dimensão emotiva da memória. A memória emotiva

A memoria emotiva é trabalhada no teatro do espontâneo. Introduzida por Konstatin Stanislavsky que evitava os gestos parasitas, os gestos que não levam a nada e que são estéreis.  Á memória emotiva é um processo da preparação do ator, onde após a introspeção e a concentração de procura a memória emotiva do ator. As emoções são livres, não se trabalham. O que o ator trabalha são as condições do corpo que expressam as emoções. Por essa razão o ator, ao procura na sua memória emotiva as relações de proximidades ou de semelhança com a personagem, está a criar as condições de se entregar ao papel.

Evidentemente que a memória emotiva, pode limitar a aproximação do ator apenas às experiencias vividas. Contudo, muitas experiencias não são apenas experimentadas, são também vivenciadas através de contos e experiencias dos outros.

Na técnica da oratura, onde não há a representação dum papel, mas a mediação dum processo. É necessário tem em atenção o olhar. Os olhos são o espelho da alma. O olhar é revelador das emoções do narrador e fornece, igualmente a medição da temperatura da audiência. Uma oratura deve ser sincera e emotiva. Deve facilitar a proximidade e a entrega do narrador à oratividade e da audiência à audição. Podem ser criados pequenos momentos de participação. Podem ser encorajados momentos de participaçºão em momentos chave da oratura.

Na narração oral, como em tudo, não há caminho sem obstáculos. E a única maneira de ultrapassar os obstáculos é enfrenta-los. Um conto é sempre um obstáculo que devemos enfrentar. O tempo da narração é um processo de superação.

Um outro elemento relevante da oratura é o ritmo da narração. Um conto deve ser projetado na audiência. Mas a narração tem que ser interior. Tem que vir de dentro. Tem que estar sintonizada com o ritmo da respiração. Se uma oratura é uma forma de contar o mundo ele tem que estar em conexão com o mundo.

Narrar um conto é também um ato criativo. Narrar implica recriar. A preparação deve ter em atenção que em todo o conto à uma estrutura, um esqueleto que orienta. É sobre essas linhas que o narrador cria.

Quem conta um conto acrescenta um ponto e no mundo dos contos tudo é permitido sem romper a logica da história.

Finalmente, algumas questões práticas para o narrador. Já ficou implícito a necessidade de dispor de um momento para concentração. O vestuário deve ser confortável e adequado à aduência e ao espaço. Antes de se fazer a narração deve-se lavar os dentes, as mãos e a cara. A narração é um processo de entrega ao outro. De construção com o outro

Para finalizar a oficina, Corália Rodriguez canta um poema recolhido por Samuel Feijo – Investigador de contos tradicionais de cuba. E  revela o seu objeto narração. Uma pequena boneca negra, que lhe foi oferecida num terreiro de candomblé, na Bahia.djabulina

Abayome. 

Dibulee oni

Emi omi omo

Yemaya tiyale.

 

Bibliografia

http://mondoral.org/?-Coralia-Rodriguez-Comedienne-Conteuse-Cubaine-

http://www.cuentacuentos.eu/narradores/miembros/suiza/CoraliaRodriguez.htm

http://www.revistadeteatro.com/artez/artez164/zona/gentedepalabra.htm

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Sobre Pedro Pereira Leite

Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra onde desenvolve o projeto de investigação "Heranças Globais: a inclusão dos saberes das comunidades como instrumento de desenvolvimento integrado dos território".(2012-2107) . O projeto tem como objetivo observar a relevâncias no uso da memória social em quatro territórios ligados por processos sociais comuns. A investigação desenvolve-se em Portugal e Espanha, na zona da Fronteira; em Moçambique e no Brasil. (FCT:SHRH/BPD/76601/2011). É diretor de Casa Muss-amb-iki - espaço de Memórias. Intervém no âmbito de pesquisa de redes sociais de memoria.
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