A Prece de Marcel Mauss

Fonte EA – Alice Haibara e Maria Izabel Zanzotti de Oliveira

A Prece (1909) é um fragmento da tese de doutorado inacabada do antropólogo francês Marcel Mauss (1872-1950), na qual ele argumenta que o fenômeno constitui um dos elementos centrais da vida religiosa, de maneira que uma análise da evolução das formas da oração permitiria demonstrar o processo de evolução da religião em geral.

O estudo da prece, nos termos do autor, segue uma metodologia de tipo histórico-genético, em que a análise se inicia a partir de formas consideradas mais elementares, para chegar até formas ditas mais complexas. O objetivo é mostrar como as segundas surgiram a partir das primeiras, descrevendo a ordem de sua gênese por meio de uma sucessão histórica. Ao apresentar a metodologia proposta, Mauss faz uma comparação com outra possibilidade metodológica, de tipo esquemático, utilizada anteriormente com Henri Hubert (1872-1927) no ensaio Sobre a natureza e a função do sacrifício (1899), e defende que os dois métodos são igualmente válidos. No entanto, em A Prece ele opta pelo primeiro tipo, considerado mais adequado ao seu objetivo, que é estudar as origens da prece e seus processos de evolução a partir da análise do material etnográfico de sociedades australianas, consideradas então as mais primitivas. Tratar de evolução não significa explicar o complexo pelo simples, diz ele, já que as formas rudimentares não são mais simples do que as formas tidas como mais complexas; trata-se, isto sim, de complexidades diferentes.

A prece, neste ensaio, é considerada um fenômeno religioso, ou mesmo o fragmento de uma religião, sendo esta definida como um sistema de crenças e práticas coletivas dirigidas a seres sagrados reconhecidos pela tradição. Portanto, ao considerar a prece como narrativa religiosa, produto do esforço acumulado dos homens e gerações, o autor afirma que ela é antes de tudo um fenômeno social, pois mesmo quando o crente seleciona a seu modo os termos da oração, naquilo que diz ou pensa, nada mais faz do que recorrer a frases consagradas pela tradição. A prece é social não só devido ao conteúdo, mas também à forma, uma vez que ela não existe fora do ritual. Nesse sentido, o autor argumenta que não é na prece individual que está o princípio da oração coletiva; ao contrário, é no caráter coletivo que se encontra o princípio da oração individual. Embora não recuse a oposição indivíduo/sociedade, cara à escola sociológica francesa, o autor mostra que a prece associa as duas dimensões: sendo um fenômeno social, ela é também, e em certo grau, um fenômeno individual, pois cada indivíduo escolhe o momento em que reza e, no limite, cria a sua prece.

Situando o conceito em relação a outros, previamente definidos, Mauss classifica-o como rito, na medida em que a prece é, segundo ele, ato tradicional. A noção de rito, por sua vez, é categorizada a partir da distinção entre ritos mágicos e religiosos. Os ritos mágicos são geralmente realizados por feiticeiros e possuem eficácia por si sós; são ainda de tipo determinista, uma vez que seus efeitos são imediatos. Já os religiosos costumam ser realizados por sacerdotes, reivindicando a ação de seres sagrados; sua eficácia é, portanto, contingente com relação à intervenção divina. O autor define a prece como um ritual religioso distinto dos encantamentos mágicos, na medida em que busca a intervenção de forças sagradas em um determinado contexto, enquanto o encantamento, possuindo caráter mágico, tem eficácia imediata. Mas tal diferenciação não é rígida e definitiva: de acordo com os exemplos etnográficos apresentados, há uma gama de variações e graus de transição entre ritos mágicos e religiosos, entre encantamentos e preces. O autor distingue ainda os ritos religiosos em manuais e orais: os primeiros consistem no uso das expressões corporais e deslocamento de objetos; os segundos são locuções rituais.

Ao conceber a palavra como ato que produz efeito, e que visa uma determinada finalidade, o ensaio de Mauss é precursor ao trazer ideia de que o ritual pode ser pensado a partir da linguagem, considerada como portadora de eficácia. A prece associa assim ação e pensamento, uma vez que participa ao mesmo tempo da natureza do rito e da natureza da crença: rito, pois é ato realizado tendo em vista coisas sagradas; crença, na medida em que toda oração exprime um mínimo de ideias e sentimentos religiosos. Por meio da prece o autor observa, então, a relação entre rito e mito, afirmando que o rito contém crenças específicas que o orientam e que lhe conferem legitimidade, enquanto que o mito somente adquire sentido na prática através dos rituais.

Dentre os diversos rendimentos teóricos que a análise maussiana da prece oferece, é central a sugestão do autor de que é possível por meio deste fenômeno, associar, sem recusar, diferentes oposições como mito/rito, ação/pensamento e sociedade/indivíduo. Mesmo inacabada, A Prece é um ensaio de caráter programático em que Mauss lança diversas contribuições para os estudos voltados à teoria do ritual e da linguagem.

PALAVRAS CHAVE

açãocomparaçãoreligiãoritualmitoFrança

BIBLIOGRAFIA

CABRAL, João de Pina, “A Prece Revisitada: comemorando a obra inacabada de Marcel Mauss”, Religião e sociedade, vol. 29, n. 2, Rio de Janeiro, 2009, p. 13-28

Mauss, Marcel, La Prière, Paris, Félix Alcan Editor, 1909 (Trad. Bras. Luiz João Gaio e Jacob Ginzburg. São Paulo, Perspectiva, 2001)

MAUSS, Marcel & HUBERT, Henri, “Essai sur la nature et la fonction du sacrifice”, Année Sociologique, v. 2, 1899  (Trad. Bras. Paulo Neves. São Paulo, Cosac Naify, 2005)

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Navem da Nova Guiné

Fonte EA – Eduardo Santos Gonçalves Monteiro e Rodrigo Rossi Mora Brusco

 Publicada originalmente em 1936, Naven: um esboço dos problemas sugeridos por um retrato compósito, realizado a partir de três perspectivas da cultura de uma tribo da Nova Guiné é uma obra baseada no trabalho de campo que Gregory Bateson (1904-1980) realizou entre os Iatmul (povo das terras baixas do rio Sepik, Nova Guiné), ao longo de 1929 e 1932. Uma das principais contribuições da obra é fazer do comportamento ritual o centro da investigação antropológica.

A monografia focaliza as atitudes observadas durante o ritual nativo naven, analisando-as a partir de diferentes pontos de vista científicos, parciais mas complementares entre si. A cerimônia que dá título ao livro ocorre para comemorar realizações culturalmente valorizadas de um jovem iatmul. Sua principal figura é o tio materno (wau) que, em clima de bufonaria, “traveste-se” em “repugnantes” (velhas, sujas) roupas femininas. Nesse contexto, procura seu sobrinho (laua) e, ao encontrá-lo, o embaraça com uma “saudação sexual”: esfrega suas nádegas na canela do laua, o qual deve dar objetos de valor para que o wau “fique bom”. Ainda que este “travestismo” se irradie com modos e intensidades variadas entre diversos parentes ligados ao laua, e que o naven não se limite à relação entre laua wau (o que não passa despercebido por Bateson)é aí que reside o centro e parte mais significativa da cerimônia, seu ponto de partida e foco de sua análise.

As escolhas metodológicas e o modo de exposição dos problemas nesta obra – primeira e única monografia escrita por Bateson – fazem ressoar as múltiplas facetas de seu percurso intelectual. Em Naven, a relação do autor com o estrutural-funcionalismo, por meio do qual ele trava o seu contato inicial com a antropologia, é marcadamente heterodoxa: ainda que lide com questões relativas à integração social no livro – caras à tradição britânica na qual se forma – enfatiza ser insuficiente, do ponto de vista explicativo, tomá-las isoladamente. Nesse sentido, busca em outros campos disciplinares (como a psiquiatria) e tradições antropológicas (como a norte-americana) instrumentais analíticos que permitam observar novos aspectos do fenômeno cultural. Por um lado, através do exame do que denomina eidos iatmul, Bateson explicita modos de pensamento culturalmente padronizados, premissas e operações de identificação relevantes para o “comportamento naven” do wau, inspirando-se no trabalho seminal de Radcliffe-Brown (1881-1955) sobre o irmão da mãe na África do Sul. Por outro lado, observa expressões características da emoção iatmul, de seu ethos, e o valor específico a elas atribuído durante a cerimônia, o que mostra como a análise do naven encontra-se repartida em um ponto de vista sociológico, um eidológico-cognitivo e outro etológico-afetivo. Apesar da separação meticulosa dos planos de análise, Bateson esclarece que o material sobre o qual se baseia o estudo é o mesmo, concluindo, no balanço autocrítico efetuado nos epílogos das edições de 1936 e de 1958, que as perspectivas adotadas são apenas maneiras pelas quais os cientistas organizam a sua descrição, e que, portanto, nem o ethos, o eidos ou a estrutura social têm uma existência independente da explicação científica. Por essa razão, Bateson considera que Naven é principalmente um “estudo sobre a natureza da explicação”, através do qual se deduz a impossibilidade de totalização explicativa do fenômeno trabalhado, já que sempre haverá resíduos e impurezas que escapam a qualquer tentativa de análise.

Se a investigação é construída a partir de planos heterogêneos, há um fenômeno que os atravessa: a cismogênese, que Bateson define como “criação da separação”. Formulada para demonstrar o potencial disjuntivo da relação entre as diferentes ênfases emocionais atribuídas a cada sexo (derivada da análise do ethos), a cismogênese também foi notada na descrição dos padrões de fissão da estrutura social iatmul (perceptíveis pelo prisma sociológico) e nos modos de operação dos dois tipos de dualismo encontrados no pensamento iatmul (que se mostram pelo exame do eidos). A ligação entre as análises afetiva e cognitiva, tornada possível pela persistência da cismogênese, faz com que Bateson proponha uma relação entre estímulos e reações para compreender como ethos eidos são inculcados no indivíduo. Tal discussão expressa o interesse do autor nos processos de aprendizagem, intimamente ligados às suas reflexões posteriores sobre teoria da comunicação e cibernética.

Gregory Bateson e Margaret Mead trabalhando, Tambunam, foto por Gregory Bateson, 1938. Seção de Manuscritos, Biblioteca do Congresso dos EUA (211b).

GREGORY BATESON E MARGARET MEAD TRABALHANDO, TAMBUNAM, FOTO POR GREGORY BATESON, 1938. SEÇÃO DE MANUSCRITOS, BIBLIOTECA DO CONGRESSO DOS EUA (211B).

Naven não foi uma obra recebida com destaque pelo establishment antropológico de sua época; recentemente, contudo, o livro tem fornecido grandes inspirações para a antropologia, lembremos a importância do conceito de cismogênese para a antropologia de Roy Wagner (1938), como mostra o seu A invenção da cultura (1975); a influência da descrição dos ethos sexuais iatmul para as análises do gênero na Melanésia, realizadas por Marilyn Strathern (1941) em O gênero da dádiva (1988) e a relevância do naven para a análise do ritual proposta por Michael Houseman e Carlo Severi, em 1994. Como se vê, uma obra que forneceu potências renovadoras ao pensamento antropológico ao longo das últimas décadas.

Eduardo Santos Gonçalves Monteiro e Rodrigo Rossi Mora Brusco

PALAVRAS CHAVE

Reino UnidoMelanésiaritualgrupo social

BIBLIOGRAFIA

BATESON, Gregory, “Social structure of the Iatmul people of the Sepik River”, Oceania, v. 2, n. 3, Sidney, 1932, p. 245-291

BATESON, Gregory, Naven: a survey of the problems suggested by a composite picture of the culture of a New Guinea tribe drawn from three points of view (1936), Stanford, Stanford University Press, 1958 (Trad. Bras. Magda Lopes. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 2008)

BATESON, Gregory, Steps to an ecology of mind. Chicago, Chicago University Press, 1972

BENEDICT, Ruth, Patterns of culture,Boston e Nova Iorque, Houghton Mifflin Company 1934 (Trad. Bras. César Tozzi. São Paulo, Perspectiva, 1988)

GEIGER, Amir, “Introdução” In: Gregory Bateson, Naven: um esboço dos problemas sugeridos por um retrato compósito, realizado a partir de três perspectivas da cultura de uma tribo da Nova Guiné. Trad. Bras. Magda Lopes. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 2008

HOUSEMAN, Michael & SEVERI, Carlo,  Naven ou le donner à voir. Essai d’interpretation de la action rituelle, Paris, CNRS Édition/Éd. de la Maison des sciences de l’homme, 1994

LIPSET, David, Gregory Bateson. The legacy of a scientist, Boston, Beacon Press, 1982

LIPSET, David, “O que faz um homem? Relendo Naven e The Gender of the Gift”, Cadernos Pagu, n. 33, Campinas, 2009, p. 57-81

MEAD, Margaret, Sex and Temperament in three primitive societies, New York, W. Morrow & Company, 1935 (Trad. Bras. Rosa Krausz, São Paulo, Editora Perspectiva, 2015)

RADCLIFFE-BROWN, Alfred Reginald, “The mother’s brother in South Africa” South African Journal of Science, v. XXI, Pretoria, 1926, p. 542-555

RADCLIFFE-BROWN, Alfred Reginald, “On social structure”, The Journal of the Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland, v. 1, Londres, 1940, p. 1-12

STRATHERN, Marilyn, The gender of the gift. Problems with women and problems with society in Melanesia, Cambridge, Cambridge University Press, 1988 (Trad. Bras. André Villalobos. Campinas, Editora da Universidade de Campinas, 2006)

WAGNER, Roy, The invention of culture (1975), Chicago, The University of Chicago Press, 1981 (Trad. Bras. Marcela Coelho de Souza e Alexandre Morales. São Paulo, Cosac Naify, 2010)

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A Religião Nuer de Evans-Pritchard

Fonte EA –  Aline Aranha, Gabriela Freire e Hélio Menezes

Nuer Religion (1956) faz parte da trilogia escrita pelo antropólogo britânico Edward Evan Evans-Pritchard (1902-1973) sobre os Nuer, povo que vivia, na época do trabalho de campo do autor, entre 1930 e 1936, às margens do rio Nilo, ao sul da então colônia britânica do Sudão. As incursões do antropólogo às terras nuer resultaram nas obras Os Nuer: uma descrição do modo de subsistência e das instituições políticas de um povo nilota (1940), Kinship and marriage among the Nuer (1951) e Nuer religion (1956)monografias consideradas clássicas que refletem acerca da política, da ecologia, do parentesco e da filosofia religiosa nuer. Nesta última obra, o antropólogo lança mão de noções ocidentais, como Deus e pecado, para desconstruí-las, delineando novas categorias a partir de termos e concepções dos próprios Nuer. Evans-Pritchard adota, assim, uma nova perspectiva sobre a religião, propondo uma maneira renovada de fazer e pensar o trabalho de campo e a própria Antropologia.

A ordenação do livro segue o traço fundamental do pensamento religioso nuer que é, segundo o autor, “eminentemente dualista”, realizando-se a partir de uma série de oposições, como céu/terra, alto/baixo e Deus/humanos. O antropólogo parte da noção mais importante da filosofia religiosa nuer, kwoth (espírito), em direção às demais noções que dela derivam, kuth nhial (espíritos de cima) e kuth piny (espíritos de baixo), para então analisar as relações entre religião e ordem social, símbolos e ritos religiosos nuer, em especial o sacrifício, bem como algumas de suas personagens. O capítulo que encerra o volume reúne reflexões teóricas mais amplas acerca da religião nuer, em uma perspectiva comparativa em relação a outros sistemas de pensamento religioso africanos e às proposições escritas por antropólogos que o precederam no estudo das religiões ditas primitivas.

A noção de kwoth é a peça central para o entendimento da filosofia religiosa nuer, descrita por Evans-Pritchard como a relação entre humanos e kwoth, que pode ser entendido como o espírito criador do mundo e da sociedade e, ao mesmo tempo, como um conjunto de diversas manifestações, que podem assumir diferentes significados de acordo com cada contexto:  são modos de “Deus”, e não sua própria essência, que é só Espírito. Tal concepção revela a dualidade material-imaterial presente na filosofia religiosa nuer e a escolha nativa em manter a separação entre as categorias espirituais e as coisas materiais. Kwoth é, então, uma noção que se desenvolve em uma dimensão estrutural, relacionando-se aos processos de fusão e fissão característicos dos sistemas políticos e de parentesco nuer: da mesma forma que os Nuer se reconhecem como uma nação e se dividem em tribos, aldeias, unidades domésticas e indivíduos, kwoth é, ao mesmo tempo, um em sua natureza e múltiplo em suas diferentes representações sociais, estabelecendo relações com cada seção da estrutura segmentar nuer. As refrações de kwoth podem se relacionar a uma variedade de grupos sociais e se manifestar de distintos modos e em diferentes graus, sem que ele deixe de ser considerado o guardião de todos os grupos. Assim, mostra o autor, a noção nuer de kwothpode ser considerada, como a teoria nuer dos acontecimentos.

Evans-Pritchard descreve e interpreta a religião nuer como um sistema de ideias essencialmente interior, embora externalizado por meio de ações (resguardos e orações), e envolva personagens (os sacerdotes, kuaar e os profetas, gwan kwoth), cuja aparição e importância, recente entre os Nuer, se relaciona às políticas colonialistas inglesas da época. A própria noção de “pecado” (thec) é vista como consequência de faltas cometidas pelos humanos, sem contudo afetar a qualidade moral dos indivíduos; ela se refere apenas à condição espiritual, isto é, à relação pessoal com o Espírito. O bem e o mal, nesse sentido, ganham contornos muito diferentes dos que possuem no interior da moralidade cristã ocidental. Aos olhos do antropólogo, seria inapropriado pensar a religião nuer como um espelhamento da sociedade,  reduzindo-a a seus ritos, argumento que está na origem das críticas que empreende a Émile Durkheim (1858-1917) e a Marcel Mauss (1872-1950). Do mesmo modo, o pesquisador britânico tece duras críticas ao conceito de “índole pré-lógica” desenvolvido por Lucien Lévy-Bruhl (1857-1939), demonstrando que a lógica nuer não confunde relações ideais com as consideradas reais, e que construções nuer como “um pepino é um boi” não são da ordem da identidade, mas da analogia. É interessante notar que a mesma questão é enfrentada também em seu estudo Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande (1937).

A obra de Evans-Pritchard convida a considerar a religião nuer como um modo de pensar a relação do homem consigo mesmo e deste com os espíritos-forças, além permitir pensar a natureza polimorfa e polissêmica do Espírito. Sua análise, em diálogo com a filosofia nuer, impõe a revisão da dimensão social dos conceitos de ordem religiosa, assim como a dimensão espiritual da estrutura social.

PALAVRAS CHAVE

estruturaetnografialógicareligiãoÁfricaReino Unido

BIBLIOGRAFIA

EVANS-PRITCHARD, E. E., Oracles, witchcraft and magic among the Azande. Oxford, Claredon Press, 1937 (Trad. Bras. Eduardo Viveiros de Castro. Rio de Janeiro, Zahar editores, 2005, 2a ed.)

EVANS-PRITCHARD, E. E., The Nuer: a description of the modes of livelihood and political institutions among the Nuer. Oxford, Claredon Press, 1940 (Trad. Bras. Ana M. Goldberger Coelho. São Paulo, Editora Perspectiva, 1978)

EVANS-PRITCHARD, E. E., Kinship and marriage among the Nuer. Oxford, Claredon Press, 1951.

EVANS-PRITCHARD, E. E., “The Nuer Conception of Spirit in Its Relation to the Social Order”, American Anthropologist, n.s., Vol. 55, No. 2, 1951, p. 112-121

EVANS-PRITCHARD, E. E. , “Some features of Nuer religion”, The Journal of the Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland v. 81, 1951, p. 1-13

EVANS-PRITCHARD, E. E.,  “A problem of Nuer religion”, Sociologus 4, 1954, p. 23-41

EVANS-PRITCHARD, E. E., “The meaning of sacrifice among the Nuer” in The Journal of the Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland v. 84, 1954, p. 21-33

EVANS-PRITCHARD, E. E., Nuer religion. Oxford, Oxford University Press, 1956

EVANS-PRITCHARD, E. E., Theories of primitive religion. Oxford: Oxford University Press, 1965

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Museu Paulista

Fonte EA  – Adriana de Oliveira Silva e Thaís Chang Waldman

Sediado em um edifício que foi erguido às margens do Ipiranga para celebrar a independência do Brasil, o Museu Paulista (MP), popularmente conhecido como Museu do Ipiranga, é o primeiro museu público fundado no estado de São Paulo e o maior monumento erguido em São Paulo durante o Império. Construído pelo engenheiro e arquiteto Tommaso Gaudenzio Bezzi (1844-1915), o Monumento do Ipiranga foi inaugurado em 1893, já durante a República. Dois anos depois, o museu seria instalado no interior do edifício-monumento.

Monumento do Ipiranga, Luiz Carlos Peixoto, 1893. Wikimedia Commons.

MONUMENTO DO IPIRANGA, LUIZ CARLOS PEIXOTO, 1893. WIKIMEDIA COMMONS.

Seu acervo inicial foi composto pela tela Independência ou Morte (1888), de Pedro Américo (1843-1905), e por uma antiga coleção particular, o chamado Museu Sertório. As autoridades republicanas decidem, entretanto, dedicá-lo principalmente à aquisição de coleções de história natural da América do Sul, não por acaso o médico e naturalista alemão Hermann von Ihering (1850-1930) é escolhido como primeiro diretor do MP, permanecendo no cargo entre 1895 e 1916. Embora durante os 21 anos da gestão de von Ihering a instituição tenha desempenhado, sobretudo, a função de museu de história natural, nela também são aceitas doações de pinturas históricas, tais como a obra Fundação de São Vicente(1900), de Benedito Calixto (1853-1927), adquirida pelo governo do estado. Além disso, muitas obras de arte são também adquiridas para que se formasse no MP uma galeria artística, voltada à pintura. Em 1917, Afonso Taunay (1876-1958), atuante membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP), é designado pelo governo paulista para a direção da casa e recebe a missão de transformá-la também em um museu voltado à história do Brasil e, mais especificamente, à história de São Paulo, visando às comemorações do Centenário da Independência.

Engenheiro, proveniente de uma família de artistas e interessado nos estudos históricos, Taunay, ao longo dos 29 anos de sua gestão, organiza a seção histórica do museu de modo a conduzir os visitantes por um percurso expositivo que propõe uma narrativa sobre a emergência da nação brasileira como uma história protagonizada pelos paulistas. Neste percurso, os visitantes são recebidos no saguão de entrada pelas figuras dos bandeirantes Fernão Dias e Raposo Tavares, esculpidos em mármore por Luigi Brizzolara (1868-1937). Esses dois monumentais bandeirantes e as telas alusivas ao início da capitania de São Vicente, concluídas já na década de 1930, constituem o início de um trajeto visual que se prolonga pela escadaria, no qual são aludidos a formação econômica e territorial do Brasil por meio de esculturas de bandeirantes e pinturas dos “ciclos históricos”, e se encerra no primeiro andar, no chamado salão nobre, onde os visitantes se veem diante da cena histórica do grito de D. Pedro I representada em Independência ou Morte. Para aumentar o espaço destinado à exposição dessa narrativa histórica, é criado em 1921 o Museu Republicano em Itu, uma extensão do Museu Paulista no interior do estado. Anos depois, ainda durante a gestão de Taunay, em 1939, é projetado o atual Museu de Zoologia (MZ) da Universidade de São Paulo (USP), para onde é transferida parte do acervo de zoologia.

Taunay é também o responsável pela criação de uma seção de etnografia, antes inexistente no museu. Já em 1946, o historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), ao suceder a Taunay na diretoria da instituição, cria uma seção de etnologia, chefiada pelo etnólogo alemão Herbert Baldus (1899-1970), acentuando assim a atuação do MP como um importante centro de pesquisas e divulgação da antropologia no Brasil. Além de montar exposições sobre as culturas indígenas sul-americanas e conduzir explorações etnográficas por diversas regiões brasileiras, a direção do MP se destaca pela produção e veiculação de um grande número de textos antropológicos escritos por pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Em 1989, a quase totalidade desse acervo etnológico é transferida para o Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP.

Uma série de desmembramentos marca, portanto, a trajetória do Museu Paulista desde 1905, com a transferência de muitas pinturas do seu acervo – como A Partida da Monção (1897), de Almeida Júnior (1850-1899) – para compor a coleção inicial da Pinacoteca do Estado. Essa trajetória, não foi, entretanto, linear. A tela Fundação de São Paulo, de Oscar Pereira da Silva (1867-1939), comprada para a Pinacoteca, foi transferida para o MP em 1929, ocasião em que A Partida da Monção foi recuperada por Taunay para integrar uma sala, no próprio MP, dedicada às monções, tomadas como o último ciclo bandeirante. A incorporação plena do Museu Paulista à USP ocorre em 1963, durante a gestão de Mário Neme (1912-1973), embora o decreto federal que criou a USP já tivesse estabelecido, em 1934, a incorporação do museu como instituição complementar, para ampliar o escopo da ação e do ensino universitários. Muitos professores da USP irão se suceder na direção do MP; um deles é Ulpiano Bezerra de Meneses (1936), responsável pela formulação do Plano Diretor de 1990, que define a área institucional do museu, após esses desmembramentos, como um museu exclusivamente de história, voltado à problematização da cultura material como documento para a interpretação do passado.

O Museu Paulista possui hoje mais de 125 mil itens, constituídos por iconografia, mobiliário, objetos e documentação textual do século XVII até meados do século XX. Seu acervo tem sido ampliado continuamente, principalmente no que se refere a São Paulo do período de 1850 a 1950. Embora seja um dos museus mais visitados da cidade, ele está fechado para reforma desde 2013, visando seu restauro e a ampliação de sua área para garantir a acessibilidade. A previsão é que seja reaberto apenas em 2022, não à toa durante as comemorações do bicentenário da Independência do Brasil.

PALAVRAS CHAVE

Brasilmuseu

BIBLIOGRAFIA

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TAUNAY, Afonso, Guia da secção histórica do Museu Paulista, São Paulo, Imprensa Oficial do Estado, 1937

WITTER, José Sebastião; BARBUY, Heloisa (org.). Um monumento no Ipiranga: história de um edifício centenário e sua recuperação. São Paulo: FIESP/CIESP/SESI/SENAI/IRS, 1997

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Moeda em Marcel Mauss

Fonte EA –  Camila Galan de Paula

 O termo moeda foi usado pelo antropólogo francês Marcel Mauss (1872-1950) de forma menos restrita do que fora empregado antes por Bronislaw Malinowski (1884-1942) e F. Simiand (1873-1935). Para Malinowski, a designação indica não apenas objetos visando a troca, mas aqueles que permitem aferir valor. Para Mauss, por sua vez, o valor econômico só tem lugar com a “moeda propriamente dita”, quando as riquezas são condensadas e os signos de riqueza “impessoalizados”, isto é, separados das pessoas morais, sejam elas coletivas ou individuais. Nos escritos sobre o tema, Mauss propõe estender a noção de moeda – que pode assumir a forma de objetos variados – para além da nossa, a única, segundo ele, a preencher os critérios de uma definição estrita do termo.

O cerne de seus argumentos recai sobre algumas teses básicas. Em primeiro lugar, diz ele, todas as sociedades possuem coisas que servem como meio de troca e pagamento, cuja função é a de moeda; possuem poder de compra público e oficial, calculado em números. Quanto ao poder de compra, defende, a moeda não é fato material ou físico, mas fato social, cujo valor corresponde à sua capacidade de adquirir bens e à confiança nela depositada. Em relação ao cálculo do poder de compra, ele não é necessariamente estável, como no caso da nossa moeda. O valor das outras moedas, que não é somente econômico, mas também mágico, aumenta com as trocas: quanto mais tais objetos circulam, mais valor adquirem.

Nos ensaios que escreveu sobre o tema, Les origines de la notion de monnaie (1914), Débats sur les fonctions de la monnaie (1934) e em nota no Ensaio sobre a dádiva (1923-24), Mauss apresenta três fases pelas quais passou a noção de moeda, até chegar à que hoje conhecemos. A forma mais elementar decorre da percepção de que há coisas mágicas e preciosas que não se deterioram com o uso, e que adquirem poder de compra. A segunda fase corresponde ao momento no qual esses instrumentos de compra passam a servir como meio de contagem e circulação de riquezas. Este seria o estágio no qual se encontram as sociedades da Polinésia, da Melanésia e do Noroeste americano, cujos sistemas de troca o autor analisa no Ensaio sobre a dádiva. Nas duas primeiras fases, o valor econômico da moeda não se separa de seu valor mágico, de talismã; a posse desses objetos confere ao seu detentor poder de comando e prestígio, que se converte em poder de compra. Além disso, tais coisas preciosas são percebidas como separadas de outros objetos de uso; a moeda é valor de uso permanente e transmissível, que atua como objeto nas transações sem se deteriorar, podendo ser o veículo para a obtenção de outros valores.

Cinto iroquês wampun - Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade da Pensilvânia

CINTO IROQUÊS WAMPUN – MUSEU DE ARQUEOLOGIA E ANTROPOLOGIA DA UNIVERSIDADE DA PENSILVÂNIA

De modo a desenvolver sua reflexão, o autor se apoia em casos etnográficos retirados das ilhas Trobriand, nas quais as moedas chamam-se vaygu’a, dividindo-se em mwali(braceletes usados em ocasiões cerimoniais) e soulava (colares usados ritualmente pelas mulheres); da Samoa e Nova Zelândia (onde a moeda chama-se taonga e consiste em esteiras herdadas pelas jovens por ocasião do casamento, e também nos talismãs que passam a integrar a família por meio das mulheres); da Nova Guiné e em Papua (o tau-tau); das ilhas Bank (o rongo) e de Fiji (tambua, peças feitas de dentes de cachalote). Entre os iroqueses, na América do Norte, têm-se os wampun. No noroeste americano, por sua vez, os objetos que servem de meio de troca (dentre os quais os cobres brasonados e as conchas de abalone) são denominados logwa, termo que significa talismã e que, como os vaygu’a trobriandeses, são veículos de mana, o que leva à inseparabilidade dos valores mágico e econômico. Outros casos etnográficos explorados dizem respeito a algumas sociedades africanas e asiáticas, em que objetos de usos, como placas de cobre e ferro, servem como moeda; ou o gado, em certas sociedades da África; o ainda sal, na África saariana. Em todos esses exemplos, aquele que troca e a coisa trocada não se encontram jamais completamente separados. É com o afastamento das coisas e dos grupos humanos, e com a noção de preço, que Mauss localiza a terceira fase de desenvolvimento da moeda, que corresponde à nossa, situando tal passagem possivelmente entre povos semitas e certamente entre os antigos gregos e romanos, com a separação entre a venda e a dádiva.

As considerações de Mauss sobre o dinheiro foram pouco retomadas pela literatura antropológica posterior, mesmo por autores que ressaltam a importância de seu trabalho para a antropologia econômica, como David Graeber (1961), Toward An Anthropological Theory of Value (2001). As propostas de Karl Polanyi (1886-1964) e de Paul Bohannan (1920-2007), The Impact of Money on an African Subsistence Economy (1959) sobre o dinheiro influenciaram as discussões posteriores sobre o tema na disciplina, mesmo em trabalhos que buscam superá-las, como indica ensaio bibliográfico recente de Bill Maurer sobre a antropologia do dinheiro The Anthropology of Money (2006).

PALAVRAS CHAVE

trocaeconomiaFrança

BIBLIOGRAFIA

BOHANNAN, Paul, “The Impact of Money on an African Subsistence Economy”, The Journal of Economic History, vol. 19, n. 4, 1959, p.491-503

GRAEBER, David, Toward an anthropological theory of value: the false coin of our own dream, New York, Palgrave, 2001

MAURER, Bill, “The Anthropology of Money”, Annual Review of Anthropology, vol. 35, n.1, 2006, p. 15-36

MAUSS, Marcel, “Les origines de la notion de monnaie” [1914] e “Débats sur les fonctions de la monnaie” [1934] In: Marcel Mauss, Œuvres (II): Représentations collectives et diversité des civilisations, Paris, Editions de Minuit, 1968-1969

MAUSS, Marcel, “Essai sur le don. Forme et raison de l’échange dans les sociétés archaïques”, Année Sociologique, 2a série [1923-24] (Trad. Bras. Paulo Neves. São Paulo, Cosac & Naify, 2003)

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Método de Marcel Mauss

Fonte EA – Olavo Souza Filho e Michelle Cirne

 Definir um método de trabalho maussiano é tarefa no mínimo arriscada, já que em seus artigos e ensaios Marcel Mauss (1872-1950) não se preocupou em estabelecer sínteses metodológicas. Suas observações sobre o método encontram-se espalhadas em diversas análises: sobre a dádiva, a prece, a magia, os sentimentos, o corpo, a nação, a civilização etc., além de presentes em notas de aula e em comunicações orais. Tal constatação não impede a localização de características marcantes do método maussiano, fundamentalmente: o caráter partilhado do trabalho sociológico e a defesa de que este deveria se basear em fatos sociais concretos.

O primeiro traço do método do antropólogo francês refere-se ao trabalho coletivo como prerrogativa para desenvolver o método comparativo; a única maneira de alcançar resultados analíticos sólidos, segundo ele, seria lançar mão do cotejo sistemático dos diversos trabalhos disponíveis, de modo que a comparação entre uma grande quantidade de fatos observáveis em diversas sociedades (tarefa “impossível para um homem só”, segundo ele) tenha lugar. O próprio progresso da disciplina, nos seus termos, seria fruto do trabalho conjunto de diferentes especialistas. A segunda marca desse método, por sua vez, pode ser observada na provocativa asserção contida em seu Manuel d’ethnographie (1926): “como positivista, creio somente nos fatos”, diz ele. Tal afirmativa encontra eco em sua recusa em propor modelos analíticos ou teorias que tendam ao plano abstrato; as teorias devem ancorar-se nos fatos e os modelos, resultantes do exercício comparativo. Além disso, só é possível obter vasto material empírico com a colaboração de diversas especialidades; no interior destas, a função do etnologia seria o registro, a análise profunda e a comparação exaustiva dos fatos, com a ajuda, se necessário, de conhecimentos estatísticos. O etnógrafo deve ter a preocupação em ser exato; ter o sentido dos fatos e das suas inter-relações, de suas proporções e, consequentemente, de suas articulações. O dado determina o plano de estudo assim como os métodos mais apropriados para compreendê-lo. Finalmente, o exame minucioso dos aspectos vida social não se esgota em sua observação no momento presente, exigindo a análise histórica dos fatos colocados em comparação, entendidos como fenômenos históricos. Esta exigência de análise, longe de produzir uma tipologia, resulta na dedicação maussiana em analisar o desenvolvimento histórico de certos fatos ou ideias.

É em seu Manuel d’ethnographie (1926) que Mauss elabora uma divisão metodológica para a análise dos fenômenos sociais, qual seja: 1. Morfologia Social: demografia, geografia humana, tecnomorfologia. 2. Fisiologia: técnicas, estética, economia, direito, religião, ciências. 3. Fenômenos Gerais: língua, fenômenos nacionais, fenômenos internacionais, etologia coletiva. Mais do que romper com a observação empírica, externa e objetiva dos fatos sociais, tal como proposta por Émile Durkheim (1858-1917), Marcel Mauss aprofundou-a, no sentido de entender os fenômenos sociais em si mesmos, comparando aquilo que pode ser comparado e partindo, sempre, dos fatos concretos.

Por suas contribuições teóricas e metodológicas, assim como pela originalidade de suas formulações, Mauss foi apontado como o precursor do estruturalismo, em função das relações que estabelece entre linguística e etnologia; do funcionalismo, por sua crítica ao evolucionismo e por sua preocupação em entender os fenômenos sociais a partir dos fatos concretos; e da fenomenologia, por conferir importância ao caráter subjetivo e as emoções, alçando-os a temas de estudo.

PALAVRAS CHAVE

Françacomparaçãoetnografia

BIBLIOGRAFIA

DUBAR, Claude,  « La méthode de Marcel Mauss », Revue Française de Sociologie, n. 10-4, 1969, p. 515-521

MAUSS, Marcel, Manuel d’ethnographie (cours donnés à l’Institut d’Ethnologie de l’Université de Paris, réunis par M. Leiris & D. Paulme), Paris, Payot, 1947 (Trad. Port., Lisboa,  Editorial Pórtico, 1972)

MAUSS, Marcel, “An intellectual self-portrait” In: Philippe Besnard (ed), The Sociological Domain: The Durkheimians and the Founding of French Sociology Cambridge, Cambridge University Press, 1983

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Método Genealógico

Fonte EA – Mariana Carolina Mandelli, Michel de Paula Soares e Raphael Piva Favalli Favero

O artigo “O método genealógico na pesquisa antropológica”, assinado por William H. R. Rivers (1864-1922), como indica o título, dedica-se à apresentação do método genealógico concebido por Rivers com auxílio de Alfred Cort Haddon (1855-1940), durante a expedição ao estreito de Torres (1898), cujo objetivo é fornecer uma base científica para a nova disciplina, pela sistematização de instrumental próprio para a análise antropológica. Sua primeira versão, “A genealogical method of collecting social and vital statistics”, é exposta à comunidade científica em 1900; após a experiência etnográfica de Rivers entre os Toda na Índia, o texto é republicado no The Genealogical Method of Anthropology Inquiry(1910).

O método consiste na coleta de genealogias reais de determinado povo com base em perguntas específicas feitas aos seus membros. Por meio delas, o pesquisador obteria um diagnóstico da organização social do grupo, possível porque, de acordo com Rivers, as sociedades tendem a conservar oralmente, e por diversas gerações, as suas genealogias. O método genealógico seria, portanto, a solução ideal para etnógrafos que dispõem de pouco tempo de permanência em campo, sem o domínio do idioma local ou auxílio de bons intérpretes. Seu uso mostra-se também eficaz por permitir o acesso, em um curto período, a informações objetivas e precisas acerca da filiação, aliança, residência, status, entre outras.

Em virtude das diferenças entre os sistemas de parentesco existentes, na aplicação do método e na formulação das questões, o antropólogo deveria utilizar um vocabulário limitado a poucas categorias: pai, mãe, filho, filha, esposo e esposa. Após obter os dados necessários nas linhas de descendência masculina e feminina, ao pesquisador caberia dispor as informações de forma gráfica –  grafando os nomes dos homens em letras maiúsculas e sempre à esquerda dos das mulheres, sendo estes redigidos em minúsculas. Outras informações deveriam ser destacadas de modo a que a identificação precisa de cada indivíduo seja possível, tais como: nome, idade, condição social, localidade de origem ou habitação; grupo ou clã, entre outros. A despeito de eventuais erros, Rivers defende a eficiência do método devido à possibilidade de testar a veracidade das informações a partir do entrecruzamento dos dados com base em três genealogias completas. Assim, segundo o autor, seria possível alcançar uma demonstração científica e, simultaneamente, retornar até um século na trajetória da sociedade em questão. Dentre suas aplicações estariam, além da obtenção do sistema de parentesco de um povo, o estudo de relações matrimoniais, já que se revelariam as leis que regem os casamentos, bem como regras de descendência, herança, propriedade, cargos de chefia, entre muitas outras. O método poderia ainda ser utilizado ainda para detalhar processos migratórios, práticas mágicas e religião, bem como para oferecer um amplo banco de dados censitários e estatísticos, revelando padrões. Seu uso na antropologia física foi também referenciado por Rivers.

OLIVEIRA, Roberto C. A Antropologia de Rivers, 1991

OLIVEIRA, ROBERTO C. A ANTROPOLOGIA DE RIVERS, 1991

Apesar de ser considerado o mais notório defensor do método genealógico, Rivers não foi o primeiro a fazer uso de genealogias em estudos antropológicos; o questionário de parentesco de Lewis Henry Morgan (1818-1881), publicado em Sistemas de Consanguinidade e Afinidade da Família Humana (1871), já apresentava um minucioso roteiro para a coleta de dados de parentesco. Se isso é verdade, a contribuição de Rivers foi criar uma ferramenta ágil, capaz de produzir, com precisão e rapidez, informações chave para os estudos de parentesco, a partir de uma genealogia considerada real, já que o informante seria capaz de fornecer com exatidão as classificações de seus parentes. No entanto, é preciso lembrar que tanto a obtenção das informações quanto a construção da genealogia, com base nos dados recolhidos, seguem os critérios classificatórios do pesquisador e não propriamente os dos informantes. Sua objetividade deriva, portanto, da tradução que o antropólogo realiza dos conceitos nativos.

O método genealógico pode ser apontado como um dos maiores subsídios metodológicos para os estudos de parentesco, considerado durante décadas como instrumento indispensável e mínimo do antropólogo em campo na coleta de informações. Foi retomado pelos estudos africanistas e adotado em diversas pesquisas da etnologia sul-americana, ainda que extensamente criticado por pesquisadores que apontaram as limitações do modelo, como David Schneider (1918-1995) e Mary Bouquet (1955-). No Brasil, o artigo de Rivers conheceu duas traduções: uma primeira, de 1969, a cargo de Roque de Barros Laraia (1932-) e outra de Roberto Cardoso de Oliveira (1928-2006), em 1991.

PALAVRAS CHAVE

método genealógicoparentescoetnografia

BIBLIOGRAFIA

LARAIA, Roque de Barros (org.), Organização Social, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1969

RIVERS, William H., “O método genealógico na pesquisa antropológica” In: CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto (Org.), A Antropologia de Rivers,Campinas, Editora da Unicamp, 1991, p. 51-67

SILVA, Márcio Ferreira, “1871: o ano que não terminou”, Cadernos de Campo, n. 19, São Paulo, PPGAS/USP, p. 323-336, 2010

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