Museus e Turismo

Conferencia MINOM 5 de agosto 2017, Monte Redondo [1]

Integrada na Museum ’17 Festum o Ecofestival realizado pelo Museu do Casal de Monte Redondo, entre 3 e 6 de agosto, a Conferência foi dinamizada por Fernando João Moreira, Diretor e Professor na Escola Superior de Turismo do Estoril[2], desenvolvendo o debate em torno das mais recentes dinâmicas do turismo e as oportunidades que elas apresentam para os processos museológicos à escala local.

Em alguns estudos recentes sobre turismo, vários autores[3] têm vindo a chamara a atenção para algumas tendências atuais do turismo de valorizar a experiencia do lugar. É um tipo de turismo que se baseia na valorização dos recursos locais no território, e na satisfação das comunidades locais pela presença e experiencia dos visitantes. Este tipo de turismo, que cria pontes (do inglês Bridging) e liga pessoas pode constituir-se como um instrumento de desenvolvimento nos territórios e criar oportunidade para um envolvimento ativo para as organizações e processos patrimoniais.

Este tipo de espaços, sejam eles território deprimidos por regressão das atividades industriais, seja por abandono das culturas agrícolas tradicionais agrícola, normalmente de baixa densidade e fora dos grandes aglomerados urbanos, podem pensar o turismo como uma possibilidade de desenvolvimento dos seus recursos patrimoniais. É certo que tem que enfrentar o desafio ou a tentação do turismo de massas ou da monoprodução turística e encontrar formas de alojamento local, de preferência junto da comunidade, que possibilite a criação de laços e encontros. Não se trata dum fluxo elevado de visitantes, mas de fluxos de baixa intensidade, que procuraram, junta das comunidades, apreciar as experiencias do e no território.

Embora o turismo de experiencia se possa pensar como um instrumento adequado aos territórios em recessão económica ou periféricos (naquel que será o seu modelo mais puro), vários autores têm chamado a atenção para as oportunidades do turismo de experiencia nos grandes centros urbanos. A experiencia no território, com as comunidades pode contribuir para processo de resiliência contra a gentrificação que os processos turísticos hegemónicos estão a produzir nos centros urbanos históricos.

Esta questão pode ser equacionada no âmbito do papel dos processos museológicos na sua relação como o desenvolvimento turístico e com o desenvolvimento do território. No seu início os ecomuseus, procuraram ser uma resposta para procurar novos usos nos territórios a partir dos seus patrimónios e da natureza do território. Esta é uma questão que tem vindo a ser debatida no âmbito da relação dos museus com o turismo. Normalmente, a questão é colocada no âmbito da contribuição da cultura e dos equipamentos culturais para a formação de produtos turísticos. Numa prespetiva pensada a partir dos interesses da comunidade, é interessante pensar no sentido inverso. Isto é, de que forma é que aquilo que existe pode constituir um modelo para atrair turistas. Um turismo que não molda o território para satifação de necessidades de mercado de massa, mas um turismo, de nicho de mercado, que usa as oportunidades oferecidas pelso territórios e pelas comunidades.

Uma das ideias que os processos turísticos envolvem é a questão da capacidade de carga turística do território. Uma ideia através da qual se tem procurado inserir alguma limitação ao uso turístico dos territórios, sobretudo os territórios de maior sensibilidade ambiental. A carga ecológica dum território é um indicador que tem vindo a ser desenvolvido através da equação entre a capacidade de carga ambiental, social e económica. Trata-se dum importante limite de usos do território e tende a envolver a comunidade na formulação da decisão sobre as implicações nas escolhas dos tipos de turismo que procuram atraír. Algumas comunidades onde estas estratégias têm vindo a ser desenvolvidas, mostram que um modelo de turismo bem orientado, leva ao crescimento das atividades turísticas em benefício das comunidades locais e das economias locais.

Há ainda várias questões que a economia do turismo tem vindo a colocar às organizações culturais. O da sua ligação mercado. Por via dos processos turísticos muitas das organizações ligadas á cultura, sobretudo a que se relacionam com os patrimónios, sofrem diversas pressões para ajustarem a sua oferta às dinâmicas do turismo. A relação entre a economia criativa e a economia do turismo têm constituído uma poderosa justificação para os processos de investimento em equipamentos culturais, voltados para o mercado turístico.

Alguns novos museus em espaços urbanos são criados nesta lógica. Isto levanta a questão se devemos pensar os equipamentos culturais como uma monocultura ou como um instrumento de desenvolvimento integrado dum território, onde os diferentes atores escolhem e decidem o modelo territorial que procuram projetar.

Os estudos críticos sobre o turismo têm vindo a chamar a atenção para as externalidades que os processos turísticos produzem num dado território. Parece existir um certo consenso, em abstrato, que os processos turísticos tradicionais têm a ganhar com o aproveitamento dos recursos patrimoniais e culturais dum dado território. Que turismo e cultura de potenciam mutuamente. Que contribuem para o desenvolvimento do território, em termos do aumento das trocas comerciais, na criação de riqueza e de emprego. Nesas análises ambos os processos se enquadram nos modelos económicos dominantes, no modelo liberal democrático, dando respostas às especificidades dos lugares e criando algumas alternativas de uso do território.

Atualmente emerge novas formas de turismo crítico, chamado turismo com causas que podem emergir no âmbito do chamado turismo 3.0 (o turismo 1.0 é o período de criação do produto turístico, o turismo 2.0 é o período dos anos 90 e 2000, com base no Marketing turístico, na relação entre a oferta e o consumidor, e o turismo 3.0 é o turismo com base no desenvolvimento de plataformas tecnológicas).

Neste novo tipo de turismo, de desenvolvimento tecnológico, a relação entre o turismo, cultura e o desenvolvimento do território tem vindo a alterar-se. O modelo modelos alternativos de turismo têm vindo a reconfigurar-se. Por exemplo, o turismo crítico tem vindo a chamar a atenção para a ligação entre o turismo e a reflexão sobre o modelo social. Sobre a questão da pobreza, da igualdade de género, da saúde, da educação ao longo da vida. É neste quadro que se devem analisar as novas formas de turismo que estão a emergir.

Que novas formas de turismo estão a surgir.

  1. O Advento do turismo de experiencia. É um tipo de turismo onde se vende a experiencia. Não está centrado no serviço, mas na atividade
    1. (veja-se o caso da azenha das sedas[4])
  2. Co criação do turismo. É um tipo de turismo onde se oferece ao visitante a oportunidade de construir a sua experiencia
  3. O turismo de transformação. Na basta a experiência do momento, é necessário prolongar a experiência e introduzir uma auto aprendizagem
  4. O turismo com causas, com responsabilidade social. Ato turístico como ato de criação de responsabilidade no mundo. São determinados tipos de turismo comunitário. Envolve a criação de redes de turismo comunitário. É um tipo de turismo onde o poder de decisão esta na comunidades, tem como objetivo melhorar a vida da comunidade. Comunidade está no princípio, no meio e no fim do turismo.
  5. O turismo de rede de cooperação. É um turismo que se desenvolve por via das redes sociais de cooperação. É um turismo que envolve a cocriação, a gestão de fluxos de informação e a criação de fluxos de poder.

Algumas referencias:

Timothy, Dallen (2016). “The Heritage Tourist Experience”, London,routledge). Fala-nos da emergência da sociedade do sonho. A experiência turística deverá evoluir par a 4º estádio da sociedade (depois da alimentação, da energia, da informação, a sociedade avançaria para a experiencia dos sonhos. A sociedade da experiencia. O valor dos novos produtos são medidos pela capacidade de produxir felicidade. Quanto fizerem voar, mais são valorisados. Trata-se do fim da relação Fda relação qualidade serviço em vavor da qualidade da experiencia.

Os museus e a museologia podem acrescentar valor à dimensão do sonho. Tal como nos anos setenta em Lamur e a museologia e o património, pelo valor das historias associadas aos produtos, contribui para este novo turismo. O que deve ser valorizado é o hotel que nos fazem viver emoções e o que é relevante é a componente emocional e da histórias.

O turismo pode transformar-se num processo de emancipação do território e das comunidades. O turismo comunitário desenvolve-se de dentro para fora. Promove o que há de dentro. É contrário às formas de alienação. É um turismo que cria laços, que evita o revivalismo, procura criar solidariedades. Torna-se portanto necessário pensar qual o lugar dos museus nete novo turismo justo e solidário. Se o turismo está a mudar como integrar os processos museológicos nestes novos modelos.

Os museus locais e sociais têm um papel mais ativo e abrem novas janelas para estas atividades. O novo turismo trás para os museus um novo tipo de atores e permite criar novos pactos e permite criar novas narrativas.

No novo turismo, o museu local pode oferecer novos fatores de competitividade ao turismo. O novo turismo vive da diferença e da especificidade do lugar. Nesse sentido pode desempenhar um papel de charneira entre o passado e o presente, permite acrescentar valor e ser mediador das trocas. O Museu pode assim ter um papel vigilante em relação ao modelo de desenvolvimento turístico e do território contribuindo para a participação da comunidade a inclusão construção da justiça cognitiva. A luta pela qualidade de vida e do Bem-estar tem como referencia o índice de felicidade interna bruta.

Exemplos de de turismo cultural

  • Serra de Agra. Turismo cultural
  • Cooperativa Terra Chã[5]
  • Herdade do Monte do Freixo do Meio, Montemor-o-Novo[6]

[1] http://www.museumonteredondo.net/index.php/61-iv-museum-festum-3-a-6-de-agosto

[2] Fernando Moreira, Doutor em Museologia pela ULHT. http://www.museologia-portugal.net/files/upload/doutoramentos/fernando_moreira.pdf

[3] Timothy, Dallen (2016). “The Heritage Tourist Experience”, London, Routledge

[4] http://www.azenhasdaseda.com/Aquaturismo/ALENTEJO_EM_ESTADO_LIQUIDO.html

[5] https://www.facebook.com/cooperativaterracha/

[6] https://www.herdadedofreixodomeio.pt/

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Eduard Said (1935-2002) e o Orientalismo

Eduard Said pensador.  professor de literatura na Universidade de Columbia, em Nova York e escritor palestino, nascido em Jerusalém, Edward Said marcou o rumo do pensamento contemporâneo com este livro, publicado em 1978, deixando em evidência os mecanismos de dominação  e de montagem de imagem que são e foram aplicados nos processos de colonização.

Este livro é seminal para o início de novas disciplinas cientíricas como são os Estudos Pós-Coloniais e a Teoria Crítica das Raças. O achado teórico de Said, e que tanto influiu nos estudos humanísticos pós-modernos não diz só sobre o passado, não se coloca como uma ferramenta crítica que permita ao historiador da cultura ou aos estudos literários compreender melhor o passado, ele sustenta que esse procedimento, chamado aqui invenção do outro, mantém sua vigência até hoje, servindo como instrumento de dominação.

Ele mostra como a representação que Ocidente fez de Oriente, com muita pouca relação com a realidade, e argumenta que essa representação _ que foi aceita com naturalidade pela comunidade científica e pelo imaginário popular ocidental_ foi necessária para que o Ocidente se (auto)definisse _encontrando um Outro, o oriental, que ajudasse, por  diferenciação, a se conhecer e elevar a si mesmo_ e legitimasse seus  interesses colonialistas. Do O Dezoito Brumário de Luiz Bonaparte, de Karl Marx , utiliza a frase: “Não podem representar a si mesmos; devem ser representados”, assim com Oriente, eterno, homogêneo e incapaz de se definir a si próprio;se referindo aos povos que os Europeus iam conhecendo e colonizando, utilizando o critério de descoberta e não o de encontro que conhece . Outra citação que ajuda a metaforizar de forma concreta sua demonstração é a extraída de Tancredo, de Benjamim Disraeli: “O Leste é uma carreira”. Outros autores como como Homero, Nerval, Flaubert, Kipling entre muitos outros, permitem a Said inscrever, na literatura universal, e nela encontrar subsídios para sua argumentação, apoios para sua tese em descrições, personagens, cenas, roteiros e imagens que em muito contribuíram para a idéia exótica e romântica que o Ocidente tem do Oriente.

Com brilhantismo, o efeito persuasivo da escrita de Saer é poderoso sobre o leitor.

Para sua demonstração o autor realiza uma descrição muito fundamentada dos processos de formação dos estereótipos sobre Oriente_ aberrante, subdesenvolvido e inferior. A tese central de Said é que o Oriente é uma invenção ocidental, uma espécie de imagem refletida no espelho para legitimar a identidade eurocentrista e discriminatória do Ocidente_ racional, desenvolvido, humanitário e superior. Suas perguntas chave, e que tocam o leitor são: Como representamos outra cultura? O que é outra cultura? Podemos definir o que é cultura quando pensamos na diferença racial, religiosa, social ou as elaborações teóricas sobre o tema sempre são interessadas, prontas para autodefinir a cultura própria no que deve ser preservado e defendido da hostilidade e agressão da outra desconhecida? E qual é o papel do intelectual que, atuando como mediador, propõe-se a traduzir, em termos linguísticos, semióticos e culturais uma  cultura para outra? Em que medida, pergunta-se o autor e nos perguntamos os leitores, esse mediador dá fundamentação ética e teórica aos processos de colonização e domínio que envolvem sempre procedimentos genocidas? Edward Said pergunta como é que a filologia, a história, a biologia, a teoria económica e política, a literatura serviram e servem utilizando seu instrumental crítico e teórico para elaborar essas ideias preconcebidas do que é o Outro _ temido, perigoso e por isso mesmo alvo de políticas de pacificação_ comenta uma série de textos e documentos, mostrando o discurso orientalista através de pronunciamentos políticos, relatos de viagem, estudos sobre a religião, a geografia e a história e mais especialmente as obras literárias de alguns poetas romancistas europeus fascinados por um Oriente distante e desejado que integra o imaginário do homem ocidental.

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As bibliotecas e a implementação da Agenda 2030 da ONU”

Tradução portuguesa 

Desde o início deste ano que a BAD assumiu o compromisso junto da IFLA de fomentar em Portugal uma maior consciência junto dos profissionais e dos decisores políticos sobre a importância das bibliotecas e do acesso à informação no âmbito da Agenda 2030 da ONU e quanto ao seu contributo para o cumprimento das metas dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

No seguimento na participação no IAP (Internacional Advocacy Programme) da IFLA, da realização de workshops e seminários sobre o tema, da divulgação junto da comunidade profissional dos principais documentos orientadores e da preparação de um questionário nacional para recolha de projetos relevantes desenvolvidos por serviços de informação, a BAD contribui agora também na tradução para português dos principais documentos da IFLA.

Está já disponível no website da IFLA a versão portuguesa do documento “Toolkit: Libraries, Development and the United Nations 2030 Agenda”. Este conjunto de ferramentas tem como objetivo auxiliar os profissionais no seu trabalho de advocacy junto dos decisores locais e nacionais, por forma a garantir que as bibliotecas e o acesso à informação são referidos nos Planos de Desenvolvimento Nacionais enquanto meio para garantir o cumprimento dos objetivos definidos na Agenda 2o30 da ONU.

A BAD agradece o trabalho de tradução e revisão dos associados: Sandra Dias, José António Calixto e Bruno Duarte Eiras.

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Fórum Político de Alto Nível encara desafio em segundo ano de implementação da Agenda 2030

Por Claudio Fernandes

Foram duas semanas intensas de trabalho em Nova York para membros do GT da sociedade civil para a Agenda 2030 do desenvolvimento sustentável no Brasil. Em diversas ocasiões foi apresentado o Relatório Luz (Spotlight Report), com representantes do GT presente em mesas de eventos paralelos e, duas vezes, em eventos oficiais – ODS 17 e apresentação do Relatório Nacional Voluntário do Brasil.

A negociação da Declaração Ministerial do ECOSOC, documento oficial resultante do evento, foi até o último momento, com três pontos de contenção: territórios sob ocupação, objetado por Israel e Estados Unidos; enquanto Canadá e Austrália pediram linguagem mais forte em gênero; e a nova contenção americana sobre o clima fazia sua estreia para os futuros embates de resoluções e declarações da governança multilateral. “Foi feio ver o voto isolado de ressalva (desassociação) dos Estados Unidos no parágrafo sobre o clima.” Avaliou Alessandra Nilo após testemunhar a sessão.

Mas tudo isso já é a conclusão apressada que serve mais para quem esteve lá do que para quem tem interesse no assunto, estando fisicamente distante. Vamos aos fatos.

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Atividades envolvendo o GT

Segunda-feira, 10.07 |Primeiro dia do Fórum Político de Alto Nível com filas longas para fazer o cadastro e receber o passe para poder entrar na ONU. O calor estava intenso neste úmido verão de Nova York.

Terça-feira, 11.07 | A primeira atividade de lançamento do Relatório Luz foi no evento paralelo do início da manhã do segundo dia promovido pela Plan Internacional e a Visão Mundial. Neste evento falaram Flavio Debique e Welinton Pereira, respectivamente, e Claudio Fernandes da Gestos, sobre os desafios da Erradicação da Pobreza e seus efeitos sobre a Infância no Brasil. Porém foi a realidade exposta por uma garota de dezoito anos, oriunda da pobreza das periferias urbanas brasileira que, mesmo através de uma tradutora, expressou tamanha eloquência e simpatia, dominando o evento, onde os dados técnicos eram corroborados pela metonímia viva do depoimento de Larissa Santos, cuja presença marcante é resultado do trabalho de ONGs comprometidas.

A pobreza é a expressão da violência sistêmica sobre a criança, o grupo etário mais afetado por sua consequência. Enquanto, em média geral, 27% da população brasileira é pobre, ou seja tem acesso a menos da metade do salário mínimo, 40% das crianças são pobres. Resolver o problema da pobreza é criar oportunidades para as próximas gerações a conseguirem aprumar o Brasil.

Quarta-feira, 12.07 | A Gestos, através do economista Claudio Fernandes, expôs no evento ODS 1 e Desigualdade, organizado pela GCAP (Ação Global contra a Fome). Este evento deixou evidente que é necessário políticas públicas eficientes de redistribuição de renda, não somente transferência condicional de parcos recursos, mas mudar o paradigma de tributação para um regime de progressividade fiscal se for realmente para eliminar a pobreza até 2030.

Duas horas depois, Alessandra Nilo debateu sobre as lições aprendidas a partir da experiência de produzir um Relatório Luz em um evento promovido pela UN-DESA sobre Engajamento de Partes Interessadas na construção de Relatórios Nacionais Voluntários. Ficando óbvio a partir daí que um dos temas principais do Fórum seria o encolhimento do espaço de participação da sociedade civil organizada nos processos nacionais, com algumas exceções, como em eventos da própria ONU e alguns países que honraram o compromisso de inclusão contido na Agenda 2030.

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Thomas Gass (UN-DESA) e Alessandra Nilo (Gestos/GTSC A2030) em evento paralelo.

Quinta-feira, 13.07 | Pela manhã vários representantes de organizações do GT para a Agenda 2030 estiveram no evento paralelo do Grupo da Sociedade Civil para o Financiamento para o Desenvolvimento. O evento buscava Coerência Política e Financiamento para o Desenvolvimento com Equidade de Gênero. Diversos problemas foram apontados pelo painel, que enxergam a mentalidade isolada na governança pública, a falta de transparência e responsabilidade fiscal, os interesses privados e os altos investimentos em armas são obstáculos à políticas coerentes que possam combater as desigualdade de gênero na raiz do problema. Soluções existem a médio e longo prazo, a Agenda pode ajudar, principalmente os ODS 4, 5, 8 e 9. Através da educação e de uma mudança profunda na forma de governar.

À tarde, na sessão de diálogo temático oficial, representando o Grupo Maior de ONGs, Claudio Fernandes compôs e leu um depoimento sobre os Meios de Implementação, a partir de sua própria contribuição ao Documento de Posição do GM, com ideias que ao final foram reforçadas pela Embaixadora da Suécia que estava à mesa.

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Fadekemi Akifadenrin (Nigéria), Marie Claire Price (Reino Unido), Sinara Grumieri (Brasil) e Oriana Gimenez (México) da RESURJ – Coletivo feminista por justiça e saúde sexual e reprodutiva.

Logo após, Sinara Gumieri, da ANIS – Instituto de Bioética – apresentou, em evento paralelo organizado pela RESURJ, o dilema da saúde sexual e reprodutiva de mulheres em regiões de alta incidência de Zika. O depoimento foi acompanhado por um vídeo documentário que deixou a sala em silêncio diante dos desafios apresentados. Mostrando o caminho longo a ser percorrido para se alcançar e manter direitos no Brasil.

Sexta-feira, 14.07 |Pela manhã Alessandra Nilo conduziu uma oficina para representantes de ONGs de vários países sobre como construir relatórios paralelos. A oficina foi organizada pela UN-DESA.

À tarde, várias organizações do GTSC participaram da reunião anual do Grupo Maior de ONGs que incidem na ONU. O Baha’i Center foi eleito no ano passado para conduzir e facilitar o processo para ONGs do mundo que vão participar em eventos nas Nações Unidas. O Grupo Maior de ONGs é um canal de inserção política de organizações da sociedade civil nos processos de negociação em andamento.

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Joara Marchezini na mesa do evento da TAP Network.

No terceiro turno da tarde de verão novaiorquina, quando a noite ainda é dia, Joara Marchezini, da Artigo 19 apresentou o Relatório Luz e a experiência brasileira no monitoramento do ODS 16 – Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis – em evento paralelo produzido pela rede TAP (Transparência, Accountability e Participação). Joara destacou a situação carcerária e a perseguição a ativistas e jornalistas no Brasil. O país é o campeão de assassinatos de ativistas ambientais no mundo. Ao mesmo tempo com o problema de baixa confiabilidade nos dados oficiais referentes à violência, por exemplo.

Fim de semana de mais trabalho

A campanha Ação para o Desenvolvimento Sustentável reúne diversas redes e organizações sociais. É conduzida pela Civicus, uma rede de redes sociais. Durante o fim de semana o IDS – Instituto Democracia e Sustentabilidade – e a Gestos apresentaram a experiência da construção do Relatório Luz no Brasil para uma fiel audiência de representantes da sociedade civil global que passaram o fim de semana reunidos para discutir Como falar a verdade: responsabilidade cidadã e inclusão nos processos de revisão nacional voluntária para o HLPF.

Vários países tiveram relatórios paralelos desenvolvidos pela sociedade civil organizada. De uma maneira geral, todos mostram uma narrativa voltada a questionar qualitativamente os ganhos quantitativamente econômicos apresentados pelos governos.

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Reunião na Missão do Brasil na ONU, com participação da delegação brasileira para o HLPF.

No domingo à tarde, o GT e várias outras pessoas que faziam parte da delegação oficial brasileira participaram de uma reunião de duas horas e meia na Missão do Brasil para as Nações Unidas. Chamada pelo Representante Permanente, Embaixador Mauro Vieira, e pelo chefe da delegação, Embaixador José Antônio Marcondes, a reunião foi um amplo exercício de democracia e política de alto nível. Apesar do contraste entre os relatórios do governo e o do GT da sociedade civil, o diálogo fluiu diante do fato de que as políticas de austeridade do Governo Federal, incluindo a EC 95/2016 (que indexa os gastos sociais por vinte anos), colocam em risco a implementação da Agenda 2030 no Brasil.

Sessão Ministerial do HLPF

Logo pela manhã, alarme de incêndio no edifício da ONU. Todas as pessoas evacuaram e foram para a rua. Quarenta minutos depois, a normalidade dos trabalhos foi quase re-estabelecida, pois as sessões corriam atrás do atraso.

O Secretário Geral das Nações Unidas, o português Antonio Guterres abriu a sessão Ministerial do HLPF com um discurso duro e realista diante das dificuldades para a implementação da Agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável. Ele falou das contradições entre o desejo e o compromisso dos Estados-Membros, fundados em acordos que diversos momentos desafiam o espírito da Agenda.

Em seguida, o professor da Columbia University e autor, Jeffrey Sachs, aumentou a temperatura da Sala de Conferência 4  ao cobrar honestidade política de quem governa. “Não é mais apenas uma questão de vontade política, mas de honestidade política. Os governos precisam ser responsáveis, a iniciativa privada precisa ser responsável, a sociedade civil idem.”

Após a estrondosa abertura da Sessão Ministerial, o primeiro grupo de governos apresentou seus relatórios voluntários nacionais – VNR – à plenária do ECOSOC. O Brasil fazia parte deste grupo, que incluía também Luxemburgo e o Nepal. O formato da apresentação como um painel somado ao atraso do início da sessão impediu que houvesse maior interação e debate. As apresentações foram mornas e voltadas para os aspectos mais positivos que cada país pudesse trazer de suas experiências.

A sociedade civil organizada, através de um processo coordenado pela UN-DESA e um comitê facilitador internacional, teve a oportunidade de fazer três perguntas ao grupo de países. Uma dessas perguntas foi feita por Claudio Fernandes representando a Gestos, o GT para a Agenda 2030 e o grupo da SC para FfD: “além do relatado pelos três países, o que cada um deles estão fazendo para redistribuir a renda através de políticas tributárias progressivas? E o que estão fazendo para conter o fluxo ilícito de capitais? E para garantir a participação da sociedade civil na construção dos VNRs e na implementação da Agena 2030?” Não houve resposta prática, apenas mais da mesma retórica de aparentar que tudo está bem.

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Anna Endo (Grupo Maior de Crianças e Jovens) fotografa Claudio Fernandes (Gestos/GTSC A2030) enquanto faz a pergunta ao primeiro painel de relatório voluntários nacionais na sessão Ministerial do HLPF.

A Declaração Ministerial

O documento síntese do HLPF só foi aprovado no último dia do Fórum. Disputas sobre questões de gênero e sobre a menção de territórios ocupados ameaçaram reabrir a discussão de todo o documento. O Presidente do ECOSOC, temendo um desastre iminente, propôs um acordo para que o documento fosse aprovado como estava. Ao final, os Estados Unidos fizeram uma ressalva especial sobre o parágrafo que tratava das mudanças climáticas.

De uma maneira geral, o HLPF de 2017, seguindo uma tendência apresentada no II Fórum de Financiamento para o Desenvolvimento, dois meses antes, mostrou como resultado aparente a consciência de que a implementação dos ambiciosos acordos de 2015 não será assim tão tranquila e harmônica. Diversos problemas relacionados à garantia de direitos ou ao desenvolvimento de políticas afirmativas para populações vulneráveis, como programas específicos de proteção da integridade das mulheres ou da classe trabalhadora ou de migrantes ou de indígenas ou de pessoas vivendo com HIV e AIDS ainda não são a norma, mas exceções em poucos territórios onde existem.

No final vários países levantaram ressalvas para partes do texto, mas acabaram concordando, sem deixar de lado uma dispendiosa retórica, com o princípio da Declaração.

O final deixa um gosto de repetição. Narrativas verbalizadas na defesa de setores, o que dificulta a integração de diversos desejos. Congratulam-se as boas ações que apontam em uma direção promissora, como ter encaminhado estrutura institucional para guiar o país na implementação da Agenda, como fez o Brasil e muitos outros países que ainda não entenderam que precisam de mudar muito mais do que criar um grupo de pessoas para defender a Agenda no meio de uma dura disputa política interna em governos que operam, em muitos aspectos, contra os princípios mais básicos dos ODS.

Para o GT da sociedade civil para a Agenda 2030 o HLPF foi uma multiplicação de incidências com apresentações e debates em mesas importantes, com o parêntese do aprendizado para quem estreava em Nova York e o colchete da soma de novas experiências para quem já é veterana em eventos internacionais de grande importância.

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Turismo e Luta de Classes por Agostin Cocola Gant

Turismo e luta de classes

Numa excelente entrevista ao jornal espanhol Público, o investigador Agustín Cocola Gant, que está a dedicar o seu pós-doutoramento na Universidade de Lisboa ao estudo do turismo e da gentrificação, aborda a questão da turistificação urbana, destacando a luta de classes que um tal processo pressupõe e intensifica. Uma luta, como veremos, principalmente personificada (A) pelos investidores que aplicam o seu capital nos grandes fundos de investimento que estão por trás de hotéis, companhias aéreas, grupos imobiliários e outras multinacionais e (B) pelos residentes que se vêem forçados a abandonar os seus bairros – tornados recursos para a captação de capital – enquanto assistem à privatização generalizada do espaço público, à contaminação do meio ambiente, ao desaparecimento de todos os pequenos comércios virados para as necessidades dos moradores locais e à destruição de espaços de encontro e de convívio. Um episódio mais na guerra sem quartel que o capital anónimo e global vem travando contra as comunidades locais.

Eis a entrevista integral (sublinhados meus)

Jornalista – La idea de que el turismo crea riqueza, ¿hasta qué punto es cierta?

Agustín – El problema ante esa pregunta es que los datos que existen solo miden el dinero que genera el turismo, pero no cómo se distribuye, ni los gastos que produce el turismo al Estado.

J – ¿Qué tipos de gastos?

A – Partimos de hipótesis, porque no hay estudios. El turismo crea empleo, pero empleo de poca calidad, precario. Para un trabajador puede estar bien para llegar a fin de mes, pero eso apenas cotiza a la Seguridad Social. Incluso algunos no cotizan, porque cobran 600 euros. Si tenemos en cuenta que muchos son trabajos de temporada, quizás por solo seis meses, y algunos tienen opción a pedir el subsidio por desempleo después… eso es un gasto del Estado porque no es empleo estable ni bien pagado.

El turismo mueve mucho dinero pero para las grandes empresas, compañías aéreas, hoteles, grupos inmobiliarios, turoperadores. Pero aquí lo que se queda es un trabajo precario para llegar a fin de mes y eso no debemos considerarlo riqueza. Por ejemplo, ¿cuánto dinero destina el ayuntamiento a limpiar playas, calles, para policía o ambulancias? Una serie de servicios pagados por los ciudadanos y, en su mayoría, destinados para facilitar la afluencia turística. No lo sabemos y debería hacerse un estudio serio.

J – Estamos tan faltos de empleo que es la gran excusa cuando se debate sobre el impacto del turismo.

A – En ese sentido el turismo es un chantaje porque no puede ser que todo sirva. Si por ejemplo a un pueblo llega una industria química que contamina todo el río, a lo mejor el ayuntamiento dice que genera empleo, pero las consecuencias son peores. Hay que poner sobre la mesa un debate social y político de estos aspectos. El todo vale es imposible. El problema está en que el turismo genera costes sociales y nadie está pagando por ello. Las empresas del sector no contribuyen a las arcas públicas para distribuir los beneficios del turismo.

J – ¿Somos conscientes del impacto que genera el tema de los apartamentos turísticos?

A – En el día a día el tema de que existan apartamentos turísticos en bloques de vecinos representa molestias, no poder dormir, no sabes qué vecino vive a tu lado porque cambia cada semana… No es un problema sin más. En muchos casos se convierte en un problema de salud pública. De gente que se tiene que levantar a las siete de la mañana y no puede porque no duermen.

J – ¿Y más allá de la convivencia?

A – Quita muchos apartamentos de alquiler para los trabajadores porque no existen ya. O los que hay son carísimos. Ya hemos visto cómo en Ibiza policías o médicos no pueden aceptar ofertas porque no encuentran vivienda.

J – Se empeora las condiciones de la clase trabajadora…

A – La vivienda es fundamental para la calidad de vida de cualquier persona. Y si la vivienda que consigues es compartir piso con gente que no conoces o pagarla con el 80% de tu sueldo… Tiene un impacto real. Afecta a la clase trabajadora con menos capital, pero también a una clase media con buenos salarios y buenas condiciones de trabajo que tampoco puede acceder a la vivienda en destinos turísticos. El 60% de la población en Barcelona gana 1200 euros o menos, y en el centro de Barcelona, por 1200 euros apenas hay nada.

Si hay algo más barato es de 30 metros cuadrados, no pidas más. Se olvida también que la vivienda disponible también es para extranjeros. El turismo no solo trae turismo temporal de fin de semana, también estudiantes internacionales que vienen por meses, europeos que tienen su segunda vivienda en España…Y también se olvida que como en zonas turísticas el precio de la vivienda sube, eso atrae a especuladores que compran vivienda como inversión. La compra, la deja vacía y la vende. El precio de la vivienda en Barcelona está subiendo al año un 15-18% y no hay actividad productiva que dé tanto margen.

J – Se busca un beneficio rápido y fácil a costa del turismo.

A – Sí. El hecho de que exista tanto turismo de borrachera y de fiesta en España es porque resulta un destino muy barato. Y eso es, en parte, por lo bajos salarios del sector y porque el turismo está subvencionado. El Gobierno subvenciona a compañías como Ryanair o Easyjet para que aterricen en El Prat y otros aeropuertos. En ese sentido, el turismo es un traspaso de fondos públicos a manos privadas, que se llevan el beneficio. Y la solución pasa por subir salarios a los trabajadores y subir impuestos a quienes más beneficios tienen.

J – ¿El impacto de estas empresas va más allá de perjudicar a la vivienda, sino a todo un barrio?

A – El turismo afecta a toda propiedad inmobiliaria. Los precios suben y un comerciante familiar no puede pagar alquileres caros, no puede afrontar 20.000 euros por un espacio en el centro de Barcelona. ¿Quiénes pueden competir por ese espacio? Grandes compañías y multinacionales. Se sustituye el comercio de economías familiares y destruye espacios de encuentro. El comercio tradicional es fundamental para la vida en comunidad de los barrios, es una sociabilidad que se pierde. Por ejemplo, asociaciones culturales o políticas también se tienen que ir porque no pueden pagar esos alquileres. Todos esos servicios desaparecen. ¿Y qué vienen? Tiendas de ropa, heladerías, tiendas de bicicletas… Servicios que no usa ni necesita a diario. Y encima no se puede encontrar con sus vecinos. En El Gòtic muchos decían que no tenían lugar para comprar. Se ha cambiado tanto por negocios enfocados al turismo que era difícil comprar el pan del día, fruta y verdura, pescado o carne.

J – ¿Se puede hacer vida en esas condiciones?

A – Es muy complicado. Porque además el mercado más cercano era el de La Boquería y tampoco pueden ir ya porque está enfocado como destino turístico y es más caro, está tan lleno de gente que no se puede pasar y te cierran fruterías para crear bares de tapas. Esta falta de comercio y lugares de encuentro es importante porque el espacio público no solose ha privatizado, sino porque hay tantos turistas en algunas zonas que es imposible caminar. Y si tú necesitas llevar corriendo a tu hijo a clase, y no puedes pasar… no puedes vivir.

Si eres una persona mayor y necesitas andar con cuidado para que nadie te empuje, tampoco puedes. Entonces mucha gente mayor se refugia en sus casas sin salir, al menos que tengan ayuda, porque no tienen dónde ir y porque les resulta peligroso. Y no solo de día. De noche, Barcelona es un lugar de fiestas, de despedidas de soltero sin control, y el ruido puede ser infernal para descansar. Todo junto hace que vivir en ese ambiente sea muy difícil y traumático.

J – La industria hotelera también contribuye al proceso.

A – Los hoteles, en algunos barrios como el centro de Barcelona, tienen mucho impacto porque no se puede construir como obra nueva. Por lo tanto, cuando abren un hotel, suele ser en un edificio de viviendas anterior que se compra, rehabilita y se cambia de uso. En algunos barrios, como en El Gòtic, se produjo este cambio de forma intensa. ¿Y quiénes son los inversores hoteleros? Los grandes fondos de inversión, grandes compañías que compran todo el edificio y les da igual los inquilinos que estén dentro, tienen poder para echarlos.

J – ¿Y, en esa situaciones, que armas tiene el ciudadano?

A – Ninguna. Es la administración quien no da respuestas. Aparte de protestar, el ciudadano no puede hacer nada.

J – La administración mira hacia otro lado.

A – La administración en Barcelona lo está intentando paliar pero son medidas a largo plazo y no tienen el apoyo del Gobierno central, porque una medida muy importante es cambiar la ley de Arrendamientos Urbanos y eso depende de ellos.

J – ¿Nadie se responsabiliza?

A – Esta semana se ha visto muy claro cómo el Estado niega la realidad. Ya vimos a Rajoy decir que quien esté en contra del turismo es muy corto de miras porque da trabajo y riqueza. Pero, en realidad, el turismo da beneficios a las élites económicas y genera un trabajo muy precario, de poca retribución y mucha estacionalidad, y en los barrios tiene un impacto cotidiano muy fuerte.

J – Ahora la prensa lleva a sus portadas y titulares las protestas contra el turismo.

A – No es algo ni mucho menos de cuatro radicales de la CUP como se hace trasladar. Está pasando en muchas ciudades europeas y norteamericanas. En Ciutat Vella grupos de vecinos llevan ya unos quince años, avisando sobre el impacto del turismo. El problema es que no están escuchando a los ciudadanos, que están diciendo que no pueden vivir así y exigen que se haga algo. Pero no reciben respuesta. Al revés, se está negando la realidad.

J – ¿Estas manifestaciones de Arran son la punta del iceberg?

A – Para mí sirve como una estrategia del Gobierno y de los medios de comunicación para deslegitimar a la gente que ha estado protestando este tiempo, y hacerle pasar por radicales. Y eso no es así. Hay muchas familias, abuelos, gente trabajadora harta del tema y que se organiza y protesta. Eso no son actos vandálicos, son una reivindicación política de los ciudadanos que viven en estos barrios.

J – ¿Definir esto como ‘turismofobia’ es un error?

A – Eso también forma parte de una estrategia, porque los vecinos protestan solo porque están en contra de un crecimiento del turismo sin control. Está en contra de cómo se distribuye esa riqueza y quiénes son los perjudicados. Ninguno de estos grupos está en contra del turista como individuo. Todos tienen claro que es algo estructural y un problema a ser regulado. Pero el problema es que si protestas contra el turismo y la administración no solo te ignora, sino que te dice que eres un descerebrado, lo único que genera es alentar más protestas y más la idea de ir contra el turismo.

J – Después del sector inmobiliario, ¿el turismo es otra burbuja nueva?

A – En parte sí, pero es muy difícil determinarlo. Pero sí es cierto que se esté dando en el sentido de que el turismo se ha visto como la gran solución de la crisis, con mucha liberalización y crecimiento sin control. Un hotel debe tener un 70-80% de ocupación o no le da beneficios. Si tú construyes y la oferta hotelera sigue creciendo, significa que el Estado deberá hacer más esfuerzos para atraer a más turistas, porque la ocupación debe ser del 70-80%. Y si no vienen más turistas el sector entra en crisis. Y entonces pasaría igual que con los empleos de la construcción, que provocó un pico de paro, pero ahora con el sector del turismo. Otra vez nos la daremos de frente.

J – ¿Este proceso esconde una lucha de clases?

A – Desde el punto de vista de que las élites salen beneficiadas y el trabajador ve reducida su capacidad de vida, sí lo podemos ver así. Antes la lucha de clases se concentraba en el mundo de las fábricas y el trabajador. Hoy día, la ciudad es muy importante comprenderla como un fondo de captación de capital. La ciudad es un recurso, como la especulación inmobiliaria para las grandes empresas. Y eso impide que un trabajador no pueda acceder a una vivienda y deba asumir trabajos que precarizan su forma de vida.

J – ¿Sin la gentrificación previa de muchos barrios no se hubiese producido este impacto turístico?

A – Por un lado, el turismo gentrifica barrios porque expulsa a la población que había. Y, por otro lado, el turismo va a barrios que habían sido gentrificados, como Gràcia o Poblenou porque le da calidad en el ambiente, la gente del barrio es de clase media, le da seguridad, tiene servicio, comercios, terrazas… Un turista no va a un barrio estigmatizado. Gentrifica al barrio que ya había sido gentrificado. Y los que llegaron allí, en un primer momento, como parte de la gentrificación del barrio, son ahora los que también se ven expulsados.

J – ¿Se analiza el impacto medioambiental que ocasiona este proceso?

Hace falta más estudios sobre el impacto pero es de sentido común. Por ejemplo, se sabe que la industria que más contamina es la aviación. O el consumo de agua del turismo, a través de campos de golf o hoteles. El tema de que se ha construido en toda la costa española, lo que ha implicado eliminar una reserva natural que existía allí y que ahora es hormigón. Eso será nefasto para la desertización que va a sufrir España. Otro detalle es que un crucero contamina como 12.000 coches. Solo uno. Y en un fin de semana en el puerto de Barcelona suele haber tres.

J – ¿Hemos llegado tarde para corregir esta situación?

A – En algunas zonas aún se está a tiempo de controlar, no tanto en Barcelona o Ibiza donde se ha permitido cualquier cosa. En Barcelona es muy difícil. Los barrios no pueden absorber más turismo. En algunas zonas debe hacerse un decrecimiento y crear otros servicios que generen otros empleos. Y, en otras, planificar de forma más responsable.

J – Pero, ¿cómo se puede planificar? Hemos visto que cada intento de regulación, como la gestión de Ada Colau con la gestión hotelera, produce críticas muy duras.

A – Claro, porque en España desde la época de Franco el gran negocio es el turismo y las élites económicas saltan a la mínima, porque no quieren perder poder. Si me dices que quieres controlarlo y yo tengo el poder económico, te digo que no. Entonces le queda el papel a la ciudadanía, e insistir en que esto no puede ser así y que afecta a nuestra vida.

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Galeria de Arte Urbana – Apelação Loures

Um outro bairro onde a Câmara Municipal de Loures tem vindo a desenvolver projetos de arte publica urbana é na Apelação.

 

 

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Turismo de base Comunitária

Turismo de Base Comunitária:
Diversidade de Olhares e Experiências Brasileiras

Organização:
Roberto Bartholo, Davis Gruber Sansolo e Ivan Bursztyn

Esta publicação é fruto de uma trajetória. Encontros e reflexões que ao longo da última década consolidaram uma abordagem ao turismo desde uma perspectiva mais ampla e complexa do que seguidamente vem sendo tratada como exclusivamente uma atividade econômica. O Laboratório de Tecnologia e Desenvolvimento Social (LTDS) está vinculado à área de Gestão e Inovação do Programa de Engenharia de Produção do Instituto Luiz Alberto Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia (COPPE) da Universidade Federal do Rio de Janeiro; e é liderado por Roberto Bartholo. O LTDS vem, desde 1996, realizando atividades que procuram unir a reflexão acadêmica ao enfrentamento de carências sociais, reunindo e formando profissionais interessados em aplicar critérios ético-valorativos à criação, gerenciamento e avaliação de modelos inovadores de intervenção e desenvolvimento.

A presente publicação está organizada em duas grandes partes. A primeira parte, intitulada “Diversidade de olhares” é dedicada a um enfoque teórico que possa dar contribuições para conceituação do Turismo de Base Comunitária. Na segunda parte, intitulada “Experiências brasileiras” buscamos expor algumas características  das iniciativas apoiadas pelo Ministério do Turismo no âmbito do edital 01/2008. Nossa intenção é dar visibilidade  para a diversidade de projetos e seus promotores, divulgando alguns dos lugares e iniciativas que compõem o cenário do Turismo de Base Comunitária no Brasil.

Apresentar um marco conceitual para o turismo de base comunitária não é das tarefas mais fáceis. Muitas são as abordagens possíveis e as referências que podem guiar um discurso que busque definir esta atividade que em sua essência é diversa. Não se pode falar em modelos ou quaisquer outras formas simplificadoras. A diversidade de contextos, histórias, lugares e personagens fazem de cada uma das iniciativas autoproclamadas “comunitárias” únicas. Tentar compreender essa diversidade e extrair ensinamentos que possam subsidiar a formulação de políticas públicas é sem dúvida um grande desafio.

Convidamos, assim, 27 pesquisadores, doutores e mestres, para compartilharem suas visões e experiências. Oriundos dos mais diferentes campos do saber (engenharia, antropologia, geografia, sociologia, ciências ambientais, turismo, jornalismo, economia, etc.) e dos quatro cantos do país e do exterior, os autores buscaram apresentar suas contribuições em forma de ensaios, artigos e estudos de caso. São textos que, no entender dos organizadores, podem contribuir para a compreensão das bases conceituais e, por conseguinte, fornecer ferramentas para o fortalecimento dessa forma de turismo, protagonizado por atores sociais cuja identidade foi forjada na história dos lugares. De forma alguma, desconectada com o mundo, mas distinguindo-se pela sabedoria construída no lugar, com suas crenças, valores, mitos, técnicas, enfim, por aqueles que detêm um patrimônio intangível, mas que existe, que resiste e que se dispõem a aqueles que compreendem o valor da diversidade, da alteridade.

A segunda parte, é dedicada a uma breve descrição dos 50 projetos apoiados pelo Ministério do Turismo por meio do edital 01/2008. A chamada para o  edital atraiu cerca de quinhentas propostas de todo o Brasil das quais 50 foram selecionadas por uma banca formada por representantes do Ministério do Turismo, por professores e pesquisadores de algumas universidades brasileiras e por consultores especialistas no tema.

Nosso objetivo foi o de reunir e apresentar as reflexões que hoje já estão disponíveis sobre o turismo de base comunitária, como um passo para um aprofundamento que exige olhares multifacetados, mas também que estejam abertos ao diálogo transdisciplinar que o tema necessita. Acreditamos que esta publicação marque o início de uma parceria entre o Ministério do Turismo e o Laboratório de Tecnologia e Desenvolvimento Social da COPPE/UFRJ, visando o aprimoramento dos instrumentos públicos de fomento ao turismo de base comunitária no Brasil. A consolidação do turismo de base comunitária enquanto atividade geradora de benefícios diretos as comunidades locais necessita de um esforço conjunto dos setores público e privado, da sociedade civil organizada e de instituições de ensino em todo o país.

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