Encontro da Primavera do ICOM.PT (VII)

AC [39’ 39’’] Pedro Leite, como já referiu a questão da Função Social do Museu, claramente, é central nesta Recomendação. Como é que os museus podem realmente desenvolver a sua função social e contribuir para a inovação social?

PL [39’35’’]. Bem essa questão é complexa e difícil de responder neste curto espaço de tempo. Nós temos vindo a discutir e a trabalhar sobre isso há vários anos, e já temos várias teses sobre esta questão. Não há, penso eu uma solução única. Neste momento, e a Clara Referiu isso na sua intervenção, há uma grande discussão no campo da museologia. Afinal para que é que serve um museu, para que é que serve uma coleção. E a resposta a isto pode ser a mias diversificada. A própria Recomendação, o seu texto, é muitas vezes contraditória. Algumas vezes pensamos que é uma coisa, para logo à frente ser outra.

Por exemplo, quando fala da educação, diz-se que os Museus devem contribuir para a Educação formal e não formal. Depois, mias à frente diz-se que os museus devem trabalhar a educação não formal e informal. Ora quem trabalha em educação sabe que cada uma destas palavras – formal, não-formal ou informal- revela uma opção sobre os processos educativos.

Quando há pouco falava sobre a função Educativa e sobre a Educação Popular, nós sabemos que na América do Sul, nos anos sessenta e setenta, se discutia que o museu devia contribuir para qualquer coisa na sociedade. Na comunidade em que estava inserido. Deveria contribuir para Educação das Pessoas, do Povo. Porque como sabemos, nessa altura a América do Sul era uma zona do globo com grandes assimetrias. Na educação existiam um conjunto de pessoas com acesso à instrução, muito ricas e com acesso a bens de consumo e à saúde, e havia depois uma grande massa de pessoas que eram analfabetas, com fraco acesso aos sistemas de saúde, com deficiências alimentares, ou mesmo com fome. Havia ainda os povos indígenas que estavam ainda fora da vida social a par com outros problemas. Considerava-se então que os museus deveriam contribuir para o acesso à educação do povo. A função social surge neste caldo onde se fermentava o desejo de criar sociedades mais justas e inclusivas.

É necessário não esquecer que nós temos como base das nossas sociedades a ideia da Paideia grega. De que é possível transformar através da educação. Acreditamos que educação é um processo de crescimento, individual e coletivo que permite criar melhores pessoas e construi um mundo mais justo, onde se possa ultrapassar a questão da fome, que promova a saúde. Enfim, um conjunto de situações que esta Recomendação também nos chama a atenção, quando refere a importância dos museus de estarem ao serviço do desenvolvimento.

Bom o que é que os museus precisam de fazer para responder à sua Função Social, ou se quisermos para que é que servem os museus na sociedade? Ora esta resposta depende sobretudo dos seus profissionais. Uma questão que esta declaração também chama a atenção, para a necessidade de ter profissionais qualificados a trabalhar nos museus. Porque são elas as pessoas que se dedicam ao trabalho museológico, que fazem as coisas suceder. Um trabalho que não é só investigar os objetos que já estão nos museus, ou a criar novas exposições, ou preocupados em chamar mais gente, mas que é também, sobretudo diria eu, um trabalho que procura identificar questões relevantes que existem na sociedade e trabalha-las nos museus para enunciar respostas.

Por exemplo, à Clara à pouco falou da questão do património cultural. Mas a Recomendação fala do Património. Em Portugal estamos muito habituados a dividir o Património cultural dum lado e o património natural dum outro lado. Os membros do ICOM, quando vão ao Oceanário de Lisboa, ou ao Jardim zoológico, não são considerados profissionais. Embora estes espaços apresentem coleções, é certo de seres vivos, estes espaços são tutelados pelo Ministério da Agricultura, tal como os Espaços de Proteção ambiental, são tutelados pelo Ministério do Ambiente. Por seu lado quando há outro tipo de objetos, tipo quadros, pedras e vestígios arqueológicos, objetos etnográficos, os bens imateriais, já a tutela é do Ministério da Cultura. Ora esta Recomendação, de certo modo, também ultrapassa esta barreira entre a cultura e a natureza. É necessário olhar para o que está acontecer e olhar duma perspetiva do processo museológico, para o que é que constitui a nossa herança. Onde é elas estão, como os museus as apresentam e como eles se misturam com o local onde se encontram.

Ainda há pouco, antes desta sessão começar, estávamos a conversar da forma como a arqueologia tinha mudado. Antigamente tiravam-se as pedras dos sítios onde estavam para colocar nos museus. Hoje o que deve ser feito é trabalhar os objetos arqueológicos e procurar preserva-los no local, procurar entender e interpretar o lugar de forma a produzir informação relevante para as nossas vidas.

Outro exemplo sobre a nossa relação com o ambiente. Antigamente, as comunidades transumantes circulavam no espaço em função do ciclo da água. Aprendiam a sobreviver e a gerir as suas vidas em função dos ciclos da água. Ora hoje a água, é um bem precioso. E estes saberes são úteis para a sociedade. É certo que aqui em Lisboa há um museu da água. Mas é um museu que trata sobretudo das questões do abastecimento da água á cidade. Da tecnologia de captura, transporte e distribuição. Mas hoje é necessário que os museus recuperem toda essa tradição dos saberes sobre a gestão da água, para melhor vivermos em comunidade. Essa é também uma Função Social dos museus, a de trazer para a discussão as questões do tempo presente.

Para concluir esta questão sobre a Função Social dos Museus, diria que ela depende de cada um de nós, dos profissionais dos museus, da sensibilidade que temos para viver na sociedade, para nela atuar, para a transformar, para a tornar mais justa, para ser um espaço de promoção de paz e de resolução de conflitos, para contribuir para o crescimento das pessoas. E depende também da nossa capacidade técnica de trabalhar com pessoas. Hoje em dia trabalhar em museus é também trabalhar com pessoas, falar com pessoas, saber trabalhar com grupos, saber procurar as relevâncias dos objetos. E aqui vale a pena não esquecer que os objetos que estão à nossa disposição não são nossos, são objetos que nos chegam do passado e que nós temos que legar para o futuro em função da relevância que hoje lhes atribuímos. E esse é um movimento que na minha opinião faz parte integrante da Função Social dos Museus.

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Sobre Pedro Pereira Leite

Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra onde desenvolve o projeto de investigação "Heranças Globais: a inclusão dos saberes das comunidades como instrumento de desenvolvimento integrado dos território".(2012-2107) . O projeto tem como objetivo observar a relevâncias no uso da memória social em quatro territórios ligados por processos sociais comuns. A investigação desenvolve-se em Portugal e Espanha, na zona da Fronteira; em Moçambique e no Brasil. (FCT:SHRH/BPD/76601/2011). É diretor de Casa Muss-amb-iki - espaço de Memórias. Intervém no âmbito de pesquisa de redes sociais de memoria.
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