Encontro da Primavera do ICOM.PT (XII)

PL [1:13’30’’] Obrigado. Apenas mais algumas palavras. Os temas são de facto muito interessantes mereceriam uma conversa mais detalhada, mas para não prejudicar os nossos colegas que de seguida vão trabalhar também um tema interessante, que é a Carta de Siena. Ficam então uns breves comentários.

Efetivamente hoje vivemos um tempo complexo em relação ao papel do Estado e das políticas públicas na sociedade. A nossa organização política, na Europa e em grande parte do mundo é o sistema democrático, com base na representatividade – a democracia representativa, e hoje fala-se muito de que forma é que nós hoje podemos aumentar, melhorar a participação dos cidadãos nos processos de decisão. A democracia quer dizer o governo do povo, e portanto ela só funciona se as pessoas participarem, se elegerem os seus representantes, e sobretudo se fizerem chegar a sua voz aos seus representantes, quando estes estão no exercício dos seus mandatos. E este é o grande problema, pois quando os representantes estão no exercício do mandato fazem o que a sua consciência dita, ou o que os seus grupos de interesses determinam. Ora hoje para equilibrar esta fragilidade entre o interesse geral e os interesses específicos de cada momento protagonizados pelos representantes, fala-se cada vez mais da necessidade de equilibrar a democracia representativa com formas de democracia participativa.

Por isso hoje em dia, e esta Recomendação é um espelho disto, incentiva-se que os estados membros (na maior parte dos casos democracias representativas) incentivem os seus cidadão a participar nas tomadas de decisão que os afetam. É claro que esta é uma questão muito complexa, mas a museologia, que é o caso que nos interessa, há muito que trabalha com os processos participativos e com as comunidades. E aqui está um desafio interessante para as políticas públicas. Não fará hoje muito sentido o estado promover um processo de planeamento centralizado para políticas públicas em todo o território. Hoje fará mais sentido estabelecer um quadro geral de referências e objetivos, um quadro de convergência de interesses, e depois procurar os lugares onde se encontram as forças vidas da sociedade, e partir delas para construir, e esperar que esses processos contagiem outros lugares. Hoje em dia a democracia participativa está muito ligada com os princípios da ação em Rede. Hoje é extremamente importante saber trabalhar em redes, em processos colaborativos. Isso podemos fazer, e já esta a ser feito nos nossos museus, muitas vezes de forma muito eficiente.

Em relação às questões que a Joana colocou, em relação à sustentabilidade dos museus. Esta é uma questão que está também na ordem do dia. No ano passado foi aprovada pelas Nações Unidas a Agenda dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, e há aqui toda uma articulação entre a economia, a sociedade e o ambiente, no qual a cultura, embora não seja um pilar destes ODS, e as suas organizações tem que dar resposta. As nossas organizações têm que ser rentáveis, se prosseguirem o lucro. Têm que ser equilibradas se não tiverem fins lucrativos, têm que ser sustentáveis ambientalmente e devem promover uma sociedade justa e inclusiva. As nossas organizações têm que ser produtivas, socialmente úteis. E isto é um desafio!

É evidente que nos museus nós não trabalhamos com o lucro. Mas também não podemos cair numa análise de balanço de mercearia, em que o número de visitantes é equivalente ao valor da receita. Ou eventualmente adicionar na contabilidade os custos da conservação dos edifícios e coleções e da sua gestão. Nos museus nós trabalhamos com valores que os economistas chamam as externalidades. E isso necessita de ser adicionado ao balanço dos museus. Quando falamos dos museus, do seu valor social, também estamos afalar deste ativo que se produz e que irradia para a sociedade. Há portanto custos que se diluem no tempo e no espaço, criando ativos noutros lugares. É preciso fazer ver isso de forma clara aos políticos.

Hoje por exemplo existem nas cidades, e a maioria da população já vive nas cidades, existe um setor muito dinâmico que é chamada a Economia Criativa. A Joana que está à frente dos museus de Lisboa conhece bem esta vitalidade que hoje a nossa cidade apresenta e grande visibilidade que os diversos equipamentos culturais têm no centro da cidade. Evidentemente que nem tudo poderá estar bem mas esta discussão levar-nos ia para fora desta nossa Recomendação que aqui nos trás.

Em relação à questão do Luís Raposo, eu também não conheço a Resolução do Conselho da Europa, mas há aqui um campo comum entre várias instituições: Museus, Arquivos, bibliotecas, pois todas eles trabalham no campo das instituições de memória. No entanto todas tinham políticas diferenciadas. Por exemplo em Portugal são tuteladas pelo Ministério da Cultura que com altos e baixo criou em todo o país uma política para museus, outra para bibliotecas, outra para arquivos, outra para o Património, outra para o teatro outra para o cinema. Ora hoje em dia nós estamos confrontados com a questão de como é que podemos manter todas estas instituições a funcionar. A funcionar com a dignidade que elas merecem, note-se. Provavelmente termos que criar sinergias entre elas, fazer acontecer processos museológicos nas bibliotecas, nos teatros. Que hajam teatros nos museus. Enfim, temos hoje que ser criativos e procurar atuar conforme podemos com os recursos que dispomos e ter uma ideia de que fins queremos alcançar. E esse esforço temos que ser nós a fazer.

Para terminar, esta questão da colega sobre os museus que estão moribundos. Bem às vezes os museus também morrem. Temos que encarar estes processos como naturais. Muitas vezes estes pequenos museus estão muito ligados às pessoas que os fizeram, que o mantiveram. Se não souberem renovar-se eles definam com a perda da vitalidade das pessoas. Por exemplo, os ecomuseus em França e no Canadá foram experiências que registaram diferentes dinâmicas. O Hughes de Varine já reconheceu várias fases nos ecomuseus, onde cada uma delas procurava responder à essa perda de vitalidade que se sentia. Os museus funcionam com pessoas e as pessoas têm estas circunstâncias. Ora neste pequenos museus, a única forma deles funcionarem é conseguir que a comunidade se empenhe nesses espaços. Se aproprie deles e tome conta deles e nels desenvolva as suas atividades.

Só uma última questão, a divisão entre a museologia do norte e a do sul. Eu gosto muito da divisão entre os nórdicos, frios e individualistas e as cultura do sul, quente e dos afetos. Bem estas divisões são o que são e por vezes não passam de banalidades. Mas no mediterrâneo nós trabalhamos com as pessoas, gostamos de olhar olho no olho, de sentir o contato e de estar em comunhão. E de alguma forma temos que manter esta nossa tradição de olhar para o outro e trabalhar com o outro e fugirmos dessa tendência de criar normas nos museus. Nós temos nos nossos museus uma tendência de colocar guias, audiovisuais e procurar a autonomia dos vistantes. Essa norma europeia de visitar um lugar agarrado a um guia deveria, quanto a mim ser evitado. Devemos procurar que os museus sejam lugares de encontro, e ao invés de criar distância, aproximar. Esta Recomendação permite que esta nova museologia, seja fundamentalmente um espaço de encontro.

Esta é uma convicção pessoal de que um museu é um lugar de encontro, um lugar onde nos encontramos connosco, com os outros, onde reconhecemos a diversidade do mundo. É aí que podemos trabalhar naquilo que são os objetivos da humanidade, de alcáçar uma cultura de paz e prosperidade e bem-estar para todos.

AC 1:[21’03’’] Obrigado a ambos. Damos por encerrada esta mesa. Segue-se um intervalo de 10 minutos. Até já.

Aplausos.

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Sobre Pedro Pereira Leite

Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra onde desenvolve o projeto de investigação "Heranças Globais: a inclusão dos saberes das comunidades como instrumento de desenvolvimento integrado dos território".(2012-2107) . O projeto tem como objetivo observar a relevâncias no uso da memória social em quatro territórios ligados por processos sociais comuns. A investigação desenvolve-se em Portugal e Espanha, na zona da Fronteira; em Moçambique e no Brasil. (FCT:SHRH/BPD/76601/2011). É diretor de Casa Muss-amb-iki - espaço de Memórias. Intervém no âmbito de pesquisa de redes sociais de memoria.
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