Amazónicas IX (Notas sobre milão)

NOTAS SOBRE O FORUM DE MILÃO SOBRE ECOMUSEUS E MUSEUS COMUNITÁRIOS.

Pedro Pereira Leite

Os ecomuseus, os museus comunitários e a museologia social estiveram em debate durante a 24ª Conferência Geral do ICOM, realizada em Milão no passado mês de julho. O Fórum sobre Ecomuseus e a agenda dos Ecomuseus Italianos mereceram um intenso debate entre os profissionais de todo mundo, em diferentes momentos, onde ficou demonstrada a relevância da ecomuseologia social e dele resultou a convicção sobre a necessidade de se construíram propostas de ação conjunta para os próximos anos.

O Fórum foi dinamizado pelos colegas italianos, propondo para debate o Documento Estratégico dos Ecomuseus italianos[1] e contou com uma participação ativa de Hugues de Varine[2], Donatella Murtas, Mário Moutinho, Amareswar Galla, Raul Lugo, Teresina Cruz entre tantos outros amigos. O primeiro encontro realizou-se a 4 de julho, através dum encontro conjunto do ICOFOM, do CAMOC e do MINOM, dois comités de trabalho do ICOM (sobre Museologia e Museus de Cidade) e uma estrutura associada (Nova Museologia), onde foram apresentadas as diferentes formas de intervenção dos ecomuseus, dos museus comunitários e outros processos de museologia social. Posteriormente, entre 6 a 8 de julho, em sessão especial, foram apresentados as diferentes experiências no mundo e foram realizadas visitas aos ecomuseus italianos.

Não cabe no espaço desta informação apresentar a riqueza do debate realizado e a diversidade das experiencia, mas não queremos deixar de apontar algumas notas para o futuro, tendo em particular atenção o que podermos fazer em conjunto Portugal e países lusófonos.

Uma primeira nota que merce destaque é da potencialidade e a atualidade que este encontro mostrou sobre a intervenção dos processos ecomuseais e comunitários no nosso tempo. Uma potencialidade na mobilização e participação das comunidades a partir dos seus patrimónios e heranças; na relevância do património e da memória para a dinamização da economia local, não apenas na revitalização de regiões em recessão, mas também das cidades e espaços afetados por processos de globalização; e finalmente, da sua adequação como instrumento para o reconhecimento e conservação das “paisagens culturais”, na base na conscientização ambiental e na procura de práticas de transição.

Trata-se de um conjunto de questões que dão resposta à última Recomendação da UNESCO sobre “Museus e coleções, sua Função e Social e promoção da sua Diversidade”, e que abrem espaço de diálogo muito intensos na área da economia solidária e turismo social.

Uma segunda nota sobre este Fórum, é sobre a evidência de que estas experiências, a sua riqueza e diversidade, necessitam de ser partilhadas através de redes de conhecimento, bem como da utilidade de discutir a suas práticas e instrumentos de forma mais alargada, nomeadamente através de encontros entre os ativistas e praticantes da museologia social e comunitária. Para isso é necessário criar uma agenda e dar consistência às formas e instrumento de trabalho e criar relações entre diferentes processos.

A proposta de criação duma Rede de Ecomuseus, em Itália, parece ser uma proposta poderá dar consistência à fragilidade, por todos reconhecia, que os ecomuseus são localmente instrumentos muito dinâmicos, mas com fraca capacidade de afirmação global. Os ecomuseus mostram dificuldades em comunicarem e partilharem as suas experiências e processos em escalas mais largas. A criação da rede, seja na base da região, seja transnacional poderá agregar toda a diversidade de processos que estão a surgir, na América do Sul, na Ásia, ao mesmo tempo que poderá contribuir para criar uma base de comunicação entre profissionais e promover espaços de encontro e formação.

A terceira nota que o encontro sobre ecomuseus nos deixou é do seu potencial de irradiação e contágio em processos de desenvolvimento das comunidades, das suas formações sociais, das suas bases económicas e da integração dos recursos territoriais e ambientais. O trabalho nos ecomuseus e museus comunitários implica uma elevada interdisciplinaridade nos processos, revelando-se um ecomuseu como um laboratório de futuros e como um potencial espaço para criação de inovação social.

Uma quarta nota relativa à questão das paisagens. O tema geral da conferência do ICOM foram os Museus e as paisagens culturais e aprovação da carta de Sienna. Os museus procuram constituir-se como espaços de interpretação da paisagem. Nesse sentido os ecomuseus já são hoje, por definição, lugares e processos de musealização das paisagens. Mais, o desafio dos ecomuseus é o de serem também atores na formação dessa paisagem. Os ecomuseus permitem a intervenção na preservação ambiental, regressando á Convenção da UNESCO de 1972, sobre proteção e promoção do património mundial, cultural e natural, ultrapassando a falsa oposição entre natureza e cultura.

Uma quinta nota deste encontro é de que hoje é necessária uma colaboração entre os Ecomuseus e outras organizações que atuam no território. Relações mais profundas com o ICOMOS, com organizações de turismo solidário e do terceiro setor, são hoje fundamentais para criar compromissos nas agendas locais. Neste encontro ficou claro que é necessário criar espaços de debate sobre questões comuns com as organizações que intervêm no território. A experiencia dos ecomuseus, em Itália, mostra a possibilidade de usar este modelo como laboratório. Ficou todavia o desafio de entender os seus limites e alcance.

Finalmente uma última nota, o pensar como e sobre que forma este potencial pode vir a ser desenvolvido em Portugal. O desafio de pensar a constituição de uma rede de ecomuseus portugueses está na agenda, e a celebração, no próximo ano dos 35 anos do Ecomuseu do Seixal, onde a nossa querida colega Graça Filipe procura dar corpo ao processo de musealização da fábrica da Pólvora, em Vale de Milhaços, pode ser o momento adequado para discutirmos todos como o podemos fazer. A proposta está lançada e apelamos à colaboração de todos para concretizar esta ideia, em Portugal e se o conseguirmos, nos países Lusófonos[3].

[1] http://www.ecomusei.eu/?page_id=1591

[2] Hughes de Varine autor escreveu “Raizes do Futuro”, onde apresenta a sua experiencia sobre os ecomuseus. Veja-se https://midas.revues.org/458

[3] Para integrar esta ideia enviar um mail para pedropereiraleite@hotmail.com ou contatar o ICOM Portugal info@icom-portugal.org

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Sobre Pedro Pereira Leite

Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra onde desenvolve o projeto de investigação "Heranças Globais: a inclusão dos saberes das comunidades como instrumento de desenvolvimento integrado dos território".(2012-2107) . O projeto tem como objetivo observar a relevâncias no uso da memória social em quatro territórios ligados por processos sociais comuns. A investigação desenvolve-se em Portugal e Espanha, na zona da Fronteira; em Moçambique e no Brasil. (FCT:SHRH/BPD/76601/2011). É diretor de Casa Muss-amb-iki - espaço de Memórias. Intervém no âmbito de pesquisa de redes sociais de memoria.
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