Amazónicas VIII

Memória Acesa

A Missiva da XVII Conferência do Movimento Internacional para uma Nova Museologia, Nazaré 2016

Pedro Pereira Leite – MINOM-ICOM

arigoca

Há sítios no mundo que são mágicos. Lugares que têm aura. A comunidade da Nazaré, nas margens do rio Madeira, um afluente do rio Amazonas, na fronteira do Brasil com a Bolívia é um destes lugares. Aí estivemos, no mês de agosto, a participar na XVII Conferência Internacional do MINOM. Um evento construído em parceria com a Universidade Federal da Rondónia, que ai desenvolve um projeto de extensão com o Instituto Minhas Raízes, criados por habitantes das comunidades ribeirinhas, que fazem da intervenção cultural um modo de afirmar a sua identidade e preservar as suas memórias. A possibilidade de criar um museu na comunidade serviu de pretexto para o encontro.

A Amazónia é hoje uma das nossas fronteiras. Um pouco do futuro da humanidade passa pela manutenção da sua diversidade e dos seus sistemas de vida. A comunidade da Nazaré, constituída por índios e seringueiros, que há mais de cem anos se fixaram nas margens do rio Madeira, sabem que estão integrados num sistema complexo. As práticas neo-extrativistas, que marcam as economias ditas emergentes, rapinam de forma intensivas as matérias-primas que alavancam o seu “desenvolvimento”. Como em tudo, há outros lados das histórias. Há quem ganhe e há quem perca.

O lado da perda é um sentimento vivo na Nazaré, São cheias violentas e nunca vistas, reduções abruptas de caudais de água, diminuição acentuadas dos peixes no rio. A comunidade sabe que depende do rio. Se o rio muda a comunidade muda. Eles não querem mudar. Eles não querem ficar do lado da certo da história e por isso lutam contra a remoção das comunidades das margens dos rios e contra a pressão para o abandono dos seus modos de vida ancestrais, em comunhão com a natureza. Cantam e defendem a sua vida ligada aos seus espaços no âmbito da procura dum “Bem-viver”. A memória acesa é hoje um dos seus principais recursos nessa luta.

A Missiva da Nazaré, construída em colaboração pelos participantes do XVII MINOM procurou identificar as questões relevantes nas práticas da nova museologia e assumiu o seu compromisso de procurar novas respostas adequadas à construção de uma outra relação com a natureza, com os outros e com a diversidade[1].

Eu jamais partirei da Nazaré, porque lá vi o que é esta nossa força, junta, que nos faz mover o mundo. É esta a nossa memória acesa que nos dá essa força que nos junta. O que posso eu fazer se não agradecer ter podido viver para contar esta experiencia vivida em conjunto com gente boa, empenhada no futuro. E talvez, dar aqui, nesta terras do Atlântico, bordejadas pelo mediterrâneo, um sabor deste museologia nova.

[1] Para consultar o texto da Missiva da Nazaré:veja-se : https://globalherit.hypotheses.org/5235

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Sobre Pedro Pereira Leite

Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra onde desenvolve o projeto de investigação "Heranças Globais: a inclusão dos saberes das comunidades como instrumento de desenvolvimento integrado dos território".(2012-2107) . O projeto tem como objetivo observar a relevâncias no uso da memória social em quatro territórios ligados por processos sociais comuns. A investigação desenvolve-se em Portugal e Espanha, na zona da Fronteira; em Moçambique e no Brasil. (FCT:SHRH/BPD/76601/2011). É diretor de Casa Muss-amb-iki - espaço de Memórias. Intervém no âmbito de pesquisa de redes sociais de memoria.
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