O património Imaterial nos Andes de Aristóteles Barcelo Neto

No passado dia 6 de maio, num seminário com Aristóteles Bacelo Neto, na ULHT (Seminário de Doutoramento em Museologia) discutiu-se a questão o património imaterial nos Andes, a partir do seu trabalho de pesquisa.

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Como ponto de partida para o debate, suscita-se o visionamento de dois filmes do autor:

Semana Santa nos Andes e Danças para Mamacha Carmen

Aristóteles Barcelos Neto é autor de várias pesquisas sobre a Amazónia, brasileira e andina. Por por exemplo  Objetos de poder, pessoas de prestígio: a temporalidade biográfica dos rituais xinguanos e a cosmopolítica wauja .  Em Portugal foi publicada a sua obra A Arte dos sonhos, em 2002 pela Assírio e Alvim.

Neste seminário aborda a questão da Festa na Latino Aérica e a sua relação com os processos patrimoniais, em particular os que  estão previstos na Convenção da UNESCO para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial.

Sempre tive uma relação distante com esta convenção. Parte dessas razões estão apresentadas em Processos Patrimoniais Africanos. no entanto a abordagem de Aristóteles Barcelos Neto levantou algumas leituras, que a partir da sua pesquisa americana, que se revelam interessantes e nos suscitam algumas reflexões:

Notamos, por exemplo a sua abordagem sobre os processos de afirmação dos movimentos globais após o colapso do comunismo soviético. O realinhamento da geocultura global, seja dos movimentos sociais anti-globalização (Ecologia, património, lgbts), sejam dos movimentos económicos da globalização (capitalismo liberal), sejam ainda os sincretismos religiosos, sejam de base católica ou pentecostal, são responsáveis por novos realinhamentos mundiais.

É nesse campo que os processos de patrimonialização do imaterial se inserem, com uso dos seus instrumentos ( (a) tradições e expressões orais, incluindo a língua como vector do património cultural imaterial; (b) artes do espectáculo; (c) práticas sociais, rituais e actos festivos; (d) conhecimentos e usos relacionados com a natureza e o universo; (e) técnicas artesanais tradicionais. ) que com base na sua salvaguarda (as medidas que visam assegurar a viabilidade do património cultural imaterial, incluindo a identificação, documentação, investigação, preservação, protecção, promoção, valorização, transmissão – essencialmente pela educação formal e não formal – e revitalização dos diversos aspectos deste património) a serviram para afirmação de praticas de identidade e memória.WP_20160506_10_05_22_Pro

Argumenta Aristóteles que estes instrumentos de salvaguarda do património estão a ser usados pelas autoridades peruanas para afirmar as manifestações do sincretismo religioso. Afirmações que já não se constituem como uma especificidade “nacional” para sim como uma diversidade de uma unidade.

As religiões pentacostais, em expansão na América do Sul, rejeitam a festa e a exuberância do turismo, recomendando uma vida  austera, de recolhimento. Estas religiões, abertas estão em confronto com as religiões híbridas onde o sincretismo religioso se manifesta através de manifestções coletivas

As manifestações do património imaterial na Amazónia andina, no Peru e Bolívia é maioritariamente feito a partir das expressões indígenas feitas a partir da religião católica.

As redes sociais, ampliaram os movimentos da afirmação global, tanto dos movimentos pentacostais, tanto os movimentos da “diversidade” católica. O que acontece com estas manifestões andina, é que o Estado apoia a implantação da memória do tempo longo andino.

A contestação da festa pelos pentecostalista é feita com base na rejeição dos ciclos da vida, para a afirmação da linearidade  do recolhimento.

As redes sociais ampliam a percepção dos movimentos globais. O exemplo do Perú demonstra que o Estado é hoje um instrumento de proteção das instituições religiosas locais. O que se passa no Perú, em torno do património imaterial, é a expressão dum confronto global entre dois movimentos religiosos globais (católico e pentacostal).WP_20160506_10_05_26_Pro

A tese de Aristóteles é de que o património imaterial é uma expressão duma guerra religiosa. Tal como o movimento negro, o movimento indígena afirma a sua identidade neste campo de tensão. No Perú, segundo os dados recolhidos por Aristóteles, verifica-se que há cerca de 199 manifestações religiosas classificadas. nessas manifestações, o que é classificado são sobretudos as festas religiosas e os rituais. A resistência dos pentacostais opõe-se à luz do momento, contrapondo a vida eterna. A intensidade do momento versus a eternidade são dois projetos religiosos, globais em confronto.WP_20160506_10_32_18_Pro

A cultura ameríndia tem sofrido com o estigma da herança campesia e indígena. O ativismo patrimonial é uma expressão identitária.

A essência da antropologia é o parentesco. As relações sociais. A antropologia visual é um campo de heresia na antropologia. O engesamento do objeto +e uma expressão dos limites da capacidade de leitura. O que é relevante, para os filme que autor produz, a a possibilidade de mostrar as sequências possíveis. a partir das sequência possíveis é construída a narrativa. as imagens possíveis são alvo de uma análise de discursos. no discursos procura-se o adensamento simbólico.

Procura-se interrogar quais as narrativas estão a surgir. mostram-se contrastes com “historinhas” onde são apresentadas as várias narrativas. Podem ser feitos filmes etnográficos para museu, para saula de aula, para festival. O posicionamento do autor é o de que os objetos não falam. Mas eles transportam campos  simbólicos que mostram um agenciamento. a relação que cada um tem com os obejtos é uma expressão do agenciamento.  Há que procurar fugir da apoteose da classificação e procurar o cosmopolitismo. Saber como as pessoas se ocupam e interpretam as coisas que são importantes, O Real como cosmopolitismo do reconhecimento da pluralidade. O objeto de culto como imanentes do reconhecimento da diversidade. Através dos festivais de cultura indígena estão a produzir-se novos cruzamentos de cosmopolitismo.WP_20160506_12_53_42_Pro

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Sobre Pedro Pereira Leite

Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra onde desenvolve o projeto de investigação "Heranças Globais: a inclusão dos saberes das comunidades como instrumento de desenvolvimento integrado dos território".(2012-2107) . O projeto tem como objetivo observar a relevâncias no uso da memória social em quatro territórios ligados por processos sociais comuns. A investigação desenvolve-se em Portugal e Espanha, na zona da Fronteira; em Moçambique e no Brasil. (FCT:SHRH/BPD/76601/2011). É diretor de Casa Muss-amb-iki - espaço de Memórias. Intervém no âmbito de pesquisa de redes sociais de memoria.
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Uma resposta para O património Imaterial nos Andes de Aristóteles Barcelo Neto

  1. Rosalina Mota disse:

    O património cultural da cultura dos Andes, transporta campos simbólicos e a relação que cada um tem com os objetos. O objeto de culto é importante para a cultura andina, através dos festivais de cultura indígena produzem a animação e a socialização.

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