Um País de encruzilhada de culturas e raças

Atualmente somos confrontados com o desafio da diferença. É uma aposta que urge aceitar, porque não tem retorno, sob pena de nos excluirmos da história. Exige uma revolução “copernicana” cultural e social, para superar os erros do passado. É uma transformação que impõe a “centralidade da pessoa”, na sua singularidade e irrepetibilidade, ao nível da vida cósmica e da vida do planeta – situação semelhante para as culturas e raças.

Conceber um conceito de centralidade policêntrica, como espaço simbólico da humanidade, é a tentativa de colocar um “centro” coabitado, em cada lugar, pelo Homem e pela sua comunidade, fundado numa “ universalidade situada” e concreta, onde se falam várias vozes e que exige, consequentemente, um metamorfose antropológica – o centro, para existir cria, necessariamente, a periferia, como o espaço de vida “inferior” e do subordinado; ao contrário, “os centros”, anulam a ideia da periferia, porque vivem na pluralidade, na presença do Outro, do múltiplo, dando uma consistência diferente à nossa verdade.

O lugar da centralidade policêntrica do universalismo da diferença é o centro de uma mestiçagem, o espaço da contaminação das culturas, raças, indivíduos, ideias. A mestiçagem é uma ordem mental, espiritual, indiferente à cor da pele, à raça, que gera um mundo dialógico da liberdade e da compreensão mútua, onde todos tem o direito à sua intrínseca forma de estar (e não a cópia de uma outra), pelo direito em exibir uma autonomia, possuir a identidade “novellistic” como a “síntese do heterogéneo”, como refere Paul Ricoeur.

Este movimento contém resistências originadas pela leitura do mundo, construídas pelas memórias, vivências e experiências individuais mas ancorada em aspetos da memória do grupo social onde o indivíduo foi socializado. Essa História e memória oficial da sociedade estabelecem e expressam uma versão acordada e consolidada do passado, filtrada e interpretada por interesses e ideologias dominantes (em cada época), com os seus valores, mitos, arquétipos, uniformizadora de lembranças. No nosso caso, uma História construída e protagonizada por uma ocidentalidade que interpretou e registou memórias que urge hoje revisitar, pela impossibilidade de conhecer os Outros (e Nós), mantendo centros, periferias e silêncios! Assim, é importante impulsionar este movimento a fim de nos aproximarmos e conhecer o Outro, de recebê-lo com uma linguística e uma hospitalidade novellistic, como a troca das memórias. Este movimento de aproximação e conhecimento do Outro não conduz à rejeição da nossa História, antes propõe o seu enriquecimento. O que se pretende é dar entrada a outras Histórias, repensar outros dados, na urgência de uma visão mais holística da História onde sejam costuradas memórias emergentes, não monumentalizadas, integrados os significados e sentidos do Outro e valorizados os mitos, os sonhos, os desejos como fatores fundamentais dos seus percursos e marca das suas identidades.

Cabe aqui refletir sobre a nossa identidade edificada por um encontro de culturas, entrelaçada por relatos de outros universos culturais, construída com o Outro, fluida e orientada eticamente. Pelas razões expostas, o lugar da centralidade policêntrica do universalismo da diferença encontra-se na “cidade-mundo”. Em Portugal existem muitas “cidade-mundo” – Lisboa, Coimbra, Évora, Porto, entre outras – cidades que conservam, ainda, as características da civilização romana e, também, a influência de muitas outras culturas, que construíram o ethos barroco.

O conceito da “cidade-mundo”, como expõe o filósofo italiano Mario Perniola, nasce com a civilização romana, da qual o país de Lusitano é rico em histórias e memórias.

Roma era uma cidade (urbs) sem uma verdadeira origem, mas apenas um início, onde todos eram estrangeiros, a começar pelo seu fundador, Rómulo, com origem na Longa Alba, Tito Tazio e Numa Pompilio com origem em Sabina, mesmo Enea, protótipo da stirpe romana, com sangue grego. Todos em Roma vinham de outro lugar, até as divindades eram de locais e tempos diversos, sendo a cidade o lugar de acolhimento de “várias pátrias”.

O pantheon Romano, enquanto templo de todos os Deuses era, de facto, o local de convergência de todos os que habitavam os vários territórios do império, expressando e simbolizando a diversidade das culturas ali reunidas. Roma, consequentemente, não fazia sentir aos seus habitantes, que eram estrangeiros, desconhecidos, marginais mas, sim, cidadãos de pleno direito. Cidadãos de uma “cidade-mundo”, onde todos, sem distinção da raça, religião e cultura, podiam viver na plenitude o direito da sua existência, porque civitas Roman é o sincretismo de todas as manifestacões espirituais do império.

Para Perniola as características da civilização romana das “cidade-mundo” são reencontradas na cultura barroca, muito presente em Portugal, no século XVIII.  O barroco é também o espaço colonial que se aproxima do Outro e põe em contacto diversas culturas. É o repto de uma racionalidade mestiça. O móbil dos Jesuitas que são filoumanistas na Europa, mas, também, do filoconfucianismo na China, do filoinduismo na India, porque portadores de um pensamento da diferença, que educa no respeito das outras culturas, sem medo das miscigenação, ciente que a mestiçagem é a fundação do mundo.

À força destas considerações interrogamo-nos sobre a possibilidade de concretizar uma outra experiência do mundo – Portugal foi romano, resistiu às invasões bárbaras, foi árabe e europeu, emergindo nas suas cidades vários estilos: românico, gótico, manuelino, renascentista, barroco, etc. Consequentemente o país de Lusitânia é o espaço privilegiado para o retorno das“cidade-mundo”, enquanto espaço simbólico da diversidade da humanidade, onde todas as culturas, superam colonialismos e imperialismos, re-entram no palco cénico da história e fazem ouvir a sua voz.

António Vallleriani, Grupo Multiversum, Teramo, Italia

Luisa Janeirinho, socióloga, museóloga, Lisboa, Portugal

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Sobre Pedro Pereira Leite

Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra onde desenvolve o projeto de investigação "Heranças Globais: a inclusão dos saberes das comunidades como instrumento de desenvolvimento integrado dos território".(2012-2107) . O projeto tem como objetivo observar a relevâncias no uso da memória social em quatro territórios ligados por processos sociais comuns. A investigação desenvolve-se em Portugal e Espanha, na zona da Fronteira; em Moçambique e no Brasil. (FCT:SHRH/BPD/76601/2011). É diretor de Casa Muss-amb-iki - espaço de Memórias. Intervém no âmbito de pesquisa de redes sociais de memoria.
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